Inovar não é simplesmente digitalizar o que já existe

Aracaju, 15 de outubro de 2026.

A transformação digital está mudando a maneira de projetar, executar e fiscalizar obras de engenharia. Mas, diante das novas tecnologias, uma questão se impõe: a digitalização representa riscos ou oportunidades? Esse foi o ponto de partida do painel “Digitalização nas engenharias”, com a participação de representantes das Forças Armadas e especialistas em Building Information Modeling (BIM).

Eng. civ. Ana Adalgisa Dias Paulino, vice-presidente do Confea

Mediado pela eng. civ. Ana Adalgisa Dias Paulino, vice-presidente do Confea, o encontro reuniu experiências da Força Aérea Brasileira (FAB) e do Exército Brasileiro, além de especialistas em BIM. A discussão mostrou que a tecnologia oferece novas possibilidades, mas seus resultados dependem das pessoas, do conhecimento técnico e da disposição para mudar.

Na abertura, Ana Adalgisa destacou a importância de avançar sem perder a essência da profissão. “A inovação precisa estar a serviço da engenharia e da qualidade dos projetos.”

Eng. eletric. Diego Xavier Araújo, capitão engenheiro da FAB

Primeiro palestrante, o eng. eletric. Diego Xavier Araújo, capitão engenheiro da FAB, apresentou a implantação do BIM na instituição e o projeto de reforma e ampliação do Aeródromo de Querari, no Amazonas. Localizada em uma região estratégica e sujeita a condições ambientais desafiadoras, a infraestrutura exige soluções técnicas cuidadosamente planejadas.

A experiência mostrou como a integração de informações pode ajudar a enfrentar problemas concretos, desde os levantamentos de campo até o planejamento das intervenções. Para o capitão, porém, a tecnologia precisa vir acompanhada de formação permanente.

“Não basta capacitar uma equipe e achar que o trabalho está concluído. As tecnologias evoluem, as pessoas mudam e os desafios também. Precisamos manter esse ciclo de aprendizagem em movimento e criar um ambiente em que a inovação faça parte da rotina”, destacou.
Entre os exemplos apresentados está o projeto de reforma e ampliação do aeródromo de Querari, no Amazonas, uma estrutura localizada em região isolada e estratégica. Submetida às intempéries, a pista precisava de melhorias para permitir a operação de aeronaves de maior porte. O uso da metodologia BIM contribuiu para o desenvolvimento do projeto, que recebeu reconhecimento em uma premiação realizada em Santa Catarina.

A apresentação também abordou o Plano Amplo de Capacitação BIM da FAB e iniciativas relacionadas à gestão predial, à pesquisa acadêmica e ao Centro de Inovação do ITA.

Eng. Daiane Castro Dias, gerente BIM da Diretoria de Projetos de Engenharia do Exército Brasileiro

A eng. fort. constr. Daiane Castro Dias, gerente BIM da Diretoria de Projetos de Engenharia do Exército Brasileiro, apresentou projetos que envolvem diferentes especialidades e dezenas de profissionais. Em um dos empreendimentos citados, 47 profissionais participaram do desenvolvimento do projeto.

No desafio, a tarefa de integrar tantas pessoas exigiu organização, responsabilidades bem definidas e informações confiáveis. É justamente aí que o BIM assume um papel que vai muito além da representação gráfica.

“Quando temos tantos profissionais trabalhando no mesmo projeto, não basta cada um fazer bem a sua parte. É preciso que todos consigam trabalhar de forma integrada, com informações compatíveis e objetivos claros. O BIM nos ajuda a organizar esse processo e a tomar decisões com mais segurança”, ressaltou Daiane.

A engenheira também chamou a atenção para a importância de utilizar a metodologia na gestão e na fiscalização das obras públicas, contribuindo para identificar incompatibilidades e antecipar problemas.

O profissional precisa evoluir junto com a tecnologia
O eng. civ. Ronaldo Amaral Chaves, presidente da Deskgraphics Consulting, levou o debate para o desenvolvimento das competências profissionais. Para ele, dominar um programa é apenas uma parte do trabalho: o engenheiro também precisa saber quais informações são necessárias, como verificar sua qualidade e como utilizá-las em cada etapa do empreendimento.

Eng. civ. Ronaldo Amaral Chaves, presidente da Deskgraphics

“O mercado está mudando. Não basta saber operar uma ferramenta; é preciso entender a informação que está por trás dela, saber se é confiável e como pode ajudar a tomar uma decisão. É essa capacidade que permite ao profissional crescer e assumir novas responsabilidades”, afirmou.

A discussão reforçou que a qualidade BIM não se resume à identificação de conflitos entre elementos de um projeto. Ela também depende da consistência dos dados, da integração das equipes e da possibilidade de utilizar essas informações no planejamento, na execução e na manutenção das estruturas.

Mudar a cultura para abrir espaço à inovação
Representando o BIM Fórum Brasil, Rogério Tsuyoshi Suzuki destacou que um dos maiores desafios da transformação digital não está apenas na tecnologia, mas na disposição dos profissionais e das empresas para mudar a forma de trabalhar.

BIM Fórum Brasil, Rogério Tsuyoshi Suzuki

“Não vim falar apenas dos cases de sucesso, mas também daqueles que ainda não conseguiram avançar. O desafio é fazer com que mais empresas percebam o valor do BIM e encontrem caminhos para adotá-lo. A inteligência artificial amplia ainda mais essas possibilidades, mas precisamos estar preparados para essa mudança. Hoje, o desafio não é apenas aprender coisas novas, mas também aprender a desaprender, deixando para trás aquilo que já não faz sentido para a engenharia do futuro”, provocou.

Para Suzuki, o BIM deve ser entendido como uma alavanca para a inovação, e não apenas como uma ferramenta. A evolução depende da capacidade de rever processos, experimentar novas soluções e adaptar as tecnologias à realidade de cada profissional e empresa.
Na sequência os especialistas responderam às questões de um auditório lotado.

Reportagem: Jô Santucci (Crea-RS)
Edição: Julianna Curado (Confea)
Equipe de Comunicação da 81ª Soea
Fotos: Sto Rei e DBrothers/Confea 
Gestão de imagens: Paula Moreira (Confea)