Legado da geografia crítica de Milton Santos vence o Jabuti Acadêmico

Brasília, 5 de outubro de 2026.

A percepção crítica do geógrafo Milton Santos (1906-2001) ainda repercute diretamente no estudo de colegas e de pesquisadores de diversas áreas. É o que comprova a obra vencedora do 3º Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria Engenharias, do eixo Ciências e Cultura: “Biodiesel e renda camponesa: o algoritmo da despossessão”, do também geógrafo e também baiano José Antônio Lobo dos Santos, lançada pela Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba).

O centenário comemorado ao longo de todo o ano ganha agora, portanto, mais um capítulo a demonstrar a importância da abordagem daquele que é considerado um dos autores clássicos da Geografia Humana. Aqui, o objeto de estudo é parte das populações dos 20 municípios abrangidos pelo Território de Identidade de Irecê-BA, envolvida com a comercialização de mamona para a indústria de biodiesel. Uma fração substancial das 400 mil pessoas que vivem na região e cuja renda vem sendo expropriada por esse processo produtivo incapaz de modificar sua estrutura social injusta, mesmo diante de sua face renovadora.

Coordenador de Meio Ambiente por 12 anos até agosto último e professor do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (IGEO/UFBA), Antônio Lobo fala a seguir de como sua formação acadêmica, iniciada na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e concluída em Pós-Doutorado na Universidade da Cidade de Nova York, em 2022, contribuiu para chegar a sua condição crítica atual, influenciada, sobretudo, pelo marxista britânico David Harvey, além do conterrâneo autor de “Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal”.

Confea – Este ano marca o centenário de Milton Santos, baiano que é um dos principais geógrafos do país. Qual a importância de essa premiação se dar em um momento de tanta visibilidade para a geografia e para a obra de Milton Santos?

Antônio Lobo – Milton Santos foi e continua sendo um marco importante, extremamente expressivo, não somente da Geografia crítica, mas da reflexão crítica, sobre as grandes desigualdades e injustiças dentro da sociedade. Certamente, um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX. E a tarefa de continuar levando o legado de Milton Santos para a frente, de continuar honrando os faróis que ele nos deixou, é muito importante. Então, considerando isso, eu acho que esse prêmio é muito relevante, um prêmio que nos ajuda a honrar e a preservar o legado de Milton Santos todos os dias. 
 

O livro tem um caráter bastante crítico, ele faz uma crítica muito dura e muito pertinente às desigualdades no campo brasileiro e à forma como grandes projetos vão expropriando renda no campo. Isso dialoga muito com as ideias do Milton Santos, que sempre foram ideias muito críticas. Então, eu acho que tem tudo a ver com essa premiação a valorização da Geografia, a valorização das Engenharias também, que foi a área na qual o prêmio se deu, nesse momento tão importante de lembrança sistêmica do legado do Milton Santos.

Geógrafo Antônio Lobo segue os passos de estudiosos como Milton Santos e David Harvey para analisar a estagnação da situação do campo, mesmo diante de oportunidades laborais pretensamente inovadoras
Geógrafo Antônio Lobo segue os passos de estudiosos como Milton Santos e David Harvey para analisar a estagnação da situação do campo, mesmo diante de oportunidades laborais pretensamente inovadoras

Confea – O Jabuti Acadêmico também revela a importância de a Câmara Brasileira do Livro se apropriar dos aspectos formais da linguagem acadêmica. Como foi a elaboração da obra?

Antônio Lobo – Foi muito importante a Câmara Brasileira do Livro ter criado o Jabuti Acadêmico porque, até então, nós tínhamos apenas o Literário e agora eles resolveram premiar as obras que são fruto de projetos de pesquisa, produzidas no âmbito das universidades e que trazem uma forma de apresentar os dados diferente. E esse livro foi fruto de 16 anos de pesquisas, que começaram no meu doutorado, na Universidade de São Paulo, em 2010, e teve um novo capítulo com o meu Pós-Doutorado, junto à Universidade da Cidade de Nova York, que aconteceu entre 2020 e 2022. 
 

Então, foram dois momentos importantes de pesquisa em minha vida que deram origem ao conteúdo do livro, onde a gente discute essa relação entre a transição energética, a partir da produção de biocombustíveis, e a permanência de desigualdades no campo, sobretudo a partir de processos de expropriação de renda. No caso analisado, da renda camponesa. Então, essa vertente acadêmica é muito importante, e que bom que a gente conseguiu produzir uma obra com esse caráter e obter uma premiação importante, no eixo das engenharias.

Confea – O subtítulo “algoritmo da despossessão” faz referência ao conceito “acumulação por despossessão” com que o geógrafo marxista David Harvey define a perda forçada de recursos públicos, terras ou meios de produção em favor do capital privado e financeiro. Como se dá essa acumulação no contexto do território sertanejo de Irecê, descrito no livro?

Antônio Lobo – Nós trouxemos a questão do algoritmo por entender que o algoritmo é um sistema relativamente inteligente, projetado para um fim específico. No caso do livro, nós entendemos que o algoritmo é esse sistema inteligente projetado para a expropriação da renda, para a despossessão da renda, ou seja, é uma forma deliberada de como o sistema capitalista se organiza para continuar se expandindo e para continuar acumulando riqueza nas mãos de grupos cada vez mais específicos e seletivos. Isso tem feito com que a desigualdade exploda em uma escala global, “globalitária”, como dizia Milton Santos, com muita força e muita velocidade.
 
Então, o uso do termo algoritmo se encaixa no livro nessa perspectiva, de um sistema projetado para a expropriação. E o que nós verificamos foi a presença muito forte disso, nos 20 municípios que compõem o território de identidade de Irecê. O sistema chega, a partir do discurso da transição energética, incentivando a agricultura familiar camponesa a produzir uma determinada matéria-prima em larga escala, que é a mamona, para que o sistema possa adquirir essa matéria-prima, produzir o óleo da mamona e, através do óleo da mamona, produzir biodiesel e comercializar em larga escala esse biodiesel no mercado, uma vez que aqui no Brasil existe um mercado próprio de produção de biodiesel porque a leia exige que o biodiesel seja adicionado ao óleo diesel. Então, cada litro de óleo diesel no Brasil detém aproximadamente 13% de biodiesel adicionado. Então, existe um mercado grande, poderoso, constituído. 

E aí, nós verificamos que esses agricultores camponeses estavam sendo incentivados a muitas vezes abrir mão daquela produção diversa, consorciada, que garante a estrutura alimentar da família, para produzir mamona. E depois eles não conseguiam colocar essa mamona no mercado de forma satisfatória, a um preço satisfatório, e essa mamona acabava migrando para a mão de uma rede articulada de atravessadores, e esses atravessadores acabavam repassando essa mamona para o mercado da recinoquímica paulista (indústria química voltada ao processamento e transformação do óleo de mamona (Ricinus communis) em derivados de alto valor agregado) e para o mercado da produção de biodiesel aqui na Bahia e em outros estados. Então, a menor parte do ganho ficava com o produtor, o agricultor familiar. E a maior parte do lucro obtido ficava na mão dos atravessadores e do mercado produtor da recinoquímica e do biocombustível. 
 

Então, foi-se articulando um processo de troca extremamente desigual: o produtor familiar entra com a terra, com o trabalho familiar, ele passa a ter mais dificuldade alimentar porque abre mão da produção de alimentos para produzir mamona, e no final acaba vendendo essa mamona a baixíssimo custo a essa rede de atravessadores e ficando com a menor parcela da riqueza obtida naquele processo produtivo. Então, nós verificamos que existia, e certamente ainda existe, um algoritmo, um sistema organizado para a expropriação da renda da agricultura familiar camponesa, para a despossessão da riqueza, a despossessão da renda da agricultura familiar camponesa. E foi essa discussão que nós trouxemos para o livro a partir de uma perspectiva bastante crítica, uma tese de expropriação de renda bastante constituída e que certamente colaborou para que o livro fosse visto e premiado no Jabuti Acadêmico 2026.


Confea – As primeiras referências ao livro apontam para a permanência das condições de exploração no campo, mesmo diante do uso de novas tecnologias como o biodiesel. Quais são as principais características dessa contradição?  Como o senhor pode resumir o impacto das políticas de produção de biodiesel sobre a agricultura familiar, em torno das relações entre tecnologia, desenvolvimento e desigualdades no campo? 

Antônio Lobo – A questão anterior já traz uma série de elementos para ajudar essa questão também. Mas o que a gente pode dizer é que, infelizmente, essa desigualdade vai se reproduzindo. Porque o que a gente espera das novas tecnologias, o que a gente espera da abertura de novos mercados, como, por exemplo, esse mercado energético novo, vinculado ao combate às mudanças climáticas, à necessidade da transição energética, ou seja, esse mercado das energias alternativas, o que a gente espera é que ele chegue abrindo novas oportunidades, criando novas perspectivas de desenvolvimento que sejam muito mais inclusivas, muito mais participativas e muito mais coletivas. 

Mas, infelizmente, o que a gente observou na prática foi outra coisa: a gente observou que, por mais que se tenha novas tecnologias, novas possibilidades produtivas, a essência fundamental do sistema capitalista não muda, não se transforma. E a essência fundamental é: expansão contínua e acúmulo de riquezas, que se dá a partir da expropriação da renda do trabalho, da expropriação da mais-valia, que é o trabalho não pago, que está ali embutido nas mercadorias ali produzidas. E isso tende a gerar muito mais desigualdade, a gerar muito mais instabilidade social, do que qualquer outra coisa. 

Então, a gente acabou verificando infelizmente a presença disso no território, o capitalismo se organizando, se moldando, para, através de finas relações, muitas vezes até imperceptíveis, continuar se expandindo, continuar extraindo renda e despossuindo a riqueza, para poder promover acumulação, que é uma acumulação cada vez mais específica e cada vez mais seletiva na mão de pequenos grupos que controlam os ativos globais do sistema capitalista. Então, infelizmente, foi o que a gente pôde verificar no campo com mais intensidade do que a promoção da melhoria das condições de vida, da qualidade de vida, e a promoção qualificada da distribuição da riqueza.

Confea – Quais são os principais aspectos fundiários envolvidos e como a sua visão científica se ampliou em relação a esse tema, ao longo da sua formação?

Com base no último Censo Agropecuário e nos demais censos realizados pelo IBGE, a minha visão é, infelizmente, pessimista em relação à questão fundiária, que não muda no Brasil, não se transforma. O Brasil continua sendo um dos países mais latifundiários do mundo. E quando a gente trata do estado da Bahia, esta situação é ainda pior. A Bahia está entre os cinco estados com a pior desigualdade na distribuição das terras, no Brasil. A Bahia é o estado que tem a maior população rural do Brasil, nós temos cerca de 3,2 milhões de pessoas vivendo no campo, na Bahia. A Bahia é o estado que tem a maior população negra em áreas remanescentes de quilombos no Brasil e ainda a segunda população indígena do Brasil, perdendo apenas para o estado do Amazonas. 

E mesmo assim, com tanta representatividade no campo, com tanta diversidade no campo, a Bahia está entre os cinco estados mais latifundiários do Brasil. E não se fala em reforma agrária. Não se discute reforma agrária. Essa pauta se tornou proibida no Brasil. Porque a correlação de forças, com bancadas formadas nas câmaras de vereadores, nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional, tanto na Câmara, como no Senado, é uma correlação de forças dominada pelos interesses agrários, interesses latifundiários que permanecem no Brasil desde as capitanias hereditárias, desde as sesmarias, desde a Lei de Terras de 1850. 

Então, infelizmente, nós vivemos em um dos países mais latifundiários do mundo, que nunca fez a reforma agrária, que fez uma modernização da agricultura, a partir dos anos 1960, de forma conservadora, de forma elitista, conservando as estruturas fundiárias concentradas do Brasil e que acabou culminando com a atual realidade agrária que nós temos hoje, com muitos conflitos, com muita disputa de terras e com muita violência no campo e com uma permanência constante da estrutura latifundiária brasileira. Então, infelizmente, nós temos muito a lamentar e a lutar, e não temos muito o que comemorar no Brasil.

Legado da geografia crítica de Milton Santos vence o Jabuti Acadêmico
O pesquisador baiano autografa a obra vencedora da categoria Engenharias do Prêmio Jabuti de 2026: maturidade acadêmica

Confea – Qual a importância de a geografia humana se preocupar com espaços de produção como a agricultura familiar brasileira do século XXI?

Antônio Lobo – A Geografia tem uma missão social de revelar as desigualdades espaciais, mostrar como o espaço não é um receptáculo de coisas, que ele não é estático. O espaço, seja ele urbano ou rural, é produzido no nosso dia a dia, no âmbito do nosso cotidiano, e essa produção vem carregada de desigualdades porque ela vem construída e mediada pelas relações de poder e aí os poderosos acabam impondo relações de desigualdade, relações de acúmulo no processo de produção desse espaço. 

Então, a geografia tem essa tarefa, de mostrar criticamente como esse espaço é produzido, de revelar essas seletividades, essas desigualdades, e como isso afeta o povo, como isso ceifa oportunidades, como isso ceifa possibilidades de as pessoas poderem viver melhor, poderem ter mais qualidade de vida, poderem ter um acesso mais qualificado ao esporte e ao lazer, à cultura, à moradia digna, à alimentação saudável. 

Então, a gente não fez nada além da nossa obrigação, desse papel importante e crucial que a Geografia tem na sociedade, principalmente nesse século XXI, tão marcado por desigualdades, por concentração e acúmulo de capital. É o legado que Milton Santos nos deixou e que a gente está trabalhando para poder dar continuidade a esse legado tão importante.

Confea – Como o senhor define a sua preparação até chegar a este tema, explorado mais diretamente a partir de seu mestrado e agora nesta publicação, em meio às mudanças socioeconômicas do país, ao longo desse período?

Antônio Lobo – Esse prêmio não foi um prêmio individual, ele foi um prêmio coletivo. Eu estudei em escola pública a minha vida pública, todas as oportunidades que tive foi através da escola pública, através das políticas públicas desenvolvidas pelo Estado, e depois dei continuidade a meus estudos na graduação, na Universidade Estadual de Feira de Santana, depois no mestrado, na Universidade Federal da Bahia, no doutorado, na USP, quando eu tive a oportunidade de iniciar essa pesquisa ora premiada. 

Então, foi um esforço coletivo, sustentado nas políticas públicas, na educação pública, na importância de nós termos um Estado brasileiro que olhe para todos e por todos e não fique capturado por interesses seletivos, por interesses de grandes grupos econômicos nacionais e globais que só têm como objetivo fundamental a expansão do capital e o acúmulo de renda. 

Eu costumo dizer que a escola pública, a universidade pública foi quem me deu régua e compasso para que a pesquisa pudesse ser desenvolvida, para que a maturidade acadêmica, a maturidade da pesquisa, a maturidade institucional pudesse acontecer e, em certa medida, culminar nesse prêmio Jabuti Acadêmico 2026. Então, devo tudo aos meus professores, às minhas professoras, a toda a comunidade escolar, às políticas públicas e ao Estado brasileiro.  

 

Legado da geografia crítica de Milton Santos vence o Jabuti Acadêmico



Confea – O senhor atuou também como coordenador de Meio Ambiente da Universidade Federal da Bahia. Qual a maior contribuição que seu olhar acadêmico pôde oferecer para essa área, não apenas para a academia, mas também para o reflexo dessa visão na sociedade, diante de um tema tão premente?

Antônio Lobo – Fui coordenador de Meio Ambiente durante 12 anos, de 2014 a 2026, e eu sempre procurei desenvolver ações ambientais na UFBA, de forma lastreada no entendimento de que a gente precisa pensar sempre a partir da dimensão socioambiental. A gente não pode pensar a sociedade apartada do meio físico-natural, das grandes questões ambientais. 

E foi uma gestão muito vitoriosa. Ganhamos um prêmio do ministério do Meio Ambiente que premiou o nosso programa de coleta seletiva, como o melhor programa de gestão sustentável de resíduos das instituições públicas brasileiras, em 2024, e, em 2023, nós conseguimos aprovar uma política ambiental. A UFBA é uma das poucas universidades brasileiras que têm uma política ambiental robusta e reconhecida nacionalmente. E em 2025, nós ganhamos um prêmio de uma ONG internacional chamada Humana Brasil, que premiou um projeto que nós implantamos de resíduos têxteis, roupas, sapatos e acessórios, na UFBA, onde conseguimos coletar oito toneladas em oito meses, que foram recauchutados e reinseridos para uso junto às comunidades, fortalecendo o reúso, a reciclagem, a economia circular, e evitando que esses produtos virassem resíduos e fossem parar nos aterros sanitários ou nos lixões. 

Nós plantamos 3.000 árvores na UFBA nesse período, todas elas do bioma Mata Atlântica, fortalecendo o bioma no Nordeste brasileiro, principalmente em Salvador, que vem passando por uma política muito intensa de desmatamento nos últimos anos. Então, foi uma gestão bastante exitosa, bastante reconhecida pelas comunidades interna e externa. Foi uma experiência onde a gente conseguiu mostrar na prática que é possível mudar a realidade que está posta. Que é possível construir uma sociedade diferente, preservando e fortalecendo o meio ambiente e trazendo mais segurança, proteção e qualidade de vida para a nossa população. A UFBA hoje é reconhecida nacionalmente e internacionalmente pelas suas ações ambientais, e tenho orgulho de ter colaborado para que a UFBA pudesse ter dado esse salto de qualidade na pauta ambiental.

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea