26-10-2010 11:10:42
Da Redação
O maior desafio da indústria do biodiesel no país é a diversificação de matérias-primas. Atualmente, 80% da produção brasileira de biodiesel provêm do óleo de soja e, segundo o Ministério da Agricultura, sua demanda cresce 3,6% ao ano, o que reforça a necessidade da pesquisa de outras fontes. Com esse intuito, o estudante de Engenharia Aderlânio da Silva Cardoso, da Universidade Federal de Tocantins, criou um mecanismo capaz de extrair óleo das microalgas descartadas após o tratamento do esgoto, que foi desenvolvido dentro da lagoa de uma Estação de Tratamento de Esgoto da cidade de Palmas.
Um dos desafios do estudo foi à criação de uma alternativa para driblar os altos custos envolvidos na produção do óleo de microalgas, relacionados aos investimentos em infraestrutura e com o cultivo. Segundo o estudante, o cultivo, os gastos com água, a adição de nutrientes, a energia para a centrifugação da biomassa, e a aquisição de tanques ou reatores encarecem a produção e dificultam sua utilização em larga escala. “Por já contarem com parte dessa infraestrutura, as concessionárias de esgoto têm um investimento relativamente baixo para a entrada no mercado do biodiesel. Esse é o chamariz para a aposta em um novo e crescente mercado para esse público”, explica o estudante.
“Uma das vantagens do uso de microalgas como matéria-prima na produção do biodiesel está relacionada à qualidade do óleo extraído, muito semelhante ao óleo de alguns vegetais que já são utilizados para a produção de biodiesel. A segunda envolve a redução do impacto ambiental associado à grande quantidade de microalgas presente nas estações de tratamento. E, por último, ainda é possível obter produtos como o etanol, o biogás e o hidrogênio, a partir dessas microalgas”, destaca Aderlânio.
O caráter multidisciplinar do estudo foi responsável pelas parcerias firmadas ao longo do desenvolvimento do projeto: “Além da própria estação de tratamento de esgoto, trabalhamos com a equipe do laboratório de Microbiologia Ambiental da UFT, com parceiros da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É um trabalho complexo, já que há pouca literatura nacional e a maioria das hipóteses pesquisadas teve o uso de metodologias estrangeiras”, esclarece o estudante, ao contar a respeito das primeiras etapas do trabalho.
“Ter o reconhecimento do Prêmio Jovem Cientista me proporciona conquistar mais um degrau rumo ao meu objetivo maior: conseguir, futuramente, o meu doutorado. Além de ter a oportunidade de mostrar a qualidade dos trabalhos desenvolvidos na Universidade Federal do Tocantins, que desenvolve pesquisas de ponta e forma pesquisadores com perfil e visão direcionados à associação do desenvolvimento tecnológico, com a redução dos impactos ambientais e a melhoria social da população em geral, também é uma oportunidade de mostrar que na região Norte temos bons pesquisadores, professores e instituições”, afirma Aderlânio.
Para a pesquisadora professora doutora Glaucia Eliza Gama Vieira, coordenadora do projeto e do Laboratório de Ensaio e Desenvolvimento em Biomassa e Biocombustível (Ledbio), “o prêmio Jovem Cientista representa a valorização de um trabalho de pesquisa de qualidade desenvolvido na instituição, fruto da parceria firmada com a Petrobras, em 2006, e do financiamento de projetos de pesquisa pelo CNPq nos últimos dois anos e meio de funcionamento do laboratório. A continuidade desses estudos promove a formação em pesquisa de estudantes do curso de Engenharia Ambiental e do mestrado em Agroenergia, ambos da UFT, e afins, direcionados para a obtenção de biocombustíveis de 3ª geração”.
Biodiesel a partir das Microalgas
Iniciado em 2008 no Laboratório de Ensaio e Desenvolvimento em Biomassa (Ledbio) da UFT, o projeto ganhou forma durante o desenvolvimento da monografia do estudante Aderlânio da Silva Cardoso, graduando do curso de Engenharia Ambiental da UFT, sob a orientação da professora doutora Gláucia Eliza Gama Vieira, e coorientado pela professora doutora Anelise Kappes Marques.
Para a pesquisa, foram utilizadas microalgas presentes em efluentes da lagoa facultativa de uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da cidade de Palmas, constituída de infraestrutura de pré-tratamento (gradeamento e caixas de areia e gordura) e um reator UASB. Inicialmente, cem mililitros de efluentes foram coletados da saída da lagoa para a realização de análises qualitativa e quantitativa das espécies de microalgas da lagoa. Em seguida, a biomassa microalga presente em dez litros de efluentes foi filtrada a vácuo e, posteriormente, seca ao sol, em condições naturais de umidade e temperatura.
Para a extração dos lipídeos, as microalgas foram submetidas a uma mistura de solventes orgânicos. O extrato obtido a partir da recuperação das microalgas representa 16% em massa, quando relacionado ao peso seco da biomassa. “As microalgas identificadas são produtoras, de forma predominante, de lipídios com ácidos graxos saturados, comumente utilizados na obtenção do biodiesel. O projeto mostra-se como uma alternativa aos processos de obtenção de algas tradicionalmente usados”, explica o estudante.
Mais informações sobre a pesquisa de Aderlânio da Silva Cardoso podem ser obtidas pelos telefones: (63) 8122-3792 e pelo e-mail asc_uft@uft.edu.br ou pelos contatos de sua orientadora, Gláucia Eliza Gama Vieira: (63) 3232-8205 e (63) 8418-6427 e glaucia.vieira@pq.cnpq.br.
Prêmio Jovem Cientista
Criado em 1981 e fruto de parceria entre o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Gerdau e a Fundação Roberto Marinho (FRM), o Prêmio Jovem Cientista tem o objetivo de incentivar a pesquisa no Brasil e é considerado, pela comunidade científica, uma das mais importantes premiações do gênero na América Latina. A entrega da premiação é feita pelo Presidente da República e reúne na cerimônia autoridades governamentais na área da Ciência e Tecnologia, além dos mais respeitados nomes da ciência brasileira.
Os temas escolhidos são sempre de interesse da população e buscam soluções para problemas nacionais. Alguns dos assuntos abordados em anos anteriores foram: "Qualidade dos alimentos e saúde do homem", "Reciclagem de rejeitos industriais", "Saúde da população e controle de endemias", "Oceanos: fonte de alimentos", "Saúde da População - controle da infecção hospitalar" e "Educação". Mais informações no site: www.jovemcientista.org.br ou pelo Twitter: @jovemcientista.
