Brasília, 13 de agosto de 2009.
No processo de queima de combustível para obtenção de energia elétrica cerca de 35% do combustível é aproveitado. O restante é transformado em calor e liberado para o meio ambiente. Sistemas de cogeração de energia surgiram justamente para aproveitar esses cerca de 65% de combustível transformado em calor para transformá-lo em energia térmica. Essa energia pode ser transformada em mais energia elétrica, em energia mecânica ou em calor ou frio, operando sistemas de ventilação e condicionamento ambiental. No sistema de cogeração há apenas 15% de perda de combustível.


Trata-se de uma das melhores formas, segundo especialistas, para atingir um elevado grau de eficiência energética, além de ser ambientalmente responsável. “Processos mais eficientes de geração de energia irão sempre emitir menos CO2, porque para uma mesma unidade de insumo energético, gera-se energia elétrica e energia térmica”, explicou o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nivalde de Castro.
A partir de sistemas de cogeração de energia, residências podem obter água quente para uso doméstico, ou, ainda, operar sistemas de ventilação e aquecimento de forma ambientalmente responsável, liberando menos gás carbônico no ar. No campo, pequenos produtores podem utilizar a energia que antes seria jogada fora para secagem de produtos agrícolas. No ramo das indústrias, inúmeras são as possibilidades de aplicação da cogeração de energia. Indústrias de papel e celulose, têxtil, química, siderúrgicas, de cerâmica, fábricas de cimento, produtores de açúcar e álcool, entre outros, podem se beneficiar do sistema. Hospitais e shopping centers são outros dois exemplos de estabelecimentos que podem aproveitar a alternativa.
Autoridades e especialistas da área são unânimes em afirmar os benefícios que a cogeração pode trazer. Para o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico Brasileiro (ONS), Hermes Chipp, a vantagem da cogeração é a criação de uma destinação útil para o calor excedente em sistemas de geração de energia convencionais. “O uso compartilhado do calor pelo processo industrial e para a geração de energia elétrica é que trazem vantagens. Separadamente, haveria grandes perdas de calor em cada aplicação. Então, a cogeração aumenta o rendimento térmico do processo compartilhado”, explicou.
Para alguns especialistas, a cogeração é um dos instrumentos mais importantes no cumprimento das metas do Protocolo de Kyoto. Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) do Instituto de Economia da UFRJ, é um dos que compartilha essa visão. “Em um cenário onde se precisa expandir a oferta de energia ao mesmo tempo em que se mitigue o aquecimento global, a utilização de processos mais eficientes de geração de energia é essencial para que se cumpra este duplo desafio”, defendeu Castro. A visão do vice-presidente de sustentabilidade da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-Condicionado, Ventilação e Aquecimento, Samoel Vieira de Souza, amplia a discussão. Ele acredita que a contribuição da cogeração é mais abrangente do que o cumprimento do Protocolo de Kyoto. “Além de cooperar para a redução do aquecimento global, a cogeração elimina também boa quantidade de resíduos, evitando degradação do meio ambiente. Ela reaproveita algo que antes era considerado resíduo. Esse resíduo na cogeração vira matéria-prima, insumo”, afirma.
A superintendência de regulação dos serviços de geração a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), no entanto, tem outra perspectiva sobre o assunto. “Sem dúvida a cogeração é uma importante ferramenta para a redução das emissões de gases do efeito estufa, mas não a única. Não podemos nos esquecer das fontes renováveis, como solar e eólica, além do combate ao desperdício de energia, que também pode reduzir significativamente a emissão dos gases”. A Aneel destaca ainda outro benefício da cogeração, além da redução da emissão de poluentes: a redução de custos com combustíveis, quando comparada à produção de energia térmica e elétrica separadamente.
No entanto, há ressalvas. Segundo Alexandre Szklo, vice-coordenador do Programa de Planejamento Energético (Coppe) da UFRJ, não há processo de geração de energia 100% limpo. Estabelecimentos para os quais a cogeração é compensatória costumam estar localizados nos centros urbanos. “Esses estabelecimentos são menos poluentes que uma central termoelétrica situada no campo, mas esses poluentes são mais concentrados. Se somados aos poluentes dos transportes dos centros urbanos por exemplo, nem sempre a cogeração será tão limpa como o projeto indica”, explicou. “Mas se você vai utilizar realmente as duas energias (elétrica e térmica), de fato vale mais a pena, do ponto de vista ambiental, investir em um sistema de cogeração”.
E do ponto de vista econômico? Vale a pena investir?
Beatriz Leal
Assessoria de Comunicação do Confea
