Um futuro de conhecimentos humanos e tecnológicos em harmonia

Aracaju, 13 de de outubro de 2026.

Referência em inovação, tecnologia e transformação digital, Martha Gabriel apresentou, na noite desta terça-feira (13/10), a palestra magna na abertura da 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea), realizada até a próxima sexta-feira, no Centro de Convenções AM Malls, em Aracaju. Falando sobre as habilidades, proezas e limites da convivência entre humanos e inteligência artificial, ela fechou sua palestra com uma posição que poderia parecer óbvia, não fosse o caminho construído para chegar à sua conclusão. “O futuro é um híbrido de humanos e de tecnologias”. E depende de conhecimentos, habilidades e atitudes.

Pouco antes, a futurista com formação em engenharia civil e futurismo, entre outras, em um mundo tão complexo como pequeno que a fez percorrer da Unicamp ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), considerava que “a humanidade adota a automação desde sempre. A tecnologia não tira a relevância de ninguém, e sim a falta de adaptabilidade”.


Martha considera que a inteligência humana precisa ser valorizada em aspectos como  habilidades múltiplas simultâneas, autonomia, ambiguidade, pensamento crítico e emoção. E argumenta que muitas escolas estão pedindo para ter aulas sem tecnologia,  apresentando pesquisas comparativas entre usuários de IA recorrentes e menos recorrentes. “Pensar primeiro, IA depois”.
 

Tão longe, tão perto: o futuro dos negócios e da convivência das pessoas com a tecnologia entre questões filosóficas apontadas por Martha Gabriel


Risco, reversibilidade, incerteza, autonomia, impacto humano e dependência precisam ser mais valorizados, ao invés do benefício puro e simples a ser alcançado pelo uso da IA. “O pensamento crítico é o mantra”, dizia ao final da apresentação. Um verdadeiro paradoxo em relação ao início da conversa, quando remeteu à sua palestra na Soea de Goiânia, em 2021, quando comentara que “o mantra” era a aceleração digital, a agilidade, todos implementando sistema ágeis.

Ao citar seu livro atual, “A (R)evolução das Habilidades para o Futuro do Trabalho na Era da Inteligência Artificial”, semifinalista do Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro deste ano, a autora bestseller enfatizou que saber perguntar se constitui no ceticismo amável, onde se busca descobrir onde posso estar pensando errado. Outros aspectos necessários são: superar os vieses cognitivos, o que pode ser feito por meio da convivência com pessoas diferentes, assim como deva ser estimulada a  convivência entre a lógica, a argumentação e a retórica. “O repertório deve ser mantido entre a IA e entre a pessoa. Outro aspecto é o conjunto de valores e atitudes morais e éticas das pessoas”.  
 

Antecipar é preciso
Portanto, percebe-se que a tal hibridez entre humanos e máquinas se mostra uma percepção cada vez mais complexa, cercada de aspectos objetivos e subjetivos. Com sua experiência com o universo futurista, no qual Alvim Tofler era a principal referência nos anos 1970,  Martha Gabriel evoca as vantagens da antecipação. Mesmo que para isso seja possível, outra vez, estimular a convivência com a máquina.


“Fomos educados para reagir, e não para antecipar. Nosso biológico não enxerga a mudança.  Nosso cérebro não tem a velocidade da máquina. Só reagindo, continuamos fazendo muito bem o que não precisa ser feito. Se for possível automatizar, automatizo e vou fazer o que a máquina não faz. Para navegar o futuro, usamos instrumentos, como a inteligência artificial. Se tem uma tecnologia que nos ajuda a resolver problemas complexos é a IA”.

Já em direção ao futuro, para acompanhar as tendências, como ela se refere, precisamos do letramento de futuros, do futurismo. “Temos que olhar para a tendência, mas precisamos navegar as pendências. Pé na pendência, cabeça na tendência. Nós conseguimos prever cenários de futuros, alguns acontecem e outros não. Aí conseguimos enxergar de maneira mais ampla, criando determinados futuros, evitando problemas. Já os cenários negativos, ajudam a gente a entender o que não devemos fazer. Os positivos, o que devemos fazer”.

É dessa forma que podemos ir além e combater o pensamento de curto prazo. “Os dados mudam. Eu preciso me antecipar ao que vai acontecer para tomar decisões de longo prazo, outra vantagem do futurismo. Temos possibilidades de futuro, certezas relativas. Se não souber para onde estou indo, tenho menos possibilidades de sucessos. Preciso de pensamento estratégico de futuros para mitigar riscos”, diz a orientadora em formações de negócios em todo o país, e de inteligência artificial, desde 2017.

Entender os sinais de mudanças
É com essa carga de evolução própria que Martha Gabriel considera não adiantar mais apenas ser ágil, se não for na direção correta. “Precisamos identificar sinais de mudanças. Não é adivinhação, é método. No presente, identificamos sinais de mudança.  É aquele fato que dá um frio na barriga. Ela te mostra que o mundo pode mudar naquela direção. Podemos identificar os futuros possíveis e nos prepararmos. Temos que olhar para onde a bola está indo”, disse, apresentando aspectos sobre avanços tecnológicos recentes e outras predições anunciadas há décadas. “Até poucos anos, falávamos a linguagem da máquina. Agora, ela fala a nossa linguagem, o nosso sistema operacional. Quem domina a linguagem domina o nosso sistema operacional”.
 

Aspectos sociais e humanos superam os econômicos para a convivência entre humanos e máquinas, na visão de mundo da pesquisadora


Se tirar o humano do looping de quem ensina a humanidade, vamos ficar apenas com os técnicos, disse, questionando negativamente essa possibilidade. “Todos estão com medo de ser substituídos. Temos jogado melhor porque agora temos jogadas de xadrez que nunca vimos na vida”, acrescentou. “Nosso desespero tem que ser: o que eu não consigo fazer, se a máquina não conseguir fazer mais?”, questionou, agora de forma positiva. 

Martha argumenta ainda que hoje os robôs estão ativos, estratégicos, tendo uma posição fundamental na sociedade. “Vamos começar a ver uma ascensão de seres digitais junto com a gente. Uma hiperinflação de habilidades e conhecimento. Preciso de quem tem habilidades para usar esse conhecimento, numa reconfiguração total do trabalho entre humanos e máquinas. Antes da IA regenerativa, eu gastava muito para ter uma produção em redes sociais. Nosso problema não é mais produzir, é a gente validar, entender, ser autêntico. Fomos educados para executar, não para discernir. Qualquer competência tem três pilares: conhecimento, habilidade e atitude. Hoje temos acesso a conhecimentos de qualquer área, mas saber usar o conhecimento requer atitude”, considerou. 

Eixos, sinais de mudança e impactos serão fundamentais no futuro dos negócios. Entre os eixos, a confiança, no caso da Fake News, por exemplo. “As novas fronteiras trazem eixos emergentes com possibilidades de termos novos modelos. Os negócios do futuro saem de estruturas centradas em lucro, eficiência e controle do passado para ecossistemas inteligentes que evoluem”. Seria beneficiado quem souber usar a IA agêntica, tome decisões em tempo real e/ou se aproprie da automação cognitiva, dos dados integrados e dos ecossistemas colaborativos, enquanto os demais enfrentarão riscos tecnológicos, organizacionais e sociais.

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea