Aracaju, 15 de outubro de 2026
A modernização das normas regulamentadoras e os desafios para a promoção de ambientes profissionais mais seguros estiveram em pauta durante o painel sobre as Normas Regulamentadoras nº 1 e nº 4 (NR-1 e NR-4), realizado na programação da 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea), em Sergipe. Mediado pelo presidente do Crea-SE, Dilson Luiz, o encontro reuniu especialistas para discutir mudanças legislativas, gerenciamento de riscos ocupacionais e os impactos dessas transformações na atuação dos profissionais da área de segurança do trabalho.

Na abertura, Dilson Luiz destacou as dificuldades enfrentadas na implementação das normas regulamentadoras diante da realidade social e econômica brasileira. Os desafios ultrapassam o cumprimento das exigências legais e envolvem aspectos estruturais, organizacionais e culturais que influenciam diretamente a prevenção de acidentes e doenças ocupacionais.
Sob uma perspectiva legislativa, o engenheiro civil e de segurança do trabalho Leon Gregório, apresentou aspectos da NR-4, que estabelece diretrizes para os Serviços Especializados em Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT). Entre os pontos discutidos estiveram a atualização da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), os debates sobre a denominação e a estrutura dos serviços especializados e os impactos da regulamentação nas relações entre empresas contratantes e trabalhadores terceirizados. Também foram apontados desafios relacionados à abrangência de determinados dispositivos normativos e à necessidade de maior clareza para sua aplicação prática.
Ao aprofundar o debate sobre a NR-4, Kayo Ronan, engenheiro de segurança da Petrobras, destacou a evolução da segurança do trabalho de um modelo centrado no cumprimento documental para uma abordagem orientada à gestão de riscos, à produção de evidências e à avaliação de desempenho. “Os processos no mundo do trabalho são dinâmicos, as normas também devem ser”, afirmou, ao defender a necessidade de atualização contínua dos instrumentos de prevenção diante das transformações nas atividades produtivas.

O especialista também chamou atenção para os fatores psicossociais no ambiente profissional. Citando estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mencionou a perda anual de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho em todo o mundo em decorrência da depressão e da ansiedade. Para ilustrar a complexidade desse cenário, apresentou o exemplo das operações offshore, nas quais pressão operacional, confinamento, isolamento, escalas de trabalho e fadiga se somam aos riscos inerentes às atividades. Kayo também destacou as oportunidades para a Engenharia com a perspectiva de exploração de petróleo na Margem Equatorial, região estratégica para um novo ciclo de desenvolvimento energético no Norte e Nordeste do país.
A realidade das pequenas e médias empresas foi o foco da apresentação do engenheiro civil e de segurança do trabalho Edipo Henrique, que discutiu as dificuldades de aplicação da NR-1 em organizações com estruturas e recursos distintos. O palestrante ressaltou a predominância de empresas de menor porte no Brasil e apresentou dados internacionais sobre acidentes e doenças relacionados ao trabalho, chamando atenção para as diferenças entre os registros brasileiros e mundiais. Também levantou a possibilidade de que subnotificações e limitações nos sistemas de informação influenciem a compreensão do cenário nacional.

Édipo enfatizou ainda a importância da qualidade dos laudos técnicos para o reconhecimento, a caracterização e a avaliação dos riscos ocupacionais. A identificação inadequada de agentes químicos, ruídos e outros fatores presentes nos ambientes de trabalho pode comprometer tanto as medidas preventivas quanto a confiabilidade dos indicadores. Ao abordar a atualização da NR-1, apontou a necessidade de maior objetividade na definição de critérios e metodologias para a aplicação das novas exigências.
Encerrando as apresentações, o engenheiro ambiental Rogerlan Rodrigues detalhou os fundamentos da NR-1 e seu processo de atualização, com destaque para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). O especialista explicou a relação entre os dois instrumentos, ressaltando o GRO como processo contínuo de identificação de perigos, avaliação e controle de riscos, enquanto o PGR reúne os documentos e as medidas que materializam esse gerenciamento.
Entre os benefícios da conformidade normativa, Rogerlan destacou a redução de acidentes e doenças, a melhoria da saúde e do bem-estar dos trabalhadores, o aumento da produtividade, o maior engajamento das equipes e o fortalecimento da imagem institucional das empresas. As discussões evidenciaram que a evolução da segurança do trabalho exige não apenas adequação às normas, mas também conhecimento técnico, planejamento e uma atuação preventiva capaz de acompanhar as transformações do mundo profissional.
Reportagem: Felipe Vasconcelos (Crea-CE)
Edição: Beatriz Leal Craveiro (Confea)
Gestão de fotos: Paula Moreira
Equipe de Comunicação da 81ª Soea
Fotos: Sto Rei e DBrothers/Confea
