Recife, 22 de setembro de 2009.
As empresas de saneamento estão descobrindo formas para não jogar energia e dinheiro fora. O desperdício de recursos existia quando elas deixavam que resíduos do tratamento de esgoto fossem levados para aterros sanitários. Além do dano financeiro; também o dano ambiental.A mudança de percepção tem levado companhias estaduais de água e esgoto a investir em projetos e pesquisas para utilizar o metano emitido pelos resíduos como combustível para geradores elétricos e também para produção de tijolos. Outro aspecto desses empreendimentos é o potencial para obtenção de certificados de crédito de carbono, já que a queima do metano reduz a quantidade de CO2 enviado à atmosfera.
O lodo produzido nos esgotos, nas tubulações e nas estações de tratamento é um problema para as concessionárias de água e esgoto mundo afora. Duas experiências apresentadas na manhã da segunda-feira (21) no 25º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, que acontece até sexta-feira (25), no Centro de Convenções de Pernambuco, mostraram que a destinação dos resíduos é parte importante dessa cadeia.
O espanhol José Antônio Soler apresentou uma técnica de produção de energia gerada a partir do lodo coletado nas Estações de Tratamento de Água (ETAs). O que antes era um problema, pois gerava inundações crescentes e contaminação dos rios, virou produção de energia limpa. “A Espanha é um país deficitário de água, com problemas sérios de abastecimento. Não poderíamos contaminar os recursos que já são escassos. Precisávamos dar uma destinação mais limpa ao lodo”, observou Soler.
José Henrique Penido, assessor chefe da Diretoria da Comlurb – Rio de Janeiro – falou como as companhias podem transformar o passivo ambiental em aproveitamento energético usando o metano como fonte de energia e recursos. “O aproveitamento energético do lixo vem sendo buscado no Brasil desde 1972, mas agora estamos conseguindo realizar também o aproveitamento social. Um bom exemplo é a utilização do biogás produzido a partir da queima do metano em cozinhas comunitárias. A nossa experiência no Rio de Janeiro permitiu dois ganhos: não jogar o metano na atmosfera, que é 21 vezes mais maléfico que o CO2, e realizar uma ação que proporcione dignidade a população carente”, esclareceu Penido.
Sobre a exitosa experiência realizada no Aterro Bandeirantes, o maior da América Latina e o segundo maior do mundo, localizado em São Paulo, José Henrique adiantou que a importância do aterro não existe somente por sua capacidade de geração de 20 MW de potência instalada, mas, principalmente, porque o projeto está inserido no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), permitindo a participação em créditos de carbono nos próximos 15 anos.
Atualmente o Bandeirantes opera 8,5 toneladas de lixo por dia, com a extração de metano feita em 230 poços e três mil m3 hora de queima de metano. No projeto não ficou de fora o aspecto social. Atualmente com 1.200 catadores dependendo do aterro, há o aporte de R$ 1,2 milhão por ano para o fundo de participação dos catadores. “Esse fundo, que é uma exigência em projetos de MDL, permitirá aos catadores a sobrevivência depois de o aterro encerrar suas operações”, explicou Penido. “O segredo desse tipo de projeto é a elaboração de um bom edital de licitação, com regras claras e objetivos definidos”, finalizou.
TIJOLO – Um projeto da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) está aproveitando o que antes parecia não ter utilidade alguma e ainda causava sérios danos ao meio ambiente. O lodo coletado nas Estações de Tratamento de Água (ETAs) está sendo utilizado como matéria-prima para a fabricação de tijolos para a construção civil.
O projeto, desenvolvido pela Gerência de Inovação Tecnológica da Compesa, pode solucionar um grave problema das companhias de saneamento de todo o país: a destinação final dos resíduos sólidos.
O lodo é coletado na ETA da barragem de Botafogo, que abastece a área norte da Região Metropolitana do Recife (RMR). A partir daí é fita uma mistura de 15% de lodo e 85% de argila e massa cerâmica. O tijolo experimental é produzido em miniatura e vem sendo testado no Laboratório de Tecnologia de Materiais do Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep), parceiro da Compesa no projeto.
De acordo com informações divulgadas pela Companhia Pernambucana, testes realizados em laboratório constataram que o tijolo fabricado com a mistura de lodo com massa cerâmica não tem potencial de contaminação ao meio ambiente. Em relação ao risco de toxidade, o tijolo foi classificado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) como Classe 2 – não inerte.
Antes da comercialização os tijolos vão passar por testes, como os de durabilidade e resistência, além da realização de estudos técnico e de viabilidade econômica. O produto já obteve a aprovação da Agência Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (CPRH) e foi considerado tecnicamente viável e ambientalmente seguro. A partir de agora os tijolos serão produzidos em escala real, em olarias, para que sejam avaliados. A Compesa ainda vai definir como e quando esse produto será disponibilizado no mercado.
Ondine Bezerra
Assessoria de Comunicação do Confea
