As consequências do fogo

Josana Salles, Gazeta Digital, 26 de outubro de 2010

O retorno das chuvas no Centro-Oeste está finalizando o período de seca mais severo dos últimos anos e trouxe à tona um grave problema brasileiro: o uso indiscriminado do fogo, uma insanidade piromaníaca avalizada pelo poder público com a desculpa de que a agricultura não vive sem as queimadas e de que tudo não passa de um costume popular, uma mania nacional. Antes que as chuvas lavem da memória da população os meses contínuos em que respiramos gases tóxicos, estudiosos de incêndios florestais e poluição do ar e organizações não-governamentais fizeram este mês várias considerações e levantamentos a respeito das consequências das queimadas este ano.

O cerrado foi o bioma mais prejudicado pelas queimadas. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelam que, entre maio e setembro, foram registrados 57,7 mil focos de queimadas no cerrado, número mais de 350% superior ao verificado no mesmo período de 2009 e recorde nos últimos 5 anos. Os danos foram graves à conservação da natureza e ao solo, elevaram as emissões regionais e também prejudicaram a saúde da população. Os estados mais atingidos foram Mato Grosso, Tocantins e Goiás. Além disso, lembra a geógrafa e coordenadora do Fórum de ongs ambientalistas do Distrito Federal, Mara Moscoso, todos os parques nacionais no cerrado, que abrigam grandes parcelas do que resta do bioma, sofreram com a passagem do fogo. O parque nacional das Emas (GO) teve 90% de sua área queimada, os parques nacionais de Brasília (DF) e do Araguaia (TO), 40%, o parque nacional da Serra da Canastra (MG), 35%. No Parque Nacional de Chapada dos Guimarães, o fogo matou muitas árvores e atingiu cerca de 45% da área.

O engenheiro florestal e doutor em Ciência pela Universidade de São Paulo (USP), Otávio Peres Filho, professor da Faculdade de Engenharia Florestal da UFMT, lecionou a disciplina de Proteção Florestal por 18 anos. Ao fazer uma análise das queimadas que ocorreram este ano em Mato Grosso, lembrou da amarga cultura de mais de 5 séculos de que o fogo é necessário e, sendo assim, não se discute. "A sua aceitação no meio rural pelos órgãos governamentais é fato consumado e tratado como algo inalterável e os procedimentos do seu uso são até regularizados, normatizados e pretensiosamente fiscalizados por seus agentes. Deve se comentar que o fogo também rende um bom dinheiro para o governo, uma vez que os procedimentos burocráticos para o uso do fogo são taxados", argumenta.

Ele diz que os períodos de seca propiciam o surgimento da queima do material combustível, que no caso rural é predominantemente a celulose, elemento presente em todos os vegetais. "A questão fundamenta-se em como iniciar a combustão. Para que o fogo surja é necessário que o famoso "triângulo do fogo" ocorra, ou seja, que se tenha combustível (sem umidade), comburente (oxigênio) e calor (ignição). Sem esses elementos, nada feito. Como celulose para queimar na seca não falta e oxigênio também não, então o elemento restante é o calor, mas no sentido de iniciar a ignição. Sem esse elemento o fogo não surge do nada. O fator mais importante, portanto, no período da seca é: como vai se iniciar a ignição? E todos os estudos indicam que a grande maioria da origem do fogo é antrópica, ou seja, o homem é o maior causador das queimadas", afirma.

Peres diz que o cerrado é chamado também de ecossistema de fogo, por ser composto de uma vegetação fica e seca e com longos períodos de estiagem, propenso a iniciar o processo de combustão. No entanto, a probabilidade de ocorrer fogo natural no cerrado e na Amazônia é muito pequena. "Fogo natural é muito difícil e suas origens estão no vulcanismo, raios (que ocorrem apenas na época de chuvas), afloramentos rochosos associados com vegetação fina (capim) e seca". Ele explica que no cerrado o fogo não é tão prejudicial se for usado de forma eventual. "O fogo queima o excesso de matéria orgânica e transforma em adubo. Ele também ativa a brotação das plantas, promovendo a germinação das sementes, e elimina pragas e doenças. O problema está na intensidade e na extensão destas queimadas no cerrado", diz.

Histórias divulgadas como latinhas de cerveja, espelhos e até mesmo bitucas de cigarro são mitos para a ciência. Testes científicos com bitucas de cigarro comprovam que a ignição, na maioria das vezes, precisa de uma força do tipo o uso de um ventilador. Em uma situação de regiões de ventos fortes essa tese teria fundamentação técnica.

Para quem não sabe, as plantas - e principalmente as plantas superiores, as árvores - da nossa região são ricas em compostos denominados de aleloquímicos ou substâncias secundárias. Otávio Peres explica que essas substâncias são responsáveis pelas defesas químicas contra o ataque de insetos e de doenças e, portanto, são tóxicas. Quando queimadas, essas substâncias passam a compor a fumaça, que se diferencia de outros tipos de fumaças oriundas da combustão dos escapamentos dos veículos, mas nem por isso menos inofensiva. " O combatido alcatrão presente no cigarro nada mais é do que uma denominação vulgar para essas substâncias, só que encontradas no tabaco. Agora imaginem milhares de espécies distintas com milhares de compostos secundários penetrando em nossos pulmões por 24 horas?", questiona o pesquisador.

Outro elemento coadjuvante da prevenção é a fiscalização e aplicação de multas, na opinião do professor. "O próprio judiciário necessita receber melhor treinamento para julgamento dos casos de crimes ambientais, que devido à prática no campo dos crimes cíveis acaba dando o mesmo tratamento no julgamento dos crimes ambientais. Uma nova visão e tratamento para o julgamento dos crimes ambientais é urgente e fundamental para a solução desses casos".

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