Encontro discute cenário tecnológico nacional

Brasília, 22 de fevereiro de 2011.


O painel que abriu a tarde de hoje no 6º Encontro de Lideranças do Sistema Confea/Crea e Mútua teve como tema o “Cenário Tecnológico Nacional e Seus Desdobramentos”. Nele, foram abordados cinco assuntos: o setor de petróleo e gás, a política de biotecnologia, a recuperação da indústria naval, o setor de mineração e os desafios na avaliação da eficiência energética em edificações.

O setor do petróleo e gás
O gerente de Tecnologia de Materiais e Corrosão da Petrobras, Carlos Cunha Dias Henrique, falou sobre o primeiro tema. Carlos apresentou algumas estatísticas sobre a realidade da Petrobras. Segundo ele, a empresa produz 2,5 bilhões de barris/dia de petróleo e possui mais de 70 plataformas de produção, tendo alcançado, em 2006, a autossuficiência.

Carlos explicou que a empresa trabalha sobre um tripé: pessoas, recursos financeiros e infraestrutura e um dos setores em que faz grandes investimentos é pesquisa e desenvolvimento. No Centro de Pesquisa da empresa, por exemplo, existem cerca de 5.600 trabalhadores, e mais ou menos 800 pesquisadores. Destes, ¼ possui doutorado e quase metade, mestrado.

Carlos ressaltou ainda que a empresa é a quarta maior do mundo em energia e a maior operadora mundial em águas profundas. “Em águas profundas, hoje, a Petrobras representa 23% das participações mundiais contra 15% da Shell, que ocupa o segundo lugar”. Por fim, disse que o setor do petróleo é um ramo promissor para as profissões da área tecnológica, contando com muitos desafios em termos de tecnologia, mas também muitas oportunidades.

A política de biotecnologia
Rubens Onofre Nodari , professor da Universidade Federal de Santa Catarina, foi o segundo palestrante. Ele falou sobre a política de biotecnologia para o país e a tecnologia do DNA recombinante, considerada, de acordo com ele, a segunda grande revolução tecnológica da humanidade.

Segundo Rubens, as tecnologias no setor foram evoluindo da transgenia, da biologia sintética para a nanotecnologia. “As tecnologias estão vindo no sentido maior de oligopolizar a produção”, disse. Mas, em sua opinião, apesar de poderosas, existe uma preocupação em relação às consequências, aos riscos provenientes do uso dessas tecnologias dos transgênicos. “A vantagem da nanotecnologia é que partículas menores têm maiores superfícies reativas. No entanto, o controle dessas pequenas partículas é mais problemático nessa mesma proporção”.

Em termos de legislação, ele comentou que existe a lei de biossegurança, bem como o Protocolo de Cartagena, do qual o Brasil faz parte, que prevê a transparência das ações. “No entanto, o sistema não está no ar, então temos pouca informação sobre isso”. Segundo ele, infelizmente, a liberação dos transgênicos não foi feita com a segurança que deveria. “Ou seja, estamos numa situação em que a liberação dos transgênicos foi feita de forma apressada e isso não protege aqueles que querem usar a tecnologia”. Assim, ele acredita que estejamos numa encruzilhada: de um lado, as indagações; de outro, os produtos. “Talvez essa seja a área onde mais devemos evoluir e, para isso, precisamos de mais engenheiros de biossegurança”.

A recuperação da indústria naval
O presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore, Ariovaldo Santana da Rocha, iniciou sua apresentação falando da participação da indústria naval na história do país. Segundo ele, nas décadas de 70 e 80, essa indústria detinha um certo vigor, que se encerrou na década de 90. De 26% de bandeira nacional (déc. 70/80), passou para 1,5% ao final da década de 90.

Em seguida, houve uma retomada do setor. 95% do comércio exterior brasileiro é realizado por via marítima, Além disso, existem projetos de navios totalmente brasileiros, que valem, por exemplo, 215 milhões de dólares. “Na categoria de apoio, nos tornamos o primeiro do mundo”, disse Ariovaldo.

A indústria naval, segundo Ariovaldo, evoluiu de 2000 para 2010. Em termos de empregos, passou de cerca de 1.500 para 56 mil; em termos de desembolsos do fundo de marinha mercante, passou de 305 milhões para 2.019 milhões. Além disso, há um trabalho de repatriar os brasileiros que estão trabalhando no setor, no exterior. “Não temos engenheiros. Estamos procurando e treinando, no Brasil e no exterior, para que venha trabalhar no país”, ressaltou.

“A Petrobras foi, sem dúvida, o carro chefe do aumento do volume de obras”, disse. De acordo com os dados apresentados, para os próximos 10 anos, a empresa prevê a execução de 40 plataformas e sistemas de produção, 400 navios de apoio marítimo, 70 navios petroleiros, sem incluir as demandas para o pré-sal.

Atualmente, de acordo com Ariovaldo, os países líderes da construção naval mundial são: Coreia do Sul (36%) e China (33%). O Brasil ocupa o 4º lugar. Um dos problemas, segundo ele, é que a América do Sul está fora dos grandes fluxos do transporte marítimo e, por esse motivo, a “conta frete” é muito cara.

O setor de mineração
Flávio Ottoni Penido, da Open Brasil, e João César de Freitas Pinheiro, diretor de Planejamento do Departamento Nacional de Produção Mineral foram os responsáveis por apresentar o setor da mineração. Segundo Flávio, a mineração sempre foi um dos sustentáculos onde se assentaram os poderes econômico, militar e político. “Ouro Preto, por exemplo, em 1977 tinha uma população superior a de Nova Iorque”, disse.

“Com demanda principalmente da China por minérios em geral, o setor em 2010 obteve faturamento de US$ 157 bilhões e gerou divisas de US$ 51 bilhões”. Os preços dos minérios, segundo ele, também evoluíram de 2001 a 2010. O ferro, por exemplo, sai de US$ 29/ton para US$ 140/ton. “Houve um aumento do valor da produção mineral brasileira de 400% na última década”, afirmou.

João César, por sua vez, falou sobre as propostas para o novo marco regulatório da mineração brasileira. Segundo ele, o atual Código, de 1967, não atende mais às necessidades do setor. “Ele não oferece mais instrumentos para solucionar conflitos”.

Assim, apresentou as premissas do novo marco, no qual se pretende fortalecer o processo regulatório, estimular a maximização do aproveitamento das jazidas até o encerramento da atividade da mineração, atrair investimentos para o setor e promover o desenvolvimento de forma sustentável, entre outros.

Outra novidade proposta é que se extinga com o DNPM e se crie uma agência reguladora. Além disso, busca-se criar uma figura que é a extração para uso exclusivo em obras públicas, com critérios e condições estabelecidos por um Conselho Nacional de Política Mineral, também a ser criado. Outro aspecto é a criação de áreas especiais para pesquisa e lavra de minerais estratégicos (áreas com grande potencial econômico, cuja exploração deverá obedecer políticas específicas).

“Esta é uma proposta do MME, vista pela Casa Civil e que será encaminha da para o Congresso Nacional”, finalizou João César, que também solicitou aos representantes do Sistema Confea/Crea e de suas Câmaras Especializadas que analisem o documento e façam sugestões.

Os desafios na avaliação da eficiência energética em edificações
Paulo Augusto Leonelli, presidente do Comitê Gestor de Indicadores e Níveis de Eficiência Energética do Ministério de Minas e Energia, falou sobre o desafio de encontrar uma forma de medir a sustentabilidade nas edificações, buscando preservar a matriz energética brasileira limpa.

“Hoje, temos quase 53% de energia renovável. É com certeza uma das mais limpas”, afirmou. Segundo ele, a média é de 19% a 20%. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por exemplo, esse número cai para 9%.

De acordo com Paulo Augusto, o plano de avaliação da eficiência energética nas edificações se pauta em programas e políticas públicas já consolidadas, desde o PBE (1984), além do Procel e Compete (da Petrobras), PEE (da Aneel), além da Lei nº 10.295/01, que é o marco legal da Eficiência Energética.

A etiqueta apresentada foi lançada há cerca de um ano e conta hoje com 18 edifícios comerciais etiquetados, quatro casas e cinco edifícios residenciais (lançamento do ENCE-R, em 28/11/2010). Como exemplo, ele citou, os prédios do MME, do Ministério do Planejamento e da sede do Confea que estão sendo etiquetados.

Por último, ele anunciou que 2011 será o ano que vai basicamente enfrentar o desafio da etiquetagem por todo o Brasil, com cursos promovidos por parceiros, projetistas, consultores, entre outros. Assim, conclamou a todos os presentes a se unirem ao desafio de divulgar e promover a etiquetagem nos moldes brasileiros. “Existem vários selos estrangeiros entrando, mas nós achamos por bem valorizar e usar a etiqueta nacional de eficiência energética para obtenção do selo”, ressaltou.

Tânia Carolina Machado
Assessoria de Comunicação do Confea