Do Estado de São Paulo - 20/10/2010 | 23h 00
O terreno de formato estranho em Mildmay Park, que já serviu como aterro, poderia estar vago até hoje se não fosse pelo arquiteto Graham Bizley, de 41 anos. Com talento especial para maximizar espaços limitados e orçamentos reduzidos, ele encontrou o lote na região nordeste de Londres há mais de dez anos.
O formato – um paralelogramo – e a proximidade com casas vizinhas fizeram com que o espaço ficasse abandonado durante anos. Uma estrutura erguida ali teria de se adequar às restrições de altura e ao “direito à luz”, um dispositivo legal que proíbe novas edificações de bloquear raios de sol que incidem sobre construções já existentes.
Mas onde outros viram problemas que reduziam o valor do terreno, Bizley viu uma oportunidade: a de construir uma casa para um terreno de proporções mínimas e aprender algo que pudesse ser aplicado em projetos futuros. “Em bairros densamente povoados, nos quais os terrenos baldios estão espremidos entre outras construções, é preciso usar a criatividade para construir cada centímetro.” Ele comprou o lote de 60 m² num leilão em 1999, pagando £ 30 mil (cerca de R$ 79,9 mil). A construção começou em 2001, ano em que ele conheceu a mulher, a decoradora Emily Pitt. Quatro anos depois, a casa de 100 m², com um dormitório, estava completa – a um custo total de £ 207 mil (aproximadamente R$ 551 mil).
O projeto final é bastante simples se comparado ao inicial, uma “ambiciosa casa de estudante de arquitetura”, com toldos de aço corrugado e paredes de ângulos exagerados. A planta que ele submeteu à aprovação da prefeitura, bem diferente, mostrava uma casa de fachada de tijolos formada por linhas claras e racionais.
O imóvel de três andares começa 1 m abaixo do nível da rua para impedir que sua altura supere a das estruturas vitorianas vizinhas, e a área do segundo e terceiro andares é menor para impedir que a luz natural seja bloqueada. O térreo, de 50 m², onde ficam cozinha e sala de jantar, é aberto e iluminado por uma grande janela na parte da frente e por um conjunto de telhas transparentes acima da mesa de jantar, nos fundos.
Por influência de Emily, de 35 anos, a mobília é sobretudo de meados do século 20, que inclui peças como um armário azul de metal para guardar taças, encontrado em uma farmácia, e outro modelo Tallboy da década de 50, que guarda latarias e conservas. As paredes de tijolo são pintadas de branco e o chão de concreto foi tratado com um acabamento de resina cor de zinco. A mesa de jantar foi feita com sobras da construção da escada e com gavetas de carvalho encontradas numa caçamba de lixo.
O segundo andar, que abriga o quarto e o banheiro, tem praticamente a metade da área do térreo, assim como o terceiro andar, onde há um pequeno escritório e uma área de estar. A alguns passos do escritório, fica a área de serviço com varais estendidos pelo teto, armados em roldanas antigas que Bizley comprou em Veneza. Um jardim no telhado, com agapanto, cosmos, sálvia e tomilho, pode ser acessado pela janela.
Uma escada cumpre também as funções de biblioteca e guarda-roupa, com compartimentos embutidos para casacos. “A ideia é fazer com que os espaços pareçam mais amplos”, diz ele. “Tudo na casa é muito apertado, mas a maneira de vivenciar os ambientes dá a sensação de que são, de alguma forma, bem mais amplos.”
Tradução de Augusto Calil
