Cuiabá, 23 de agosto de 2010.
Nem mesmo o calor Cuiabá, sob uma grossa camada de fumaça vinda das queimadas da Chapada dos Guimarães e dos lados da serra de São Vicente, registra 40 graus na tarde de hoje foi capaz de desviar a atenção dos participantes da 67ª Soeaa que assistiram às palestras de Raul Grumbach, mestre em ciências navais e consultor; Gilberto Selber, matemático com especialização em gestão de universidades e Cristiano Kok, engenheiro mecânico e presidente da Engevix.
“O gestor tem que ter percepção do futuro. A ausência dela é a razão de muitas micro e pequenas empresas irem à falência. Seus proprietários não se preparam, apenas reagem às novidades”, constata.
Sua recomendação ganha força quando se está diante de dados que dão conta que o conhecimento humano dobra a cada 72 horas; em 2022, quando o Brasil vai comemorar o bicentenário da independência e um super computador vai superar o cérebro humano.
Qual será o papel do engenheiro e do arquiteto com os modernos softwares que vão realizar muitas das tarefas que hoje dependem deles? O que fazer com os refugiados ambientais da ONU? Estamos preparados para recebê-los? Para onde essa gente vai? Qual o papel do agrônomo diante das catástrofes ambientais?
Para encontrar as respostas para essas e outras perguntas, segundo Grumbach, “só por meio de cenários prospectivos”.
”Maioria dos cursos é deficitária”
Para ele, as universidades “têm que pensar seu papel na formação dos profissionais das próximas décadas, precisam desenvolver cenários para basear novos ou reformular os cursos oferecidos. O Brasil não pode depender de engenheiros e empresas estrangeiros. Temos que formar profissionais aptos para atuar nos próximos cenários”, constata.
Selber vê que as universidades “precisam enfrentar desafios e preparar seus alunos para a competitividade mundial. Ontem seu concorrente estava ao seu lado, era o seu vizinho. Hoje ele está no mundo, e isso expande a criatividade da busca de novos recursos e tecnologia”.
O diretor do Crub diz que “país carece de infraestrutura” e credita isso “à falta de investimentos nos últimos anos, o que para ele explica a realidade atual. “Os setores portuário, aeroportuário, rodoviário e a nossa malha viária são deficitários”, lamenta. E indaga: “o que as universidades estão fazendo para preparar gente apta a mudar isso? Estão formando gente competente para explorar o pré sal?
Selber chamou a atenção para as mudanças que considera importantes para que as universidades modernizem sua administração para acompanhar e atender a demanda que cresce a cada dia: “temos que formar o profissional com competências e habilidades, não só teoria. Hoje, inclusive, em São Paulo, diversos reitores estão discutindo a formação do engenheiro daqui para frente”, revelou.
Para Selber, “as universidades, além do diploma e do histórico escolar, têm que fornecer informações sobre as competências e habilidades de cada aluno”. Ele defende ainda a “formação de líderes e de profissionais que saibam trabalhar em equipe, com uma formação mais humanista para construir uma sociedade mais justa e menos conflituosa”.
Selber diz que a sustentabilidade ambiental é irreversível “hoje qualquer engenheiro que tem que atuar preservando o meio ambiente, se preocupa com o aproveitamento da água da chuva, e a economia de energia, mas não vejo as universidades montando currículos que contemplem a questão ambiental como deve ser. Não vejo ênfase com a preocupação ecológica na formação do profissional”.
Para Selber, o Brasil tem todas as condições naturais para se desenvolver, mas precisa que o ensino da ética seja incentivado nos cursos para acabar com o que na opinião dele são “as mazelas” do país, “a corrupção e a dependência tecnológica”.
Ainda reforçando o papel das universidades, o diretor do Crub disse que é preciso que as pesquisas realizadas cheguem ao homem comum, “o que não acontece porque as universidades são egoístas, guardam o conhecimento para si, e têm que estar intrinsicamente ligadas à sociedade”.
Selber defendeu modelos alternativos de educação e o desenvolvimento de eixos temáticos para melhorar o ensino nos outros níveis de educação.
“Temos que formar generalistas”
“Na década de 1960 tivemos Jango Goulart no país e a criação da Opep no mundo e Gagarin pisou na lua. No final dos anos 70, o petróleo custava US$ 95 o barril e surgia o bebê de proveta. Nos anos 90 tivemos Chernobyl e o projeto genoma. Em 2001, o atentado às torres de Nova Iorque. Em 2005, a ovelha Dolly e a internet. Nenhum pesquisador ou cientista foi capaz de prever a evolução tecnológica e a velocidade com que iria provocar mudanças na sociedade. A universidade falhou ao não privilegiar uma formação humanista para podermos entender todo esse processo e o mundo de hoje”, afirmou, taxativo.
Para Kok, o engenheiro de hoje “não é mais um tocador de obras. É ele quem faz a ligação com os setores de uma obra. Precisa empreender com base científica”.
Engenheiro de formação, Kok afirma que atualmente o profissional da área tem que falar mais de um idioma, saber trabalhar em equipe e para isso a formação tem quer ser cada vez mais humanista. “Se o Brasil não investir em ética e educação, ficará para trás”.
Kok também defendeu que o Sistema Confea/Crea ajude a reduzir a quantidade de títulos profissionais. “Em engenharia são mais de 300. Temos que formar generalistas com especializações em cursos complementares e pensar que as atribuições podem ser progressivas para o profissional que atualiza e agrega mais conhecimentos”.
Maria Helena de Carvalho
Assessoria de Comunicação do Confea
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