Aracaju, 15 de outubro de 2026
A construção de um retrato abrangente da infraestrutura brasileira e seu potencial para orientar decisões de gestores públicos: este é o Infra-BR, que foi foco de painel da 81ª Soea na tarde desta quinta-feira, 15/10. Mediado por Alexandre Borsato, assessor da Presidência do Confea, o debate “Da Ideia à Construção de um Índice Nacional de Infraestrutura” reuniu especialistas responsáveis pela criação do índice, iniciativa que busca transformar dados em informações estratégicas para o planejamento e o desenvolvimento do país.

O painel contou com a participação de Melissa Wilm, coordenadora-geral do Índice de Progresso Social (IPS) Brasil e coordenadora técnica do Infra-BR; Gabriel Gonçalves, coordenador de computação do Observatório do Trabalho de Pernambuco; o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Ricardo Chaves Lima; e Sérgio Marangoni, especialista em gestão de projetos e políticas públicas. Além deles, uma participação especial do presidente do Confea, eng. telecom. Vinicius Marchese.
Ao apresentar a origem da iniciativa, Melissa explicou que o Infra-BR nasceu a partir das experiências acumuladas pelo IPS Brasil, ferramenta utilizada para avaliar resultados concretos na qualidade de vida da população e apoiar gestores públicos na tomada de decisões.
Segundo ela, as primeiras conversas para a construção do índice começaram em 2025, quando surgiu o desafio de criar um instrumento capaz de medir não apenas a existência de obras e ativos, mas principalmente os benefícios produzidos pela infraestrutura para a sociedade.
“Dados transformam infraestrutura em estratégia”, resumiu a coordenadora ao destacar a importância de traduzir grandes volumes de informações em indicadores capazes de orientar políticas públicas e investimentos.

O Infra-BR foi concebido para avaliar a situação da infraestrutura brasileira a partir de resultados efetivamente percebidos pela população. A iniciativa tem inspiração em experiências internacionais, especialmente em modelos utilizados nos Estados Unidos para avaliação da infraestrutura, mas foi adaptada à realidade brasileira e à ampla disponibilidade de dados públicos existentes no país.
Durante o debate, Alexandre Borsato lembrou que um dos desafios da construção metodológica foi definir indicadores capazes de refletir problemas que podem ser solucionados pela engenharia e pelas profissões abrangidas pelo Sistema Confea/Crea. Outro aspecto importante foi garantir que os dados representassem não apenas os grandes centros urbanos, mas também as regiões menos desenvolvidas.
Para Gabriel Gonçalves, o Brasil possui um diferencial importante nesse processo. Segundo ele, poucos países dispõem de uma base de dados tão ampla quanto a brasileira. “A informação pode mudar a realidade, principalmente das cidades menos favorecidas”, afirmou.
O especialista destacou, porém, que a abundância de informações também trouxe desafios. Foi necessário realizar um extenso trabalho de validação, tratamento e integração para que diferentes bases de dados pudessem dialogar entre si de maneira consistente. “Depois de muita conversa com especialistas das diversas áreas, cortes metodológicos e refinamentos sucessivos, chegamos ao que temos hoje no Infra-BR”, explicou.
Outra etapa complexa foi a definição dos indicadores que efetivamente representariam a infraestrutura nacional. Segundo os participantes, o processo envolveu inúmeras discussões técnicas para estabelecer critérios capazes de refletir diferentes realidades regionais sem comprometer a comparabilidade dos resultados.
O professor Ricardo Chaves Lima ressaltou que o país conta com uma base estatística robusta, mas transformar essas informações em um índice nacional exigiu uma metodologia sofisticada. “Dentro de um dado existem diferentes componentes. Quando falamos de infraestrutura, estamos tratando de elementos como estradas, pontes e outros ativos que possuem características próprias e nem sempre estão presentes da mesma forma em todas as regiões”, observou.
Segundo ele, a construção do índice demandou a utilização de técnicas estatísticas, pesos específicos e múltiplos cruzamentos de informações para tornar os dados comparáveis entre os diferentes estados brasileiros. Ricardo também destacou a participação de especialistas de diversas áreas e a colaboração do próprio Confea na construção metodológica do trabalho.
O presidente Vinícius agradeceu o empenho das equipes envolvidas e destacou que já existem estudos para ampliar futuramente a abrangência do índice aos municípios brasileiros. “O Brasil é um país muito grande e existe muito trabalho a ser feito na área de infraestrutura. Esse mapa e esse conjunto de dados vão ajudar a enxergar melhor essa realidade”, afirmou.
Um dos diferenciais apontados durante o painel é a capacidade do Infra-BR de oferecer uma visão estruturada da situação da infraestrutura nacional por meio de indicadores confiáveis e atualizados periodicamente. Os participantes destacaram que, quando construídos com rigor metodológico e ciência de dados, instrumentos dessa natureza têm potencial para influenciar a formulação de políticas públicas e orientar a destinação de recursos.
Nesse contexto, os palestrantes citaram como referência experiências internacionais nas quais relatórios técnicos de infraestrutura contribuíram para ampliar investimentos e definir prioridades estratégicas para governos e instituições.
Para Sérgio Marangoni, o grande valor do índice está em seu uso como instrumento de gestão pública. “O Infra-BR mostra dados reais. Não é uma ferramenta para premiar estados ou criar uma competição entre eles”, afirmou.
Segundo ele, os resultados permitem que governadores e gestores compreendam o ponto de partida de seus estados e definam prioridades para seus planos de desenvolvimento. “O estado não precisa ser igual ao outro. Precisa buscar a sua melhor versão”, acrescentou.
Marangoni observou ainda que os dados podem apoiar a atuação de agências reguladoras, contribuir para a atração de investimentos privados e auxiliar na definição de ações de curto, médio e longo prazo.
Durante o painel, Alexandre Borsato realizou uma demonstração da plataforma, apresentando a navegação pelo sistema e detalhando a composição dos indicadores e das pontuações.
No encerramento, Melissa Wilm apontou que uma das maiores dificuldades enfrentadas pela equipe foi justamente definir quais dados deveriam integrar o índice e como realizar os cruzamentos necessários para garantir consistência estatística e representatividade nacional.
Ela também destacou a preocupação em incorporar temas cada vez mais relevantes para o desenvolvimento brasileiro, como a resiliência da infraestrutura diante dos eventos climáticos extremos.
Além da seleção dos indicadores, os cálculos estatísticos, ponderações e cruzamentos de informações representaram desafios significativos ao longo do desenvolvimento do projeto. Apesar da complexidade, os participantes destacaram que o resultado oferece uma base sólida para apoiar decisões estratégicas, qualificar o planejamento público e fortalecer o papel da engenharia na construção de soluções para os desafios da infraestrutura brasileira.
Mais do que um ranking, concluíram os debatedores, o Infra-BR foi concebido como uma ferramenta permanente de diagnóstico e planejamento, capaz de indicar prioridades, orientar investimentos e contribuir para o desenvolvimento sustentável do país por meio do uso inteligente de dados.
Reportagem: Débora Pereira (Crea-PR)
Edição: Beatriz Leal Craveiro (Confea)
Gestão de fotos: Paula Moreira
Equipe de Comunicação da 81ª Soea
Fotos: Sto Rei e DBrothers/Confea
