Brasília, 8 de outubro de 2010
Novos conceitos como “Inovação Social” e “Sociedade 2,5” marcaram a 6ª Feira de Inovação Tecnológica – Inovatec, realizada em Belo Horizonte, na última semana, com o objetivo de estimular o diálogo sobre inovação para disseminar uma cultura que acelere o processo de desenvolvimento de novas soluções tecnológicas e gerenciais em benefício da sociedade. Inserida na programação do evento, a temática foi abordada a partir do mote: “entre gerar lucro e melhorar a sociedade, por que não fazer os dois?”
Os “negócios sociais” objetivam quebrar o atual paradigma e mostrar que é possível utilizar o modelo eficiente de gestão das empresas (segundo setor) para gerar impacto social positivo (missão do terceiro setor). Ou seja, é um meio termo entre o lucro e a responsabilidade social, ou um equilíbrio entre o objetivo do segundo setor e a missão do terceiro setor, conceito que está se firmando como “Setor 2,5”. “Trata-se de uma forma completamente nova de encarar os negócios”, afirma o publicitário André Maciel. Responsável pela temática na Inovatec, ele é co-fundador do projeto “MyChoice!”, para ensino de práticas sustentáveis em escolas de Bangalore, na Índia e atua como facilitador do Programa Mineiro de Empreendedorismo em instituições focadas em inovação.
Maciel cita diversos exemplos de empresas que estão provando que é possível obter lucro e, ao mesmo tempo, reduzir a pobreza por meio de serviços ou produtos focados na expansão de oportunidades para populações de baixa renda. O mais conhecido deles é o “Grameen Bank”, instituição bancária que oferece microcrédito para milhões de famílias em Bangladesh. O conceito de microcrédito foi cunhado por Muhammad Yunus, presidente do banco, que ganhou o Prêmio Nobel em 2006, por essa iniciativa. Trata-se de um tipo específico de crédito, cujo objetivo principal não são os pequenos produtores, mas as populações pobres, que não têm acesso a outro tipo de crédito. Grupos de mulheres de baixa renda são 97% dos 6,6 milhões de beneficiários do banco e a taxa de recuperação é de 98,85%. “A taxa de inadimplência é baixíssima e o banco gera muito lucro, além de mudar a vida dessas mulheres e reduzir a pobreza na região”, ressalta Maciel.
Segundo ele, o conceito de inovação social é uma tendência em todo o mundo e pressupõe “um jeito completamente novo de fazer as coisas”. O Grameen Bank, por exemplo, reza ao contrário a cartilha das instituições bancárias convencionais, desempenha um papel social importante e, ao mesmo tempo, é uma das instituições mais lucrativas do mundo. Tanto que vem ampliando sua área de atuação, como, por exemplo, uma parceria com a Danone, lançada em 2006. A Greemen Danone, lançada em 2006, é outra empresa social, que fabrica uma espécie de iogurte enriquecido e barato, com o objetivo de melhorar a nutrição das crianças da região, o que reflete também no desempenho escolar delas e reduz a incidência de doenças. “A inovação social exige que se olhe bem a necessidade de cada local, em vez de reproduzir modelos”, ressalta André.
Em construção
O Setor 2.5 é ainda um conceito em construção e há bastante divergência ainda sobre o modelo como ele deve ser encarado, principalmente no que se refere à divisão de lucros. “A linha Yunus prega que não deve haver divisão. No caso do Greeming bank, por exemplo, todo o lucro é reinvestido no banco, para que ele possa aumentar sua atuação”, explica Maciel. Outras linhas defendem a divisão dos lucros entre os sócios.
Essas empresas podem impactar uma comunidade de diferentes formas, seja aumentando a renda das populações pobres, seja melhorando a produtividade ou oferecendo acesso a produtos e serviços. Exemplos disso são empresas que fazem a ponte entre pequenos produtores e cadeias de varejo aplicando o conceito de “comércio justo”, ou seja, funcionam como “atravessadores do bem”, facilitando o acesso de artesãos aos consumidores, mas repassando a maior parte da renda para quem produziu os bens e serviços.
A inovação inserida no conceito de “Sociedade 2,5” vai além, portanto, do conceito de sustentabilidade, muito em voga atualmente. “Não se trata de reduzir os impactos sociais e ambientais negativos e sim de descobrir um jeito totalmente novo de empreender. Há uma grande necessidade de empreendedores nesse setor, mas não se trata apenas disso. É necessário todo um novo ecossistema, com pessoas dispostas a pensar o mundo de forma mais lógica”, afirma André Maciel.
No Brasil, existem alguns casos de empresas sociais, mas não há ainda qualquer regulamentação do setor. Não há sequer uma definição sobre a forma jurídica ideal desse tipo de empresa. Dessa forma, algumas são criadas como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip); outras como associações e algumas ainda como empresas do setor privado. Conheça algumas empresas brasileiras cuja atuação se aproxima do conceito de “negócio social”:
Artemísia: www.artemisia.org.br
Organização pioneira em negócios sociais no Brasil que busca atrair e formar pessoas qualificadas para atuar na criação e desenvolvimento de um novo modelo de negócio, que possa contribuir para reduzir as desigualdades socioeconômicas no mundo.
The Hub: www.the-hub.com.br
O Hub São Paulo é uma espécie de “incubadora” de empreendimentos sociais que oferece espaço físico, infraestrutura e serviços para que empreendedores com ideias inovadoras possam acessar recursos, realizar conexões, produzir e compartilhar conhecimento.
Ecotece: www.ecotece.org.br
Trabalha com produção e comercialização de artigos de moda, produzidos com matérias-primas sustentáveis e com o trabalho de cooperativas, praticando os conceitos do comércio justo.
AOKA Operadora de Turismo Sustentável: www.aoka.com.br
Uma empresa que busca elevar o turismo a um novo patamar de sustentabilidade e interatividade com os destinos visitados, atuandojunto a comunidades tradicionais eONGs locais. Através de sua atividade, busca promover inclusão social, geração de renda e incentivo ao empreendedorismo relacionado ao turismo responsável, que valorizaa cultura local e a troca de conhecimentos entre comunidades e visitantes.
Semente da Paz: www.sementesdapaz.org
É uma cooperativa de logística e distribuição de alimentos e produtos ecológicos e solidários que integra uma rede de consumo e cooperaçãoeconômica situada na RegiãoMetropolitana de São Paulo. O trabalho é pautado pelos princípios da Agroecologia, da Economia Solidária,do Comércio Justo e do Consumo Responsável.
Amapá Brasil: www.amapabrasil.com.br
Agência de comunicação com foco em sustentabilidade, a Amapá tem preocupação com a geração de lucro, em ser social e ambientalmente sustentável, unindo características do segundo setor, como planejamento e objetividade, e do erceiro setor, como idealismo e foco nas pessoas.
Mariana Silva
Assessoria de Comunicação do Confea
