The Wall Street Journal, 22 de março de 2011 | 07h38
Num prenúncio do desastre que depois ocorreria, autoridades de regulamentação nuclear do Japão discutiram em meses recentes um erro básico no projeto que poderia permitir que um tsunami ou outro desastre cortasse a eletricidade das usinas nucleares do país, deixando-as indefesas contra um perigoso superaquecimento.
Mas as autoridades preferiram ignorar o problema nos reatores já existentes e se concentrar em consertar os futuros reatores, revelam documentos do governo e das empresas. Não houve nenhuma conversa séria sobre reformar usinas mais antigas com equipamentos que diminuíssem o risco, disseram assessores do governo.
A usina no centro da crise japonesa, a Fukushima Daiichi, dependia principalmente de eletricidade para alimentar o sistema de arrefecimento de emergência dos reatores — um projeto que falhou no terremoto e tsunami de 11 de março. Quando a rede elétrica foi interrompida e os geradores de reserva falharam, a água de resfriamento não conseguiu chegar ao combustível nuclear. O superaquecimento causou explosões, incêndios e a liberação de radiação significativa nos primeiros dias depois do terremoto.
"Houve pouco ou nenhum diálogo sobre a necessidade de reformar os reatores já existentes" com sistemas de segurança adicionais, disse Muneo Morokuzu, ex-projetista de reatores nucleares da Toshiba Corp. que agora estuda políticas para a indústria nuclear na Universidade de Tóquio. "A maioria das pessoas achou que não havia necessidade de ir tão longe."
Reformar usinas antigas foi considerado caro e complicado demais diante do que era visto como um risco pequeno de blecaute total, dizem especialistas. Mesmo que a reforma fosse ordenada em meses recentes, não estaria concluída quando ocorreu o terremoto.
Ontem, a operadora da usina japonesa, a Tokyo Electric Power Co., ou Tepco, deu mais um passo em direção à recuperação, religando a eletricidade dos seis reatores da usina e, principalmente, do reator número três, o que sofreu danos mais visíveis depois das explosões de 14 de março. A Tepco ainda precisa ligar os sistemas de resfriamento.
Os trabalhadores da usina também voltaram ontem a lançar água nas piscinas de resfriamento em que as barras de combustível nuclear são armazenadas, numa tentativa de impedir o superaquecimento do material radioativo. As autoridades japonesas também disseram que foi detectado um nível acima do permitido de substâncias radioativas no mar perto da usina.
Em outubro, a Comissão de Segurança Nuclear do Japão, uma das principais agências de regulamentação nuclear do país, fez uma reunião para determinar seus objetivos de longo prazo. Durante a reunião, Takanori Tanaka, que dirige o Centro de Engenharia da Energia Nuclear, parcialmente patrocinado pelo governo, mostrou aos comissários um arquivo de PowerPoint defendendo novas tecnologias que reduziriam "o risco residual relacionado a terremotos e tsunamis", segundo documentos anexados às minutas da reunião.
A apresentação de Tanaka se concentrou em maneiras de melhorar os sistemas de reserva para os reatores futuros, como parte de uma proposta mais ampla para as autoridades visando abrir caminho para uma nova geração de usinas mais seguras.
"A Comissão de Segurança Nuclear estava apenas começando a discussão inicial sobre a necessidade de instalar mais sistemas de segurança no resfriamento de futuros reatores", disse Tanaka ontem, por telefone, ao Wall Street Journal. Um porta-voz da comissão não quis comentar.
Em janeiro, a japonesa Hitachi Ltd., uma das principais fabricantes de usinas nucleares do pais, descreveu as vantagens de reatores com um sistema de resfriamento de reserva que não dependesse de eletricidade. Num jornal interno da empresa, a Hitachi afirmou que estava "conseguindo a cooperação das empresas elétricas e do governo" para construir uma nova geração de reatores que "permitiria reagir a um blecaute de longo prazo".
O porta-voz da Hitachi Yuichi Izumisawa disse ontem: "Não achamos que haja problemas de segurança" com os reatores em uso atualmente, mas a empresa está desenvolvendo "algo ainda melhor".
O texto da Hitachi se referia especificamente a uma ideia antiga que voltou a receber atenção nos últimos anos: um aparelho engenhoso mas simples chamado "condensador de isolamento".
O condensador funciona assim: se o núcleo do reator aquecer demais, o condensador recebe o vapor que sobe naturalmente e o conduz por um tanque de água fria sem precisar de eletricidade. O aparelho alivia a pressão do núcleo do reator, embora só possa ser usado por alguns dias porque sua piscina também acaba esquentando e se dissipando em vapor.
Dos seis reatores de Fukushima Daiichi, apenas o no. 1 — o primeiro a ser construído, em 1971 — tinha um condensador. A Tepco informou que o aparelho, instalado na construção da usina, funcionou logo depois do terremoto, mas acabou parando. Um porta-voz da Tepco disse que não sabe por que o condensador parou de funcionar. Alguns especialistas dizem que o calor dentro do reator no. 1, muito menor que os reatores mais modernos, pode ter ultrapassado a capacidade do condensador.
Engenheiros nucleares dizem que o setor tem passado por mudanças de ordem filosófica no decorrer das décadas. Os primeiros reatores, como o no. 1 de Fukushima Daiichi, tinham um condensador de isolamento. Ele é conhecido como um sistema "passivo", que funciona sem eletricidade externa. Os reatores mais novos adotaram sistemas "ativos" que dependem de bombas elétricas e outros equipamentos, geralmente com sistemas redundantes que os engenheiros acreditavam que ofereceriam mais proteção contra superaquecimento ou falhas mecânicas.
Hoje em dia os sistemas passivos estão em voga de novo. A americana General Electric Co. e a Hitachi, que têm uma aliança mundial em tecnologia de reatores, usam condensadores de isolamento em seus projetos mais recentes. O condensador é parte do Reator de Água Fervente Econômico e Simplificado da GE, para o qual a empresa está tentando conseguir certificação da Comissão de Regulamentação Nuclear dos Estados Unidos.
De acordo com os planos japoneses que estavam sendo discutidos nos últimos meses, os novos reatores não teriam sistemas reserva de resfriamento passivo e ativo, mas só a nova geração de condensadores passivos. Segundo o texto da Hitachi, o condensador seria usado no lugar do outro sistema reserva. O texto afirma que eliminar a reserva ativa seria econômico e facilitaria a manutenção do reator.
Em 12 de março, um dia depois do terremoto, a crise no reator no. 1 começou a piorar quando a pressão e o calor crescentes forçaram a Tepco a abrir um respiradouro e liberar vapor com substâncias radioativas. Depois, no mesmo dia, houve uma explosão no reator no. 1.
Os outros cinco reatores da Fukushima Daiichi, concluídos mais tarde, nos anos 70, usavam um tipo de resfriamento reserva à base de geradores elétricos que foram arruinados pelo tsunami.
Todos os seis reatores da usina foram projetados pela GE e construídos pela GE, a Hitachi e a Toshiba Corp.
Um porta-voz da GE disse que a empresa optou pelo sistema de resfriamento ativo nas unidades 2 a 6 de Fukushima Daiichi, e em outros reatores, porque acreditava que o sistema era mais seguro que os condensadores anteriores e melhor para os reatores maiores. Alguns reatores novos que agora usam condensadores têm outras mudanças de projeto que tornam o condensador mais apropriado, disse.
Akira Omoto, ex-executivo da Tepco, disse ao WSJ sexta-feira que o terremoto revelou uma "falta de diversidade" nos mecanismos emergenciais de resfriamento. Omoto, integrante do conselho governamental que está ajudando a encontrar soluções para o problema em Fukushima, disse que os reatores da usina têm três ou quatro geradores a diesel cada, mas o tsunami os deixou inoperantes. "O problema foi que os reatores de Fukushima Daiichi tinham apenas um método emergencial de resfriar o compartimento de combustível", disse Omoto — sejam os geradores elétricos ou o condensador, como foi o caso no reator no. 1.
(Colaborou Rebecca Smith)
