Legado da Copa será menor que esperado, diz presidente do Sinaenco-SP

Portal Copa 2014 - 02 de fevereiro de 2011 | 17h38

A modernização da infraestrutura que a Copa do Mundo de 2014 poderia legar ao Brasil ficará aquém do que o país esperava quando se candidatou ao evento. O diagnóstico é do presidente da regional paulista do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi, para quem a falta de planejamento federal, estadual e das cidades-sede da Copa compromete um legado mais consistente do Mundial.

O engenheiro lembra que o Brasil foi indicado como país-sede da Copa há mais de três anos, em outubro de 2007, mas pouco ou quase nada foi feito em relação à ampliação de aeroportos, mobilidade urbana e até mesmo estádios, estruturas básicas para a competição.

“O Brasil tem a oportunidade de transformar as cidades-sede para poder receber o mundo fisicamente e virtualmente, já que este é o maior evento midiático do planeta. Mas quase nada saiu do papel. Hoje, temos dúvidas até mesmo sobre os estádios. De onde virão os recursos para a arena de São Paulo?”

Pan-2007

Para o engenheiro, o maior risco do que chama de “letargia” é repetir o estouro orçamentário dos Jogos Pan-Americanos de 2007. Na época, o governo federal teve que abrir os cofres de última hora para garantir a realização do evento, gerando uma avalanche de contratos sem licitação, obras sem projeto adequado e superfaturamento.

Uma alternativa para evitar descontrole nas contas públicas e amenizar os atrasos das cidades-sede seria, segundo Bernasconi, o investimento de recursos federais nas arenas. “Já passou da hora de o governo federal ajudar a resolver o problema dos estádios. Afinal, o compromisso é do Brasil. Depois fica a correria do Pan-2007 e o orçamento se multiplica.”

Itaquera

Quando se trata do estádio paulista da Copa, ainda indefinido, o engenheiro estima que, se as obras começarem depois de março, a cidade corre o risco de não entregar o projeto a tempo do primeiro jogo do Mundial.

São Paulo foi escolhida pelo Comitê Organizador Local da Copa (COL) para receber a abertura do evento. O estádio que representará a cidade será o do Corinthians, a ser erguido em Itaquera, na zona leste da cidade. No entanto, o clube adiou o início das obras e não apresentou investidores para ampliar a capacidade de 45 mil para 65 mil torcedores, o mínimo exigido pela Fifa para o jogo de estreia.

“(O início da construção) não pode passar de março. No momento, por exemplo, já poderiam ter definido a remoção dos dutos da Petrobras e começado alguns estudos importantes.”

Uma das pendências do projeto corintiano é o orçamento. O clube paulista projeta gastos de R$ 600 milhões com a arena, mas o custo pode subir. “Se as exigências forem parecidas com as do Morumbi (vetado em julho pelo COL), o estádio custará muito mais caro do que estão anunciando.”

Aeroportos

Apesar dos problemas para o início da construção ou reforma dos estádios da Copa, o principal calcanhar de aquiles da preparação brasileira é a modernização dos portos e aeroportos, na visão do engenheiro. Ele elogia a intenção da presidente Dilma Rousseff de privatizar os aeroportos de São Paulo (Cumbica) e Campinas (Viracopos), mas diz que a decisão, mesmo se confirmada, virá tarde demais.

“Atualmente, o nível de serviço (dos portos e aeroportos) está abaixo da crítica. Sabemos disso há muito tempo, mas o estado não tem condições de dar conta do problema. O nó crítico citado por Teixeira (presidente do COL) ano passado são os aeroportos. Agora é mais urgente ainda. A decisão da Dilma de privatizar alguns terminais é positiva e indispensável, mas lamentavelmente tardia.”

Legado

O engenheiro do Sinaenco lista uma série de prioridades a que o Brasil deve estar atento se quiser realizar uma Copa do Mundo convincente.

“Em primeiro lugar, o óbvio, temos que ter estádios. Em segundo, o mundo virá para o Brasil, portanto, precisamos de aeroportos, rodovias e portos em condições. Depois disso, cuidar dos sistemas de comunicação, que precisam estar nas melhores condições, além de ter energia suficiente.”

Ainda segundo Bernasconi, outros setores que demandam atenção redobrada são hotelaria, saúde, centros de treinamento, saneamento e segurança pública.

No entanto, mesmo que os três níveis de governo se esforcem para finalizar os projetos, o tempo de planejamento desperdiçado já impediu que o país explorasse ao máximo os benefícios do megaevento. “Teremos um legado muito menor do que antes.”

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