Marina Grossi, presidente do CEBDS - Mercado Ético, 03 de março de 2011 | 15h56
A Organização Mundial de Meteorologia, instituição científica vinculada à ONU, fez recentemente um contundente alerta de que a Terra se tornará cada vez mais quente e instável, caso as emissões de CO2 e outros gases de efeito estufa não sejam reduzidas. A advertência veio acompanhada de um estudo, no qual os especialistas relacionaram o aquecimento global às últimas tragédias de 2010 provocadas por fenômenos naturais extremos como enchentes, secas, furacões, ondas de frio e de calor intensos. O ano de 2011 mal começou e já sinaliza com a mesma tendência – inundações sem precedentes na Austrália, no Sri Lanka e nas Filipinas.
No Brasil, a mudança climática vem sendo associada à tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro. Nos primeiros dez dias após a tempestade que caiu sobre as montanhas de Friburgo, Petrópolis, Teresópolis e municípios vizinhos com clima e topografia semelhantes, os números eram assustadores: mais de 800 pessoas morreram e quase 500 estavam desaparecidas. Além das perdas humanas e da desagregação de famílias, cerca de sete mil pessoas perderam suas casas ou terão que deixar as áreas onde moravam.
O impacto na atividade econômica da região foi também muito forte: a indústria registrou um prejuízo de R$ 153 milhões, dezenas de hotéis e pousadas tiveram as reservas canceladas num período de alta temporada, a agricultura da região foi devastada, inclusive com a perda da camada fértil do solo.
As consequências do temporal vão além. A geografia de uma significativa área foi modificada e precisará ser remapeada. Obras de infraestrutura consumirão recursos ainda incalculáveis para a recuperação de estradas, escolas, hospitais, construção de 60 pontes, contenção de encostas, entre outras. Isso sem mencionar a construção de casas para quem não tem mais para onde ir.
Depois de anos de advertências científicas, as tragédias climáticas no mundo passaram a ser relacionadas com o tema do aquecimento global. Na imprensa brasileira, tem sido cada vez mais freqüente a associação dos eventos naturais extremos ao aumento da temperatura na Terra gerado, principalmente, pelo crescimento das emissões de CO2. A relação feita pelos jornalistas entre esses dois fatores – clima e emissões de gases de efeito estufa – é cautelosa, mas já indica a necessidade de considerar a mudança climática no planejamento das cidades pelos gestores públicos e privados.
A constatação da Organização Mundial de Meteorologia de que só o aquecimento global é capaz de explicar a recente tendência de aquecimento na temperatura da Terra – já que os fatores naturais, como a atividade vulcânica e solar, até diminuíram nesse período – reforça a tese de que, além da mitigação dos efeitos adversos dos gases de efeito estufa, a política de adaptação deve estar presente na construção e reformulação da infraestrutura urbana. Um planejamento que considere estes fatores aumentará a capacidade de resposta do país aos eventos extremos.
No Brasil, apesar de estarmos convivendo há anos com inundações e outros fenômenos incomuns no país como o furacão em Santa Catarina de 2004 e o recente tornado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, acordamos agora para nossas fragilidades de governança e para a inclusão da questão climática na agenda de prioridades.
Temos dois compromissos a assumir. O primeiro, com efeitos de longo prazo, é cumprir nossas metas internas de redução de emissões de gases-estufa, revertendo a curva da destruição de florestas, ampliando o uso de fontes de energia limpa, racionalizando nossos meios de transportes.
O segundo compromisso é o da adaptação. Precisamos adotar mecanismos, alguns sofisticados e outros muito simples, para amenizar os efeitos dos fenômenos naturais mais extremos com os quais conviveremos cada vez com mais freqüência.
O processo da adaptação passa necessariamente por uma bem estruturada Defesa Civil, com ágil conexão entre as esferas federal, estaduais e municipais. Há necessidade de investimentos em capacitação profissional em todos os níveis e em equipamentos de maior precisão para prever com a antecedência necessária a ocorrência de temporais e ventanias.
Fechando esse círculo, um eficiente modelo de comunicação para a evacuação de áreas de risco. Apesar de nossa ineficiência nessa área, duas pequenas cidades da Região Serrana – Areal e Bom Jardim – conseguiram evitar a morte de muitos cidadãos. Embora o comunicado sobre a possibilidade de um forte temporal tenha chegado com apenas três horas de antecedência, medidas simples, como a divulgação do alerta por meio de um carro de som que circulou pelas principais áreas da cidade, foram suficientes para que os moradores fossem informados do risco e deixassem as zonas de perigo em busca de um lugar mais seguro.
Nossa expectativa é de que sejamos capazes de aproveitar o processo de reconstrução dos municípios da Região Serrana do Rio, previsto para dois anos, para rever conceitos fundamentais tanto na área de ocupação urbana – impedindo construções em áreas de encosta, topos de morros ou às margens de rios e canais – como no modelo de Defesa Civil.
Repensar a ocupação dessas cidades considerando o novo cenário climático é uma oportunidade para que essa região fique finalmente protegida de novas tragédias e possa se desenvolver com um olhar voltado para o futuro. Esse ano abre uma nova década considerada por especialistas como a década da adolescência turbulenta (“the Turbulent Teens”, no documento Vision 2050 – a new agenda for business, disponível no site www.cebds.org ). Um tempo de inovações e transformações para colocar o mundo no caminho de um futuro sustentável em 2050. A devastação sofrida pelos municípios fluminenses pode se tornar uma oportunidade para que a região seja reconstruída pensando num futuro mais seguro e mais sustentável.
*Marina Grossi é presidente do CEBDS – Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável.
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