O Brasil tem tudo para ser grande

Brasília, 10 de fevereiro de 2009

No IV Encontro de Lideranças, o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, falou sobre as perspectivas da economia brasileira. Para ele, a crise chegou ao Brasil em outubro pelo canal do crédito, mas devido à estabilidade das instituições econômicas do país, o pior já passou. Ajudou também a conter a crise a atuação correta do Banco Central, atacando os pontos mais graves, como escassez de crédito e instabilidade do câmbio. Agora, o maior desafio será preparar o país para uma nova realidade.

Maílson fala da nova realidade citando o exemplo do livro de Fareed Zakaria, O Mundo Pós-Americano, que descreve dois movimentos tectônicos ocorridos. O primeiro, com a ascensão do mundo ocidental; o segundo, com a ascensão dos Estados Unidos. Agora, estamos vivenciando o terceiro movimento, com o crescimento de países emergentes como a China, a Índia, o Brasil, a Rússia, a África do Sul, entre outros. Para dissipar a crise econômica, esses países precisam estar inseridos na discussão mundial. “Os outros países não sabemos se farão parte desse processo, mas o Brasil fará”, diz ele.

Enquanto a Europa sofre uma desaceleração em “U”, aquela que cai e fica estagnada durante um tempo para poder voltar a subir, o Brasil e alguns outros países emergentes vivenciam uma desaceleração em “V”, sofre uma forte queda seguida de forte aceleração. “Nós estamos atravessando uma crise como nunca, enquanto vários países ricos quebraram, nós estamos de pé”, diz ele. Mas alerta que esse patamar a que chegou o país é uma obra de séculos. “Nada acontece do dia para o outro, cada governo plantou uma árvore. O presidente Lula chegou, irrigou e agora está colhendo os frutos”.

Segundo ele, a união de vários fatores, tal como a solidez do sistema financeiro que é uma herança deixada pelo Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (PROER), contribuiu para tornar forte a economia do país. Esse programa foi executado no governo de Fernando Henrique Cardoso e tinha por objetivo promover o enxugamento do sistema financeiro por meio de fusões entre bancos, bem como aquisições, reorganizações societárias, e reestruturação de instituições. Também a estabilidade macroeconômica, por meio de um câmbio flutuante, possível de ser ajustado de acordo com as necessidades do mercado; um Banco Central autônomo; inflação sob controle, pois nas outras crises a inflação era alta. É a primeira vez, também, que no auge de uma crise a tendência da inflação é cair; situação externa confortável. O Brasil agora é credor. “Temos três vezes mais dinheiro em caixa do que devemos, essa reserva permite o BC suprir a escassez de crédito no mercado”, revela Maílson. Além disso, ele cita o grau de investimento (Investiment Grade) conseguido pelo país em abril de 2008.

Tendências para 2009

Mesmo sem ter os resultados da liberação do pacote financeiro americano, Maílson já prevê algumas tendências para economia brasileira em 2009. Nesse clima de ajustes e grandes incertezas, ele diz que a taxa de câmbio deve se valorizar ao longo do ano; a inflação deve declinar, terminando abaixo da meta do BC; acredita ainda que haverá espaço para maior queda na taxa de juros e normalização do crédito, no segundo trimestre do ano.

Entretanto, ele prevê crescimento de apenas 1,5% no PIB de 2009. O governo espera um crescimento de 3,8% a 4%. Ainda segundo Maílson, a taxa de câmbio deve ficar em torno do R$ 2,10. “Tem gente prevendo R$3,00, é um cenário muito pessimista, provavelmente, não irá se concretizar”, revela. Além disso, ele prevê uma taxa básica de juros de 10,5%. Atualmente, a taxa Selic é de 12,75%. “Alguns estão prevendo uma taxa de 9%, se acontecer será a primeira taxa Selic de um dígito na história do país”, diz ele.

Riscos

Para Maílson, as tendências para 2009 poderão ser prejudicadas caso a crise de crédito americana se agrave ainda mais, provocando uma depressão mundial. Se isto acontecer, o Brasil pode sofrer pressões por medidas inconsequentes, como diminuir demais a taxa de juros, correndo risco de voltar a inflação. “Tem muita gente querendo ver o governo fazendo gol contra. Já falaram em baixar a taxa de juros em até 5%”, comenta.

Mesmo com os riscos, existem muitas razões para otimismo, pois, segundo Maílson, o país vive um momento de transformações único em sua história. Democracia consolidada, imprensa livre e independente, governo sob controle de duas forças sociais, como o voto e a disciplina de mercado, e uma sociedade intolerante à inflação contribuem para esse momento. Ainda, cada dia mais, o Brasil se distancia do populismo latino-americano, gerando mais confiabilidade diante dos países ricos.

Aryana Aragão
Equipe de Comunicação do Confea