Brasília, 20 de maio de 2009
Quatro mil hectares de conservação de solos. 70 microbacias trabalhadas. 320 quilômetros de estradas rurais adequadas. 2.146 parceiros. 96 abastecedouros comunitários. 120 mil mudas de plantas medicinais distribuídas. 1.638 carrinhos para coleta de recicláveis distribuídos. 1.200 propriedades rurais convertidas para agricultura orgânica. 441 quilômetros de cerca de proteção para a mata ciliar. 161 voluntários. 1.431 agricultores assessorados. 1.053 produtores e técnicos agrícolas capacitados. Esses são alguns dos números que o diretor da hidrelétrica Itaipu Binacional, Jorge Samek, divulga a respeito do programa Cultivando Água Boa. Implantado em 2003, o programa recebeu diversos prêmios: o Benchmarking Ambiental Brasileiro 2007, por ter sido a “melhor ação socioambiental do país”; o Prêmio Coge 2006, na categoria de melhor programa ambiental do setor elétrico brasileiro; o prêmio Carta da Terra 2005, pela aplicação e divulgação dos princípios estabelecidos pelo documento, e o prêmio Zilda Arns de Responsabilidade Social.
Em entrevista ao E-Confea, Jorge Samek falou sobre o programa e sobre a responsabilidade socioambiental da empresa, que envolve ampla participação comunitária. “Por meio de uma metodologia chamada ‘Oficinas de Futuro’, a comunidade é convidada a participar do processo de recuperação das microbacias, refletindo sobre o que precisa ser mudado e como chegar lá”, explicou Samek.
E-CONFEA – Como o programa Cultivando Água Boa pode ser descrito? O que está sendo feito?
SAMEK – O Cultivando Água Boa abriga 22 grandes projetos que abordam várias frentes de cuidados ambientais que se relacionam entre si de forma sistêmica e integrada. Tem como área de abrangência os 29 municípios que fazem parte da Bacia do Paraná 3 (conjunto de microbacias que estão conectadas ao reservatório da usina). Entre os principais projetos está o gerenciamento de microbacias hidrográficas, que lança mão de recursos informatizados de geoprocessamento para mapear todas as propriedades rurais de uma microbacia e trabalhar seus passivos ambientais coletivos. A partir disso, é feita uma readequação das atividades agropecuárias, incluindo o plantio de matas ciliares e da reserva legal, terraceamento de solos, plantio direto, recuperação de estradas rurais, implantação de abastecedouros comunitários (evita que os agricultores contaminem os cursos d'água no momento de realizar a pulverização de lavouras), destinação correta de embalagens de agrotóxicos, entre outras medidas. Num outro projeto, chamado Desenvolvimento Rural Sustentável, os produtores são estimulados a adotar práticas mais equilibradas em relação à natureza, como a agricultura orgânica e o cultivo de plantas medicinais. São desenvolvidos ainda projetos como: atendimento a segmentos econômicos vulneráveis, como o dos catadores de materiais recicláveis (com o Coleta Solidária); pesquisas e iniciativas voltadas à preservação da biodiversidade e a promoção da educação ambiental, cujo objetivo é garantir a sustentabilidade das ações a longo prazo.
E-CONFEA – As ações do Cultivando Água Boa envolvem vários parceiros. Qual o papel e a contribuição dos agricultores?
SAMEK – São cerca de 26 mil propriedades rurais em toda a região da Bacia do Paraná 3, sendo 90% de caráter familiar. Então, se nossa intenção é promover o desenvolvimento sustentável nessa região, os produtores rurais são de importância fundamental nesse processo. Se não convencermos e apoiarmos os agricultores a adotarem práticas sustentáveis, não será possível “cultivar” água boa na região. Os rios permanecerão cheios de sedimentos, matéria orgânica e resíduos de agrotóxicos, prejudicando a qualidade de vida de todos e contribuindo para a eutrofização(*) do reservatório da Itaipu, que irá se intensificar no futuro se medidas não forem tomadas agora.
E-CONFEA – E das instituições de ensino e pesquisa? Há uma efetiva participação da engenharia e da agronomia em ações do Programa? Como se dá essa participação?
SAMEK – Há uma interação com cursos de engenharia agronômica, de pesca e ambiental, da Unioeste, da UFPR e da UTFPR e outros. Essa interação se dá na forma de assistência técnica gratuita oferecida aos agricultores atendidos pelo programa Cultivando Água Boa, na elaboração de planos de manejo das propriedades rurais (que também são entregues gratuitamente aos proprietários) e no desenvolvimento de pesquisas em nível de graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado.
E-CONFEA – O Programa pode, de alguma maneira, ser relacionado com engenharia, no âmbito da inovação com responsabilidade social?
SAMEK – Sem dúvida. Como exemplos, podemos citar a Plataforma Itaipu de Energias Renováveis, que além da geração de eletricidade a partir de dejetos urbanos e da agropecuária, desenvolveu um carrinho elétrico para catadores de recicláveis, que vem sendo utilizado pelas cooperativas de catadores da região, atendidas pelo Coleta Solidária. O carrinho elétrico constitui um passo a mais no Coleta Solidária, que foi implantado já no início do Cultivando Água Boa, em 2003. Sendo uma das atividades econômicas mais precárias de nossa sociedade, a catação de lixo reciclável recebeu especial atenção da Itaipu, que distribuiu carrinhos feitos a partir de materiais que sobraram da construção da usina. Os catadores também foram orientados a formar cooperativas e receberam prensas e balanças para melhorar a disposição dos materiais recolhidos. Essas medidas simples permitiram aumentar substancialmente os ganhos dos catadores que recebiam por mês menos de um salário mínimo e hoje estão ganhando mais de 700 reais. Agora com o carrinho elétrico essas melhorias devem ganhar novo impulso. A Itaipu firmou um convênio com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) e já entregou 50 protótipos. Esses veículos permitem carregar até 500 quilos e melhoraram muito o conforto na dura jornada desses trabalhadores.
E-CONFEA – Qual a importância de programas do tipo do Cultivando Água Boa para, além da preservação do meio-ambiente, o desenvolvimento nacional?
SAMEK – Sob o aspecto da hidroeletricidade, que no contexto brasileiro se estabelece de grande importância estratégica, o Programa Cultivando Água Boa demonstra a possibilidade de que um empreendimento hidroelétrico, além de produzir energia renovável, pode influenciar, muito aquém da mitigação dos impactos ambientais, a sustentabilidade em sua área de influência. Sob o aspecto dos sistemas de produção, o programa vem demonstrando práticas sustentáveis, que serão essenciais às organizações rurais para acesso aos mercados em breve. Quem não produzir com as devidas adequações ambientais e sociais terá dificuldade em colocar os seus produtos ou, no mínimo, receberá valores menores por suas mercadorias.
E-CONFEA – As comunidades participam ativamente das ações do programa? Como é essa participação?
SAMEK – A comunidade é estimulada a tomar conta do seu “pedaço” do planeta por meio das Oficinas de Futuro. O processo inclui a formulação da “Agenda 21 do Pedaço” e se encerra com a formalização de um compromisso com a mudança, denominado “Pacto das Águas”, que é firmado em cada microbacia. Além da mudança de atitudes nos modos de produção e de consumo, a participação da comunidade se dá por meio de ações de voluntariado no monitoramento da qualidade da água, na multiplicação de conhecimentos ambientais e na gestão dos recursos hídricos (por intermédio dos Comitês Gestores que são implantados em cada bacia).
Beatriz Leal
Assessoria de Comunicação do Confea
