Sustentabilidade implica repensar as relações humanas

Brasília, 25 de novembro de 2009.

"Estande do Contae recebe alunos do IF-SE"
 “Temos que buscar novas formas de pensar o meio ambiente e a sustentabilidade, começando por repensar as relações humanas”, defende o francês Bernard Charlot  professor de Ciências da Educação e pesquisador radicado no Brasil  que na tarde de ontem (24) abriu um dos debates temáticos do Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, que até a próxima sexta-feira (27) acontece no Centro de Convenções de Brasília. “Para compartilharmos valores humanos e sentimentos comuns, afirma, é preciso querer, ter predisposição para conhecer mundos diferentes. Tudo depende de como o homem olha o mundo”.

A predisposição defendida por Charlot ao falar sobre Educação, Mundo(s) do Trabalho e Desenvolvimento Sustentável podia ser encontrada em qualquer um dos mais de seis mil participantes  a grande maioria jovens entre 15 e 25 anos  que durante o dia de ontem participaram das 32 atividades programadas, abrigadas em cinco auditórios e 18 salas em que o Centro foi dividido para atender ao público.

No estande do Contae (Conselho Nacional das Associações de Técnicos Industriais), um grupo do Instituto Federal de Sergipe  estado de onde vieram 60 participantes  se dizia “maravilhado” com o Fórum. São alunos do núcleo de São Cristóvão, município a 19km de Aracajú, que aliam o ensino médio ao ensino técnico na área agroindustrial.

Interessada penas nas publicações e folders do Confea expostos no estande, Caroline Santana, 17 anos, acredita que com uma especialização técnica terá mais chances no mercado de trabalho e, com isso, custear a faculdade que pretende seguir. Para ela, trocar e experiências e saber o que está sendo desenvolvido por gente de sua idade em outros estados “é muito bom porque estimula nossa criatividade”.

Andrezza Souza, 17 anos, e Diogo dos Santos, 16 anos, colegas de Caroline, seguem o mesmo caminho. Dizem que, apesar das diferenças curriculares entre os cursos do país, o nível de aprendizado “é alto o suficiente para colocar todos em pé de igualdade na disputa por uma vaga de trabalho. Diogo já sabe que precisará de um registro no Crea para desempenhar a profissão de técnico agroindustrial. “Quem nos fala sobre as entidades de classe e o Crea é o professor Gilmar Messias”, lembra.

Jovens trabalham por um mundo virtual e menos poluído

Se curiosidade e vontade de aprender são marcas registradas dos jovens que participam do Fórum, alguns deles também já ensinam.

É o caso de Marcelo Ribeiro, 21 anos, aluno de Tecnologia em Sistemas Eletrônicos do Instituto Federal de Santa Catarina  Campus Florianópolis. Ele é da equipe que desenvolveu o Projeto de Educação Profissional Tecnológica Virtual, que está exposto no estande do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) no espaço de expositores do Fórum.

“Estamos mostrando o laboratório virtual de instalações elétricas de automação predial direcionado para a aprendizagem presencial e virtual de alunos de cursos técnicos e tecnológicos. Focamos em ensinar a fazer instalações elétricas, instalação de interruptores, lâmpadas, centrais de alarme, de relês e de sensores. O programa é interativo e a pessoa pode interagir com os elementos, fazendo uma simulação do que seria aquela instalação na vida real. Ensinamos, por exemplo, como instalar um portão eletrônico”, explica.

Marcelo conta que depois de várias visitas a um laboratório presencial, que ele define como “nosso canteiro de obras”, são anotados procedimentos, tiradas fotos e tudo é observado nos mínimos detalhes.

“Daí vetorizamos esses objetos e adaptamos num software todas as ferramentas necessárias. As cores dos objetos e a disposição dos elementos são harmonicamente estudadas para que seja mais fácil interpretá-las. O passo seguinte é disponibilizar na internet, por meio do flash, que tem em todo o navegador. Isso coloca o programa à disposição de todos, realmente. A ideia é desmistificar o que parece muito complicado. É só seguir as instruções, sem depender de um profissional da área”, explica Marcelo.

Ao lado de outras 90 pessoas, Marcelo veio de ônibus para a capital federal e acha que “valeu a pena as trinta e tantas horas de viagem para conhecer gente desenvolvendo projetos parecidos e que podem se completar em cantos diferentes do país e em outros países também”.

Concluindo o curso e projetando seguir a docência, fazer mestrado e prestar concurso público, Marcelo é presidente do centro acadêmico do curso de Tecnologia de Sistemas Eletrônicos e conhece o Sistema Confea/Crea. “Ele regulamenta e fiscaliza a nossa profissão. A gente sabe que tem que ter registro no Crea e os próprios professores orientam quanto a esse registro”.

Produção de biodiesel e aproveitamento da glicerina é o projeto apresentado pelo Instituto Federal de São Paulo  Campus Sertãozinho, no interior paulista.

Stefanie Joyce de Assis, 15 anos, explica que os alunos acompanharam todo o processo desde a plantação da soja, do baru e do crame, até a extração do óleo. “Temos que ajudar a despoluir e a poupar o meio ambiente. O biodiesel é um dos caminhos”, diz ela, que confessa adorar química. “Vou para a área forense, parte de laboratório. O mercado de trabalho é bom e o salário inicial é de R$ 6 mil”, informa, se mostrando decidida pela opção profissional.

China e Brasil incentivam ensino técnico para se desenvolver
 

"Marcelo Ribeiro, do IF-SC, e Lino Gilberto, conselheiro federal"

Lino Gilberto da Silva, vice-presidente da Associação Brasileira de Ensino Técnico Industrial e conselheiro federal representante das Instituições de Ensino Técnico no plenário do Confea  um dos apoiadores do evento  diz que o Brasil está no caminho certo ao incentivar o ensino técnico.

“Atravessamos um momento muito interessante e as perspectivas de crescimento econômico abrem espaço para toda essa juventude”, afirma Lino. Para ele, implantado há 100 anos no país “o ensino técnico nunca deveria ter sido colocado em segundo plano como foi por muitos anos”. Na defesa do argumento, ele aponta “a carência de mão de obra especializada para atender à demanda atual, em praticamente todas as áreas técnicas, seja no nível médio ou superior”.

As mesmas perspectivas de crescimento movem a China que, segundo os palestrantes Yuan Li e Changhong Yuan, a partir de 1978, abandonou o modelo russo de educação e baixou uma reforma com diretrizes voltadas para a educação vocacional e básica de alto nível. “O governo acredita que precisamos de um número maior de especialistas em áreas técnicas”, informa Li, que completa: “De 2001 a 2007 foram implantadas mais de 1005 instituições de alto nível voltadas para a educação vocacional de acordo com os interesses da China e com as inovações da tendência mundial. O propósito é oferecer talentos para o mundo”.

“Apostando na educação e numa economia planejada de acordo com o mercado, a China pensa em alterar o conteúdo dos currículos dos cursos superiores e atrair investidores para o setor”, disse Changhong, que surpreendeu a plateia ao informar que a China tem hoje 70% de universidades oferecendo o ensino tradicional e já somam 30% as escolas vocacionais de alto nível, onde 48% dos professores são mulheres.

Li e Changhong participaram do debate sobre Educação, trabalho, ciência, tecnologia e inovação, que contou também com o uruguaio Wilson Netto, para quem “conhecimento não é o suficiente para inovar. É preciso desejo, paixão”, e o brasileiro Miguel Nicolelis, neurocientista que preside a Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa.

Enfático, Nicolelis defendeu a formação de professores educadores em Ciências e o ensino da matéria para todas as crianças. Outro ponto tocado por ele é que “o processo pedagógico deveria considerar o trabalho dos neurocientistas, que estudam como o cérebro aprende e, com isso, podem ajudar na compreensão da matéria pelos estudantes.

Maria Helena de Carvalho
Assessoria de Comunicação do Confea