"A adoção de métodos de Engenharia como receituário é negar a própria Engenharia", afirma o prof. José Camapum de Carvalho

Brasília, 08 de dezembro de 2009.

"Solo sem tratamento"
A engenheira colombiana Yamile Valencia Gonzales defendeu, em julho deste ano, tese de doutorado na Universidade de Brasília (UnB), intitulada “Influência da biomineralização nas propriedades físico-mecânicas de um perfil de solo tropical afetado por processos erosivos”. Segundo seu orientador e coordenador do Programa de Pós-graduação em Geotecnia da UnB, José Camapum de Carvalho, a tese de Gonzales representa, para a Engenharia, “uma ampliação de fronteira no moderno enfoque da interdisciplinaridade e uma contribuição importante para o desenvolvimento sustentável”.

"Solo com tratamento"
A pesquisadora comenta que, normalmente, a biomineralização tem sido usada para recuperar monumentos ou esculturas, acrescentando bactérias externas junto ao nutriente. No caso de sua pesquisa, são aproveitadas as bactérias nativas que existem no solo. Elas são alimentadas com nutrientes e, após 15 dias, começam a precipitar minerais com bicarbonatos de cálcio. “Esses minerais são como filamentos que unem, como se um grão de solo colasse no outro e preenchesse os vazios, ou seja, essa precipitação atua como cimentante, melhorando as propriedades mecânicas e hidráulicas do solo e diminuindo a sua suscetibilidade à erosão”, explica.

"Voçoroca de Santa Maria"
De acordo com Gonzales, são poucas as pesquisas na área de Geotecnia, especificamente, no âmbito da “biotecnologia” ou “bioengenharia”, que procuram, a partir da utilização de microrganismos, melhorar as propriedades geotécnicas e de estabilidade dos solos. No seu estudo, que teve início em 2005, buscou-se um local afetado por processos erosivos, já que o objetivo era mitigá-los. Assim, as amostras foram retiradas às margens da voçoroca de Santa Maria (Distrito Federal), que, hoje, apresenta trechos com cerca de 20 metros de profundidade e 30 metros de largura.

Camapum aponta que “hoje existem vários métodos para conter erosão e o insucesso da maioria deles se deve à ausência da Engenharia, no sentido em que os mesmos são adotados com características de receituário, e isso é negar a própria Engenharia”. Segundo ele, em princípio, a nova técnica pode ser utilizada em qualquer solo desde que existam as bactérias que geram a biomineralização. “Mas é importante que fique claro que o uso da técnica encontrada não prescinde de estudos e projetos de Engenharia, ou seja, não é receita”.  Gonzales acrescenta, ainda, que este é um trabalho multidisciplinar, envolvendo profissionais da Biologia, Geologia, Medicina Veterinária, entre outros. A técnica também pode ter diversas aplicações: fundação, obra rodoviária, barragem, entre outras.

Os resultados benéficos da pesquisa estão ainda relacionados com a questão ambiental e com o baixo custo. Para Camapum, “os métodos atuais para prevenção, controle e recuperação de processos erosivos são frutos do desequilíbrio ambiental gerado pelo homem e marcam uma resposta da natureza”. Ambos afirmam que a nova técnica é considerada uma tecnologia limpa, possibilitando o reequilíbrio sem a geração de danos ambientais. “Como usamos bactérias nativas, há mais vantagens do que problemas. Estamos enriquecendo um solo pobre, aumentando sua resistência em até 20% e diminuindo sua deformação em até 50%”, comenta Gonzales.

Em relação ao custo, Yamile Gonzales informa que biomineralização pode reduzir em até 40% o custo em comparação às técnicas tradicionais de recuperação de áreas erosivas. Explicando sobre os métodos convencionais, que podem ser de dois tipos  preventivos e de controle , Camapum explica que “os preventivos são infinitamente os de menor custo, mas infelizmente quase nunca utilizados, seja devido a falhas na educação ambiental da população, seja por deficiência na formação dos engenheiros, geólogos e arquitetos”.

Os métodos preventivos compreendem desde a definição dos planos de ocupação urbana e rural até a execução das obras de engenharia e devem focar a busca da manutenção do equilíbrio ambiental. Para os de controle, existem as técnicas mais comuns que consistem em eliminar ou reduzir o fluxo superficial de água, implantar barramentos nas ravinas e voçorocas e fazer o retaludamento das laterais da erosão. E, nos métodos de recuperação, existe a drenagem e o reaterro, por exemplo. Mesmo com a existência de todas essas técnicas, a tese de Yamile Gonzales é pioneira e representa um grande avanço no combate à erosão de forma sustentável. Assim, Camapum conclui que: “os resultados positivos obtidos com a pesquisa representam um grande avanço para a Engenharia e uma grande contribuição para o desenvolvimento técnico-científico do Brasil e do mundo”.

Tânia Carolina Machado
Assessoria de Comunicação do Confea