Brasília, 12 de março de 2010.
Hoje superados pela sociedade moderna, esses conceitos fortaleceram o preconceito quanto à participação da mulher em qualquer atividade que extrapolasse as paredes de uma casa. Como que fatalmente destinadas às prendas domésticas e somente a elas, as mulheres, que hoje são 51% do eleitorado, cumprem tripla jornada de trabalho e chefiam famílias país afora, já foram consideradas seres incapazes de aprender a somar, quanto mais dividir e multiplicar! Pensar também não era coisa para mulher.
Essa realidade faz parte de um passado não tão distante, como mostra pesquisa realizada para encontrar a resposta para a pergunta feita há 77 anos.
Com base em registros do Crea do Rio de Janeiro entre os anos de 1950 a 1970 - e que servem de espelho para a realidade nacional - Scheila Gutierrez Damaso, geógrafa que trabalha no Regional, colheu dados para uma pesquisa que traça a evolução da participação feminina no universo ainda predominantemente masculino das áreas de engenharia, agronomia, geologia, geografia, meteorologia e técnica industrial. Arquitetura, profissão também regulamentada e fiscalizada pelo Sistema Confea/Crea, é a única em que as mulheres já são maioria.
Quando o Sistema Confea/Crea foi criado, em 1933, o Crea-RJ registrava apenas 14 mulheres. Os homens somavam 2023. No período pré-Confea, entre 1920/24, 388 homens já tinham o título de engenheiros civis.
Entre 1900 e 1920 “nenhuma mulher passou pelas carreiras envolvidas pelo Conselho”, informa a pesquisadora, que completa: “comparando os totais por quinquênios a partir do ano de formatura, registramos, em 1920, a primeira mulher a entrar no curso de engenharia civil. Uma segunda se formou em 1939, ambas pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro.
De 1950 a 59, o quadro apresenta evolução: 88 mulheres já eram engenheiras civis, mas os homens como hoje, continuavam sendo maioria: 6033.
Durante o período de entrevistas, Scheila entrevistou uma mulher por atividade profissional em função do baixo índice delas no universo deles, mas a forte presença feminina no curso de arquitetura e urbanismo fez que esse critério fosse alterado para ouvir três arquitetas urbanistas. Entretanto, o interesse da mulher pela profissão não é novidade. Os levantamentos de Scheila indicam que em 1950, 1122 mulheres exerciam a profissão, enquanto os homens somavam 1393.
Quadro atual
Hoje, embora em maior participação, ainda é tímida a presença feminina no Sistema Confea/Crea. No Crea-RJ a situação apresentada é a seguinte: Agrimensura - 909 mulheres e 4652 homens; Agronomia - 1149 mulheres e 8243 homens; Arquitetura - 13495 mulheres e 16009 homens; Engenharia Civil - 7199 mulheres e 59159 homens; Engenharia Elétrica - 8116 mulheres e 93 806 homens; Geologia de Minas - 537 mulheres e 3681 homens; Engenharia Industrial - 2685 mulheres e 53213 homens; Engenharia Química - 1416 mulheres e 4142 homens e Engenharia de Segurança - 632 mulheres e 3106 homens. Temos atualmente o total de 36138 mulheres representando 13% dos registros do Conselho contra 246.011dos homens, ou seja, 87% dos inscritos no Conselho.
Na tabela é possível observar que o percentual de graduados pelas engenharias é bastante similar ao de inscritos do Crea-RJ, indicando que os percentuais tanto de homens como de mulheres no Crea-RJ apresentados pela média do Brasil por ano e sexo são bem próximos.
Porcentagem de graduados presentes no Exame Nacional de Curso entre 1996 e 1999, por área de curso, ano e sexo no Brasil:
Homens Mulheres Área do curso 1996 1997 1998 1999 1996 1997 1998 1999 Eng. Química 56,8 57,3 57,6 43,2 42,7 42,4 Eng. Civil 73,2 72,9 75,5 75,0 26,8 27,1 24,5 25,0 Eng. Elétrica 89,9 89,5 10,1 10,5 Eng. Mecânica 95,4 4,6 Fonte: DAES/INEP/MEC |
Radiografia: décadas de 40 a 70
A Agrimensura teve a primeira mulher no ano de 1942. Neste mesmo período, 1940/44 a modalidade tinha seis mulheres e 326 homens. E no fim da década de 1950 os homens são 665 e as mulheres 39.
Na Agronomia, a primeira mulher a formar-se foi em 1935. No mesmo período os homens representavam 352 nos registros. Já no fim da década de 1950 somavam-se 10 mulheres e 823 homens.
Na Engenharia Elétrica a primeira mulher a receber diploma foi em 1945. Neste mesmo ano totalizavam 556 homens. Em 1959, as mulheres somavam apenas seis e os homens, 1190.
Em Geologia de Minas a primeira mulher a adquirir o diploma foi no ano de 1958. Portanto, até 1959 somente uma mulher pertencia e esta titularidade. Os homens no final de 1959 eram 227.
A Engenharia Industrial teve no ano de 1937 a sua primeira mulher formada. Neste mesmo período os homens somavam 130 nesta modalidade. No final da década de 50 as mulheres totalizavam quatro e os homens 866.
Na área de Engenharia Química, a primeira mulher a graduar-se foi em 1942. No final de 1944 eram duas mulheres e 9 homens. No final da década de 1950, as mulheres pertencentes a esta modalidade representavam o número de 25 e os homens no mesmo período somavam 226.
Na Engenharia de Segurança do Trabalho, ocorre um fato diferenciado. A maior parte desses profissionais tem uma formação superior anterior à criação do curso. Em 1974, foi registrada a primeira mulher a ter o título, enquanto os homens já eram 36.
No final de 1959, as mulheres representavam apenas 2% dos inscritos no Crea-RJ. Os homens totalizavam 98% (13.446).
Já no final da década de 70, o quadro das profissões do Conselho se apresentava da seguinte forma:
Agrimensura - 249 mulheres e 1450 homens; Agronomia - 126 mulheres e 2207 homens; Arquitetura - 1910 mulheres e 4111 homens; Engenharia Civil- 961 mulheres e 16647 homens; Engenharia Elétrica - 774 mulheres e 14822 homens; Geologia de Minas - 73 mulheres e 1133 homens; Engenharia Industrial - 179 mulheres e 11360 homens; Engenharia Química - 266 mulheres e 1155 homens e Engenharia de Segurança - 9 mulheres e 278 homens. Totalizando no final da década 4517 mulheres e 55186 homens. Enquanto as mulheres no final da década de 50 totalizavam 2%, no final da década de 70 elas totalizavam 8% - um crescimento de 300% porém ainda diminuto diante do quantitativo de 98% dos homens registrados no Conselho.
“Isso é profissão de homem.”
Em 25 entrevistas que somam 80 horas de gravação, Sheila acabou se identificando com a história de mulheres que queriam ir além do que a educação impunha até então, “preparar-se para as prendas domésticas, namorar, noivar, casar e dedicar-ser ao lar eram a ordem vigente”.
Como todas as suas entrevistadas, sem exceção, Sheila também ouviu que “homem gosta de álgebra e mulher, de bordado”, e “mulher não gosta de matemática”.
E como suas entrevistadas, ao escolher se formar em geografia, também ouviu: “mas isso é profissão de homem!”.
“Tivemos e ainda temos que enfrentar muitos desafios da sociedade a começar por dentro de casa, independente do nível social, e romper padrões de formação que antes impediam muitas perspectivas”, admite a geógrafa.
Hoje, aos 56 anos, com especialização em Marketing de Varejo e pesquisa de Opinião Pública, Scheila conta que para finalizar o trabalho e entender as nuances reveladas pelo levantamento, lançou mão de livros de psicologia, leu o que Gilberto Freire escreveu em “História da vida privada brasileira”, e o que Simone de Bouvoir analisou no livro O Segundo Sexo.
“Precisava ter uma boa base de conhecimentos para entender tudo o que a pesquisa me revelava”, diz Scheila, que ainda trabalha no Crea-RJ. “A pesquisa, a qual acabou se transformando em monografia de Scheila no curso de pós-graduação, informa que a resistência da sociedade envolvia até mesmo famílias de posses, com pais esclarecidos
Ela explica que as pesquisas de profundidade revelam o que está por traz da decisão de ser uma profissional da área tecnológica, as razões que levam muitas a se formar, mas não exercer a profissão e a opção de muitas de interromper a carreira para cuidar dos filhos ou mesmo acompanhar o marido.
Maria Helena de Carvalho
Assessoria de Comunicação do Confea
