Dia 12 de Outubro: Dia do Engenheiro que ajuda a combater a fome no mundo

Brasília, 8 de outubro de 2010

“Agronomia é a profissão do passado, do presente e do futuro”, sintetiza José Vivaldo de Mendonça Filho, coordenador nacional das Câmaras Especializadas instaladas nos 27 Regionais que compõem o Sistema Confea/Crea.

De Itabuna, (BA), onde atua há cinco anos, Vivaldo defende com o idealismo que parece marcar a escolha da profissão, “que a assistência técnica deveria chegar aos milhares de brasileiros que tiram da terra a sua subsistência que poderia ser mais provida e por isso de melhor qualidade”.

Opinião compartilhada por Kleber Santos, conselheiro federal e também engenheiro agrônomo: “é uma profissão de fé cujo maior desafio agora é aumentar a produção de alimentos com qualidade, conservando as áreas verdes, além de recuperar as degradadas, o que é um trabalho constante. Como uma onda verde, temos que produzir e conservar a floresta”, diz.

A esses, Vivaldo acrescenta o desafio que para ele “é o da década”: a valorização do profissional, que, se por um lado, tem um vasto mercado de trabalho, é mal remunerado no início da carreira onde os salários variam de R$ 800 a R$ 1,2 mil. Para ele, o investimento em pesquisa, a necessidade estratégica da atividade para campo e cidade e a organização política dos profissionais “são ingredientes para atrair os jovens em idade de optar por uma profissão”.

Para Marcos Túlio de Melo, que preside o Confea, “a agronomia e a agricultura em particular, continuarão a fazer do Brasil referência mundial”. Ele afirma ainda que a valorização do agrônomo passa por mudanças culturais” e que “o Brasil depende de seu bom desempenho, e de investimentos dos setores publico e privado, principalmente no campo da pesquisa, a fim de corresponder às expectativas sobre o aumento de produção de alimentos sem aumentar áreas de plantio. Um desafio e tanto”, reconhece.

Quanto à valorização do profissional, Túlio de Melo defende que é preciso atrair mais jovens e adotar medidas que evitem a evasão que se registra hoje. Para ele, ainda, "o salário mínimo profissional, lei 4950-A, deve ser estendido ao setor público”. Ele acredita que “é fundamental aprovar a isonomia salarial para os profissionais da Engenharia, Arquitetura e Agronomia com a carreira dos profissionais de Direito, no funcionalismo público”.  
 
Projeções geram expectativa pelo aumento da produção agrícola nacional
Presidente da Confederação dos Engenheiros Agrônomos do Brasil, José Levi Montebelo, seguindo o mesmo caminho de Vivaldo e Kleber, avisou logo no início da entrevista: “quando falo da profissão que tanto amo, saio logo do amor para o fanatismo com a maior facilidade”, constata bem humorado ao longo de 37 anos de profissão. “Nasci engenheiro agrônomo e agradeço a Deus o privilégio”, confessa.

À frente de 27 associações – uma em cada estado e no Distrito Federal -, Levi defende que a categoria tem que “conquistar a sociedade mostrando a importância da segurança e da qualidade dos alimentos para a sua saúde”.

“Engenharia agronômica é a arte do cultivo da terra”, define Levi, que lembra que “a amplitude do mercado de trabalho pode ser avaliada diante de dados divulgados pelo IBGE, segundos os quais temos cinco milhões de propriedades rurais no país”.

No recente recadastramento feito pelo Sistema Confea/Crea, existem 73.258 profissionais registrados, mas Levi não quer precisar números: “temos apenas estimativas”. Mas ele acredita que somam perto de 150 mil os engenheiros agrônomos atuando na profissão. “Cerca de seis mil são formados a cada ano, mas nem todos buscam registro no Sistema Confea/Crea e muitos acabam por trabalhar em outras atividades”, lembra.

Crítico da proliferação de cursos a partir dos anos 1990, Levi lembra do Pasquim (jornal de oposição nos difíceis anos da década de 1970) que em uma das manchetes destacava que no Brasil, ao se instalar um curso no segundo andar de um prédio, era colocada a placa “escola de ensino superior de...”

Ainda nos limites do amor e preocupado em não resvalar no fanatismo, o presidente da Confaeb diz que “Agronomia produz alimento, que é o combustível da vida”, e nesse ponto, lembra das expectativas geradas pelas estimativas divulgadas pela ONU, FAO e OCDE dando conta que nos próximos 10 anos a produção de alimentos deve crescer 20% para atender a população mundial. Desses, 40% devem ser produzidos em terras brasileiras.

“Essas projeções revelam a capacidade nacional de produção e a expectativa do planeta em relação ao nosso desempenho”, diz Levi, para quem “esse é um dos indicativos para quem está escolhendo uma profissão a seguir”. Mas recomenda: “é preciso amor, disciplina e um perfil que se adapte à formação multidisciplinar oferecida pela Engenharia Agronômica, além de gostar de ciências exatas, sem esquecer que passamos a maior parte do tempo longe dos confortos da cidade”.

Oportunidades de negócios
Segundo relatório publicado pela FAO/ONU, em 2050 o planeta estará próximo a uma população de 9 bilhões de pessoas e a produção de alimentos deverá crescer 70% para atender a demanda.

Nesse cenário, até 2019, o Brasil deverá aumentar sua produção em 40%, muito mais do que os países europeus que não devem passar dos 10%. Os EUA continuarão a ser o
maior produtor mundial, mas a fatia brasileira no mercado deverá subir de 26 para 30%, segundo projeções de David Luiz Grespan Neto, em artigo publicado pelo site da Rede Agronomia, criada pela Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado do Rio de Janeiro, mas que atrai agrônomos de todo o país.

Para David, “toda esta conjuntura, leva a criação de inúmeras oportunidades de negócios”, o que deve movimentar vários setores da economia, “não somente o setor de produção, mas a comercialização e principalmente a distribuição e logística”. De acordo com este
mesmo relatório o consumo de carne aumentará em 80% nos países em
desenvolvimento, sem contar outros produtos de necessidade básica, significando que "toda uma cadeia de geração de empregos estará maximizada”, prevê.

O que faz um engenheiro agrônomo
Com atividades reunidas pela agropecuária, o engenheiro agrônomo pode atuar no supervisionamento de construções para fins rurais; com irrigação e drenagem para fins agrícolas; fitotecnia; fertilizantes e corretivos; processos de cultura e de utilização de solo; manejo dos recursos naturais renováveis; ecologia; química agrícola; tecnologia de transformação de alimentos; com parques e jardins das áreas urbanas; mecanização na agricultura e com os implementos agrícolas. Em agropecuária, pode trabalhar com zootecnia ; beneficiamento e conservação dos produtos animais e vegetais e com nutrição animal.

Onde estudar
O curso de graduação em Agronomia dura em média cinco anos. Existem mais informações sobre o curso nos sites de todas as universidades federais e particulares e que podem ser acessadas no endereço www.uol.com.br/guiadoestudante.

A profissão necessita de registro nos Conselhos Regionais de Engenharia, Arquitetura e Agronomia e no que se refere ao seu regulamento é regida pelo Confea, o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia.

História revisitada
Segundo Luiz Fernando Toscano, em artigo também publicado na Rede Agronomia, “a ciência agronômica surgiu no Brasil, na segunda metade do século XIX, resultante da gradativa extinção da escravidão, do declínio da cana-de-açúcar no nordeste e da pecuária no sul. Desta situação, nasceu em 1859 o Imperial Instituto Baiano de Agricultura, com o objetivo de desenvolver uma tecnologia capaz de substituir a mão-de-obra escrava e melhorar a produção das lavouras. Em 1875, também na Bahia, foi fundada a primeira escola de Agronomia no Brasil, na comunidade de São Bento das Lages. Esse curso está hoje integrado à Universidade Federal da Bahia. A segunda escola foi criada em Pelotas (RS),em 1883. Hoje, é parte integrante da Universidade Federal de Pelotas”.

Toscano lembra que o ensino de Agronomia no Brasil só foi criado e regulamentado, oficialmente, “35 anos após o surgimento da primeira escola, através do Decreto n° 8.319, de 20 de outubro de 1910”.

A história revisitada por Toscano registra que “na década de 1960, a agricultura brasileira começou a sofrer uma acentuada transformação tecnológica, orientada por um processo de internacionalização baseada em pacotes tecnológicos, gerados a partir da Revolução Verde e difundidos mundialmente. Nessa mesma época, o ensino da Agronomia, até então controlado pelo Ministério da Agricultura, passou para o Ministério da Educação e Cultura, através do Decreto n° 60.731, de 19 de maio de 1967”.

O reconhecimento do trabalho do Engenheiro Agrônomo só aconteceu, segundo o professor da Unesp, muito tempo após o surgimento da Agronomia no Brasil. Em 12 de outubro de 1933, o Decreto Presidencial nº 23.196 regulamentou o exercício da profissão de Agronomia. “Portanto, 58 anos após a criação da primeira escola de Agronomia é que foi oficializada a existência desse profissional. Esta data da regulamentação da profissão, 12 de outubro, passou a ser adotada pela categoria como o dia do Engenheiro Agrônomo.

Do aipim a celeiro do mundo
Professor da Universidade de Campina Grande, o agrônomo José Geraldo de Vasconcelos Baracuhy, ensina que “o Brasil em termos mundiais é a maior referência na produção agropecuária. Já foi considerado o maior país agrícola tropical e hoje domina, entre outras tecnologias, a de adaptação de produtos originários de outros países, além de produção, e produtividade”.

Ele observa que “acostumados há tanto tempo com o café, a soja, o eucalipto, esquecemos que eles não são nativos do Brasil. “O agrônomo brasileiro se especializou na adaptação dos chamados produtos exóticos, vindos de outros países”, diz e completa: “grande parte dos nossos produtos foram trazidos da Ásia, entre a China e a Índia. Quando Cabral aportou em terras brasileiras encontrou na costa o aipim – com 120 variedades -, a cana de açúcar, o abacaxi e o caju.
 
“O solo e a tecnologia são uma benção para a agricultura brasileira”, afirma Baracuhy.   “A planta precisa de sol, água e solo, condições em que o Brasil é pródigo. Sem água você até dá um jeito, o solo se corrige, mas o sol não tem tecnologia que substitua. “É essa a dádiva que gera energia gratuita em praticamente todo o país a maior parte do ano”, agradece o professor que ensina: “o agrônomo precisa reciclar seus conhecimentos constantemente. Quando termina o curso já está desatualizado porque o  processo tecnológico é muito rápido. Hoje temos cursos a distância, uma ferramenta fundamental e de fácil acesso”.

Curiosidades
A soja veio da China onde é grão sagrado junto com o arroz, trigo, cevada e o milheto. O eucalipto é da Austrália.. A cabra e a galinha vieram na esquadra de Cabral, e desagradaram os índios que implicavam com o cacarejar das galinhas.

Os escravos chamavam o caju de árvore milagrosa. Delibilitados pela viagem nos navios negreiros, durante a quarentena a que eram obrigados, comiam a fruta que, rica em vitamina C, repunha energia. 

O café, originário da Etiópia, chegou ao Brasil pelas mãos da traição. Proibido pela religião mulçumana por ser excitante, o café chegou antes à Europa  através da biopirataria. A França resolveu utilizar a Guiana Francesa para  plantar o produto. Por volta de 1750, o marquês de Pombal para resolver um  “litígio de fronteira”, mandou dois emissários para resolver a questão. Um deles era Francisco Palheta. Desconfiado que os brasileiros queriam, na verdade, roubar mudas da planta, o governador da  Guiana não permitiu que se hospedassem em hotel e nas dependências do palácio passa a vigiá-los. Mas uma paixão repentina rompeu o cerco da segurança. Magoada com o marido, a esposa do governador deu, gratuitamente, para Palheta, algumas mudas de café e até o ensina como cuidar.  O café entrou no Brasil pelo Pará e a primeira marca, e que existe até hoje, leva o nome de Palheta.

Maria Helena de Carvalho
Assessoria de Comunicação do Confea