Rumo à quarta Revolução Verde

Lina Moscoso - Diário do Nordeste, 03 de novembro de 2010

A produção agrícola brasileira hoje aposta e precisa se adequar à sustentabilidade. Produtividade, qualidade da produção agrícola, sustentabilidade e segurança alimentar. Essas são as palavras de ordem na agricultura. De acordo com o diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), Antonio Roque Dechen, os segmentos de exportação são os mais cobrados em relação a este novo modelo de produção agrícola, já que o mercado internacional se torna cada vez mais exigente.

"Todos temos que nos preocupar com a sustentabilidade da produção agrícola, que gera tanto a qualidade de matéria-prima, quanto segurança alimentar. É cobrado do profissional de Agronomia que o plantio, a colheita e a transformação do produto estejam pautados na visão sustentável. Mas também é papel da indústria se adequar às normas", salientou. O desenvolvimento sustentável de práticas agrícolas foi discutido durante o 2º Fórum Criação de Valor Compartilhado da Nestlé, realizado em São Paulo.

Dechen disse que para obter bons resultados nas produções é obrigatório aliar a sustentabilidade, que se baseia no desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das futuras gerações satisfazerem suas próprias necessidades, aos avanços tecnológicos. "Estamos preocupados com o crescimento esperado no País nos próximos anos, é preciso investir muito em novas tecnologias".

Numa forma bastante ampla, a adequação às práticas sustentáveis vai desde a conservação do solo até a produção do alimento e colocação no mercado. Para o diretor, o aumento da produção agrícola deve ocorrer dentro de um cenário de recuperação de áreas degradadas, aquelas que possuem solos fracos e sofrem a erosão. O professor observa que é preciso plantar nas áreas degradadas, mas fazer isso com tecnologia. Além disso, investir em genética aplicada, fatores aplicados, novos insumos, novas tecnologias de produção, mas tudo com limites. "Temos de ter novas variedades, nova produção e usando as mesmas áreas ou recuperando as degradadas", sugeriu.

A tecnologia para a plantação sustentável, segundo o diretor, depende, em primeiro lugar, do tipo de cultura e do cenário. "Às vezes a derrubada de árvore é menos prejudicial para o meio ambiente do que deixar o solo desprotegido, sob ação da chuva". Conforme Dechen, proteger o solo da água é imprescindível para evitar o processo erosivo. "A recomposição de um centímetro de solo leva 300 anos", revelou. Para ele, é necessário adaptar a produção agrícola às mudanças climáticas, centrando em práticas conservacionistas de preservação do solo. No entanto, é preciso pensar na dependência dos fertilizantes. "Você tem toda a estratégia de produção, mas dependência de insumos. É necessário ter alternativas para isso".

Na produção agrícola, o conceito de sustentabilidade pode ser fundamental para estratégia de negócio da empresa e envolve fatores físicos, bióticos e aspectos relativos à viabilidade econômica e sociocultural. Contudo, para Dechen, ainda faltam as definições dos marcos regulatórios das cadeias produtivas no que se refere ao desenvolvimento sustentável da agricultura. "Isso tem que ser feito porque é exigência internacional. São imprescindíveis a implantação dos conceitos de qualidade, das normas de certificação e das boas práticas agrícolas. A produção e adequação ambiental são exigências irreversíveis".

A hidroponia, que é o cultivo de plantas sem a presença do solo que serve apenas de suporte, é uma das tendência mundiais. "É possível plantar horta com solo arenito e nutrir o cultivo". Outra tendência é a agricultura orgânica, prática extremamente interessante na visão do diretor da Esalq. "O custo é com os cuidados, mas não existe condições de fazer agricultura orgânica para atender a demanda de toda a população. Sai muito caro porque é produção em escala. Estamos dando saltos muito interessantes em termos de qualidade e densidade de produção", destacou.

O Brasil passou de um cenário de agricultura de sobrevivência para o de oportunidades. A produção agrícola brasileira apresentou crescimento de 25% nos últimos anos. Hoje a produção é de 149 milhões de toneladas. Mas as perspectivas para o futuro são ainda maiores, segundo Dechen. "Teremos de ter mais 50 milhões de hectares para produção. Nos próximos dez anos, o mundo tem de aumentar em 40% a produção agrícola e o Brasil vai participar com70% nesse aumento, o que nos preocupa muito porque vai exigir urgência de atitudes, de ações, de mudanças curriculares e de atendimento de nova demanda que vem pela frente".

Como destacou o professor, em tempo algum o Brasil sofreu transformações agrícolas como as que aconteceram nos últimos 50 anos. A globalização é talvez o que mais impactou o cenário da agricultura brasileira. Como recomenda o diretor, hoje a produção deve ser do fim para o começo. Da exigência do consumidor para a tecnologia.

Sobre o futuro da prática agrícola no Brasil, Dechen sugeriu que é preciso delimitar biomas e trabalhar pela preservação deles. "Novos avanços serão obtidos com o desenvolvimento da biotecnologia, da informática e da nanotecnologia, que pode contribuir para o desenvolvimento de novas ferramentas para o biotecnologia". De acordo com o diretor, avanços da biotecnologia vão transformar mercados e ampliar oportunidades.

O professor prevê uma quarta Revolução Verde, que trará o aumento da produção por meio da abertura de fronteiras agrícolas. "Isso promoverá um salto de desenvolvimento na agricultura brasileira. A segurança energética é a estratégia no século XXI", estimou.

Dechen acredita que o Brasil pode ser uma potência agrícola. "Isso será possível se tivermos sustentabilidade, qualidade, biodiversidade, segurança alimentar e cuidados. Além de uma legislação adequada, interação público-privada, redes de pesquisa, recursos financeiros, e principalmente, ações efetivas para o desenvolvimento de produtos de alto valor agregado". Sustentabilidade, produção agrícola e adequação ambiental são indissociáveis.

Fique por dentro

Há 10 anos a Nestlé visa a agricultura sustentável. Em linha com a sustentabilidade, a empresa deve disponibilizar mais de US$ 50 milhões em microcrédito para que seus produtores invistam em sustentabilidade. A aposta brasileira parece também refletir as expectativas mundiais, como contou o diretor da Divisão agrícola da Nestlé S.A., Hans Jöhr. Para ele, o tema sustentabilidade é uma tendência mundial, já que ela está atrelada à preservação do meio ambiente, melhoria na qualidade de produtos, e aumento de produção.

*A jornalista viajou a convite da Nestlé

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