José Rocher - Gazeta do Povo, 04 de novembro de 2010
A produtividade das lavouras de grãos esperada na região central do Brasil se tornou um fator inusitado nesta safra de verão. Minas Gerais e Goiás querem colher de 2% a 4% mais soja que em anos anteriores. No milho, o corte de 5% na área tende a ser compensado pelo aumento da produtividade. O quadro contrasta com o dos estados do Sul, que temem seca por causa do La Niña, e com o de Mato Grosso, que tenta recuperar o atraso no plantio. Todas as regiões estão apostando em bons preços na colheita, mas quem alcançar alta produtividade é que vai lucrar mais.
“Os preços são a vedete desta safra. O clima está bom até agora e, se a chuva continuar, a produtividade aumenta. Nesta safra, investiu-se um pouco mais em tecnologia”, afirma Leonardo Machado, técnico e analista da Federação da Agricultura de Goiás (Faeg). A avaliação dos técnicos aparece nas estatísticas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Goiás tende a colher 2,95 mil quilos de soja por hectare, 2,5% a mais que no ano passado. Para Minas, o rendimento previsto e de 2,94 mil quilos por hectare, com avanço de 4,3%.
Nos dados da Conab, esse avanço de produtividade ajuda a sustentar uma safra nacional de soja acima de 68 milhões de toneladas, marca atingida na temporada 2009/10. O papel da região é decisivo também no milho. Com maior rendimento, Minas deve assumir a liderança na produção de verão, alcançando 5,94 milhões de toneladas. Tradicional líder, o Paraná reduziu a área do cereal e pode colher 300 mil toneladas a menos que o concorrente do Sudeste.
Após as chuvas recentes, o plantio começou a deslanchar na porção central do Brasil. Em Goiás, se aproxima de 50% do total de 2,6 milhões de hectares previstos para a soja, área 3% maior que a de um ano atrás. No milho, que também avança na semeadura, os goianos recuaram 20 mil hectares, para 360 mil.
O produtor Wilson Zacarias, que cultiva 850 hectares em Anápolis (GO), relata estar “caprichando no manejo e no investimento em tecnologia”. Numa região em que o custo total da produção de soja é avaliado em R$ 1,2 mil por hectare, ele investe R$ 1,5 mil. Ele colheu 3,2 mil quilos de soja e 10 mil quilos de milho por hectare na safra 2009/10 e quer superar essas marcas neste ano. “Estou colhendo milho como nas melhores regiões do Paraná.”
O investimento extra está fazendo com que os produtores antecipem a venda da produção. Em contratos de troca, comprometem parte da colheita agora para não terem de carregar a conta dos insumos. “Perto de 40% da safra estão vendidos, o dobro dessa mesma época de 2009”, calcula o analista da Faeg.
A Expedição Safra chegou à região central do Brasil depois de três dias de chuva. O clima atual é considerado bom para o plantio, que segue por mais um mês. A equipe de jornalistas tem apoio técnico de duas analistas da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), as economistas Carla Neri e Patrícia Medeiros.
A equipe que está na Região Central percorre a última etapa da fase de plantio, que além de Minas Gerais e Goiás, inclui Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o Matopiba.
Centro-Oeste - Amostra de 20 municípios de MT
A equipe que percorreu Mato Grosso retornou ontem a Curitiba. Foram mais de 6 mil quilômetros de estrada. Os técnicos e jornalistas passaram pelas regiões de Primavera do Leste, Cuiabá, Campo Novo do Parecis, Sapezal, Nova Mutum, Nobre, Sorriso, Nova Ubiratã, Vera e Diamantino. As informações levantadas, que irão basear a projeção de safra para o estado, contemplam ainda outros dez municípios.
Neste momento, os produtores mato-grossenses tentam tirar o atraso no plantio da soja. Ao contrário do ano passado, quando a semeadura foi antecipada, as chuvas vieram mais tarde e os agricultores do Centro-Oeste correm conta o relógio. A pressa para plantar a soja tem relação com o milho safrinha, que precisa ser semeado até o fim de fevereiro.
A Expedição Safra acredita que, na média, o estado já avançou para a metade final do plantio. A depender da região, na comparação com o ano passado, o plantio está entre 20 e 40 pontos porcentuais atrasado. Diante da situação, a expectativa é de uma redução entre 20% e 30% na área destinada ao cereal de segunda safra. Também tem produtor desistindo da soja para entrar direto com o algodão, que seria safrinha e agora será plantado como safra normal.
Leane Simone Altmann, de Nova Mutum, vai reduzir a zero sua área de milho. No ano passado foram 400 hectares. Ela conta que preferiu fazer uma boa safra de soja, que pode ser plantada até 20 de novembro. (Giovani Ferreira)
