Vera Gasparetto, 16 de Novembro de 2010
PortoGente conversou com o colunista do site e especialista em transportes, Silvio dos Santos, que integra a equipe da Fundação de Ensino e Engenharia de Santa Catarina (FEESC), sobre o transporte de cargas no Brasil. Ele aponta que o Brasil inverte a lógica, optando por um sistema mais caro, perigoso e poluidor, quando transporta suas cargas da seguinte forma: 70% pelas rodovias, 25% pelas ferrovias e apenas 5% utilizando as hidrovias e a cabotagem.
Na segunda parte da entrevista, que vai ao ar na sexta-feira (19), Sílvio dos Santos diz que o modelo de concessão das ferrovias, implantado em 1996 no País, não é dos melhores e precisa ser mudado.
PortoGente - Como pensar um sistema de transporte de cargas eficiente e eficaz para o País, dentro de uma visão integrada?
Sílvio dos Santos - O primeiro aspecto é a matriz de transporte, que no Brasil é distorcida, pois 70% da carga estão na rodovia, 25% na ferrovia e 5% na hidrovia e cabotagem. Um sistema caro que precisa ser mudado. O sistema baseado na rodovia foi implantado numa época que era mais econômico e mais fácil, mas hoje as ferrovias e hidrovia são as alternativas a serem construídas. Os EUA são do tamanho do Brasil e têm 200 mil quilômetros de ferrovia, enquanto aqui temos 15 mil quilômetros. Para as hidrovias, temos muito potencial, mas nem todos os rios são navegáveis. Alguns são excelentes para a produção de energia elétrica e necessitam de eclusas junto com as hidrelétricas. São Paulo e Rio Grande do Sul saíram na frente, fazendo obras para conciliar energia e navegação. O caso da região do Amazonas é especial onde a navegação é a alternativa principal.
PortoGente – É unânime a opinião sobre a necessidade de mudar a matriz de transporte do País, mas por que até agora isso não aconteceu?
Sílvio dos Santos – Porque precisa de recursos. Uma ferrovia dura de 50 a 100 anos e custa cinco vezes mais que uma rodovia, que dura de 5 a 10 anos, além de diminuir o custo de transporte pela metade. Seu alto custo é uma função de governo. A privatização das ferrovias melhorou o transporte, mas só usam os eixos bons porque os trechos antigos com mais de 100 anos não são econômicos. O contrato prevê somente operação, e não investimento em infraestrutura. Depois de 30 anos sem nenhum investimento em ferrovia, o governo Lula iniciou a construção da Norte-Sul, a continuação da Ferronorte e também no Paraná. Imagino que tenhamos que chegar em 50 mil quilômetros de malha ferroviária para alavancar a nova matriz e dar uma viabilidade ao setor para que ligue as áreas de produção aos portos.
PortoGente – Na sua opinião o transporte rodoviário atravanca o desenvolvimento do Brasil?
Sílvio dos Santos – A construção de rodovias foi uma oportunidade de ocupação de mercado. Na década de 1950, o episódio histórico de pós-guerra desenvolveu a siderurgia e a refinaria para atender a demanda interna. O Brasil tinha 200 quilômetros de ocupação ao longo da Costa e com a construção de Brasília foi desenvolvido o interior. A opção militar de ocupar o território rapidamente levou à escolha da matriz rodoviária. Depois disso teria que ter desenvolvido a ferrovia, mas como era um investimento caro e as rodovias estavam consolidadas no transporte de carga no País, houve uma acomodação e hoje está distorcido.
