Para viver em paz com a natureza

GAZ - 06 de fevereiro de 2011 | 15h19

As edificações são responsáveis por mais de 50% do gasto energético das cidades, considerando tanto a demanda dos usuários quanto a energia embutida dos materiais. Além disso, pelo menos 60% dos resíduos urbanos provêm da construção civil. O desenvolvimento sustentável, ou seja, com o menor impacto ambiental, social ou econômico possível, foi uma das principais preocupações da última década, e estimulou a criação de alternativas ao consumo desenfreado. Entre essas, estão as chamadas construções ecologicamente corretas.

Apesar de muitas empresas estarem engajadas em projetos de retenção de gastos e preservação do meio ambiente, sabe-se que parcela significativa do problema é de responsabilidade do cidadão comum em suas atividades cotidianas. Essas construções, que muitas vezes se tratam de residências familiares, são erguidas com base em técnicas especiais e dispõem de recursos que visam a minimizar a interferência nos meios onde estão inseridas. Ao contrário do que se pensa, são adaptáveis para qualquer lugar e não têm restrições de aparência ou tecnologia. “O caminho para a sustentabilidade não é único e nem possui receitas, ele é o que o local pode oferecer”, explica a arquiteta especialista Cíntia Gusson Etges. “As soluções vêm da criatividade, do conhecimento e do olhar para o local”, acrescenta, ressaltando que o perfil da edificação sempre depende do clima e condições locais.

Na região, há pelo menos duas construções já levantadas neste padrão, ambas projetadas por Cíntia. Uma delas fica no bairro Santo Inácio, região central de Santa Cruz. O que motivou os proprietários, o dentista Danilo Gusson e a esposa Daniela Danieli, foi aliar economia ao respeito à natureza. “Este tipo de construção deveria ser estimulado. Assim talvez não houvesse necessidade de tantas hidrelétricas e barragens, e as catástrofes provocadas pelo excesso de chuvas seriam amenizadas”, acredita Danilo. Na casa, construída há dois anos, a família – além do casal, dois filhos – atinge uma economia significativa nos gastos com luz e água graças aos diversos recursos.

Uma vez que o ideário das casas ecológicas prevê a utilização de materiais do próprio local, parte da residência foi erguida com pedras – o que era um sonho antigo do casal. As paredes grossas protegem os ambientes internos de variações bruscas de temperatura, conservando-os geralmente aquecidos no inverno e frescos no verão. As cores claras escolhidas para a pintura também impedem que o ambiente absorva calor em excesso. Já as janelas grandes permitem o aproveitamento tanto da luz do sol quanto da ventilação natural. “Durante o dia, dificilmente precisamos acender a luz elétrica, porque é tudo muito bem iluminado”, conta Daniela. No teto da sala e de um dos banheiros, foram instalados vãos  envidraçados horizontais, chamados zenitais, que oferecem iluminação especial e ajudam a esquentar. “São quase como lâmpadas de tanto que iluminam”.

Outro recurso de que a construção dispõe é o sistema de energia solar para aquecimento da água, que funciona como uma espécie de usina caseira e representa uma economia de energia estimada em cerca de 30%. Os painéis solares são instalados no telhado e ligados a um reservatório térmico.

Para evitar o desperdício de água, a casa possui uma cisterna instalada na parte externa. O sistema capta a água da chuva nas calhas e transfere para o reservatório com capacidade para armazenar 25 mil litros. Ligada a um filtro, semelhante ao utilizado em piscinas, a água é levada para os banheiros e para as torneiras da parte de fora da casa. Assim, a família consegue aproveitá-la tanto para consumo, quanto para faxina e preservação da grama. “Até hoje nunca secou, mesmo com aqueles longos períodos secos do ano passado”, conta Daniela. “O bom é que dá pra deixar a torneira ligada na mangueira pra regar a grama sem preocupação”. Segundo ela, as despesas com consumo de água da rede hidráulica são quase zeradas.

Investimento

O custo da construção de uma residência ecológica costuma ser bem superior ao de uma casa regular. Os materiais especiais podem custar até duas vezes mais que os comuns, e os recursos geralmente também demandam investimento significativo. Um sistema de captação de água da chuva, por exemplo, custa em torno de 2.500 reais para uma casa de 100 metros quadrados. Já os tetos solares exigem aproximadamente 5.000 reais, mas como vêm se tornando cada vez mais populares, a tendência é que se tornem também mais baratos. Os especialistas garantem, no entanto, que a economia gerada acaba por compensar o custo inicial. “O investimento se paga após alguns anos de uso”, explica Cíntia Etges.

Reaproveitar materiais é alternativa

Quando a psiquiatra Maria Helena Kohlrausch preparava-se para iniciar o projeto de uma propriedade para lazer e descanso nos finais de semana, há cerca de quatro anos, a filha Ana Carolina descobriu as possibilidades de fazer com que aquela casa respeitasse ao máximo o meio ambiente. Em uma área localizada no interior de Vera Cruz, a cinco quilômetros do Centro, a edificação de 120 metros quadrados foi erguida somente com tijolos de demolição, de antigas construções da região. “Também aproveitamos portas e madeiras”, conta Maria Helena.

Outra particularidade da casa, além das placas solares, é o chamado ecotelhado ou telhado verde. Trata-se de uma vegetação colocada por cima de todo o telhado, que praticamente dispensa manutenção e em certas épocas do ano confere um visual deslumbrante. Funciona como um isolante térmico, mantendo a temperatura interna na parte da noite e evitando um aquecimento exagerado durante o dia. Além disso, como minimiza a incidência de raios solares sobre as telhas, reduz a emissão de gás carbônico na atmosfera. Se fossem mais comuns, os ecotelhados também reduziriam o risco de enchentes, já que absorvem boa parte da água da chuva.

Outros recursos

- Estação doméstica de tratamento de esgoto: permite reaproveitar a água para tarefas do dia-a-dia;

- Lâmpadas fluorescentes: consomem 80% menos energia do que lâmpadas incandescentes e duram dez vezes mais;

- Tijolo de solo-cimento: seca ao sol, sem precisar ir ao forno, poupando a queima de árvores;

- Madeira com certificação de origem: vêm com um selo que atesta que a madeira foi extraída sem degradar o solo nem o ambiente de onde foi retirada;

- Pátios internos: para ventilar os ambientes.

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