A necessidade de rever a educação superior tecnológica

Brasília, 22 de fevereiro de 2011.

O diretor de regulação e supervisão da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (Sesu/MEC), Paulo Roberto Wollinger, fez uma abordagem sobre o ensino superior no Brasil durante o 6º Encontro de Lideranças que está acontecendo em Brasília-DF, de 21 a 25 de fevereiro. De acordo com ele, durante muitas décadas, o Brasil tinha uma demanda reprimida e uma oferta muito grande de cursos de nível superior. Nos últimos anos, entretanto, a procura pelos cursos triplicou, passando de 90 mil para cerca de 270 mil ingressos nas universidades.

Nesse contexto, hoje, a educação superior no país precisa de um replanejamento em diversas áreas. São cerca de 28 mil cursos de graduação para seis milhões de alunos, segundo Wollinger. “E esses números devem dobrar até 2020”, afirmou. Uma meta razoável, de acordo com ele, seria a de 30% dos jovens com ensino superior até aquele ano. “Só que a realidade pode ser adversa e por isso é preciso planejar quais níveis superiores queremos para o Brasil”.

Em sua opinião, não se pode manter no país a mesma distribuição que se observa há alguns anos, com cerca de 50% dos alunos cursando graduações de Direito ou Pedagogia, por exemplo. “Isso não pode permanecer, pois pode levar à carência em algumas áreas e à saturação em outras”, ressalta. “Se compararmos com a Alemanha, a nossa matriz deve mudar radicalmente”, disse. Ele comenta que naquele país metade dos alunos cursa graduações da área tecnológica, enquanto no Brasil esse número não chega a 20%.

Para melhorar esse quadro, ele explica que são necessárias políticas de indução para algumas áreas, o que no caso brasileiro é possível, pois, ainda hoje no país, cerca de 75% dos ingressos nas universidades são filhos e filhas de pais que não cursaram o ensino superior. “Na Engenharia, particularmente, não se pode dizer que faltam engenheiros no Brasil”, declara. De acordo com os dados apresentados, existe hoje pouco mais de 1.200 cursos de Engenharia no país, além das várias solicitações de autorização para abertura de cursos no MEC. “Isso nos preocupa. O que falta não são cursos ou vagas. É a falta de ingressos nesses cursos”.

Na Medicina, por exemplo, Wollinger comenta que 96% dos alunos que ingressam conseguem se formar no tempo previsto. Ao contrário, na Engenharia, esse número não passa de 40%. “Precisamos repensar os critérios de formação e projetos pedagógicos dos cursos de Engenharia no Brasil. Talvez precisemos olhar para o que o mundo vem fazendo e nos sintonizar um pouco mais, rever as áreas de Engenharia que são mais estratégicas para o país. E quando se fala em profissões tecnológicas, não se pode falar apenas em Engenharia, mas também em técnicos e tecnólogos”.

Assim, Wollinger conclui dizendo: “deve haver uma revisão do processo formativo para que tenhamos engenheiros mais sintonizados, não apenas sob o ponto de vista das demandas de mercado, mas também do desenvolvimento científico e tecnológico”.

Complementando a palestra de Wollinger, a apresentação do diretor da Associação Sul-Americana de Automação (ISA) Carlos Liboni também apresentou dados do mercado brasileiro da Engenharia. "Nosso índice de população economicamente ativa (PEA) é grande, mas apenas 12,4% desse número está matriculado em instituições de nível superior", alertou, e ainda complementou: "desses formandos, no Brasil, apenas 5% são das áreas de Engenharia. Na China, esse percentual é de 35%. Esse número de formandos em Engenharia é suficiente se o Brasil crescer apenas 3%".

Além disso, dados do diretor da ISA demonstram que 2 de cada 7 engenheiros atuam na área. Para ele, no entanto, a carência de profissionais qualificados se dá por causa da evasão de cérebros. "Nós investimos em estudantes e universidades da área tecnológica para nos retornarem em infraestrutura. Mas quem pode vai trabalhar em outros países".

A experiência portuguesa
Ainda no painel "Mercado na Engenharia e Formação Profissional", o bastonário da Ordem dos Engenheiros de Portugal, Carlos Matias Ramos, iniciou sua palestra afirmando que "qualificação é a base do empreendedorismo". Matias Ramos abordou a Engenharia sob o ponto de vista da sociedade. "A Engenharia é como a saúde. Só lhe damos valor quando a perdemos", disse. "Enquanto as necessidades básicas estiverem satisfeitas, a sociedade desconsidera a Engenharia", desabafou. "Se a sociedade nos vê assim, a mídia também vê. Fala-se muito do arquiteto, do projeto arquitetônico, mas raramente se fala do engenheiro que colocou aquilo em prática".

O professor de Pontes e Estruturas Especiais da Universidade do Porto (também em Portugal), Adão da Fonseca, fez, em sua apresentação, uma reflexão sobre a importância da ética profissional. Segundo ele, a Engenharia é uma profissão de interesse público - só será efetiva se tiver reconhecimento. "A sustentabilidade da nossa profissão se fundamenta na ética profissional", disse. "O ato de inteligência está em perceber que sem ética, nossa profissão não é mesmo sustentável, pois trata-se de uma profissão de interesse público", defendeu. Para ele, a profissão do engenheiro só tem sustentabilidade quando tem confiança pública.

Tânia Carolina Machado e Beatriz Leal
Assessoria de Comunicação do Confea