Com demora de 24 horas, ministro do Esporte rebate críticas da Fifa

Ananda Rope, do Correio Braziliense – SuperEsportes, 30 de março de 2011 | 08h38

Demorou 24 horas, mas o ministro do Esporte, Orlando Silva, se posicionou com firmeza sobre a afirmação do presidente da Fifa, Joseph Blatter, feita na segunda-feira, de que “a Copa do Mundo é amanhã, mas os brasileiros pensam que é depois de amanhã”.

Orlando Silva defendeu o país durante a primeira audiência pública sobre a Copa de 2014, no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Distrito Federal (Crea-DF).

“Para o Brasil, a Copa do Mundo é hoje. Temos urgência. Ninguém está mais preocupado com a realização do Mundial da Fifa do que o Brasil. Creio que o que nós temos que fazer é não polemizar em torno de opiniões que um dirigente ou outro da Fifa expresse e sim trabalhar”, rebateu o ministro. Entretanto, ele admitiu que é preciso mais empenho no país: “Os governos têm que se empenhar mais para que possamos alcançar nosso objetivo”, continuou.

Joseph Blatter, em suas críticas, comparou a preparação da África do Sul para a Copa do Mundo de 2010 com a do Brasil e afirmou que os sul-africanos, a três anos do Mundial da África, tinham feito um trabalho melhor do que os brasileiros. “Em 2007, eles estavam mais avançados do que os brasileiros. O que (os brasileiros) precisam fazer é ter pressa e acelerar os preparativos”, cobrou o presidente da Fifa.

Para Orlando Silva, a comparação foi inadequada. “Não acho muito adequado comparar o Brasil com a África do Sul, como não seria adequado comparar o Brasil com a Alemanha, porque a infraestrutura que a África do Sul possuía quando da preparação do Mundial da Fifa, assim como a da Alemanha, eram situações completamente diferentes da brasileira. E comparar banana com laranja pode conduzir a análises equivocadas.”

Apesar de defender o país, Orlando Silva reconheceu o atraso das obras em São Paulo e Natal. As duas cidades nem sequer iniciaram os trabalhos de construção de seus estádios e correm o risco de ficarem de fora da Copa das Confederações, em julho de 2013, uma vez que, para receber jogos do evento-teste da Fifa para a Copa de 2014, tudo deve estar pronto até dezembro de 2012.

Dilma puxará orelhas

Para reforçar a pressão sobre os estados e forçar o cumprimento do cronograma de obras, a presidente Dilma Rousseff deve reunir governadores e prefeitos das 12 sedes — Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Recife, e as atrasadas São Paulo e Natal — para cobrar eficiência e agilidade nos assuntos referentes à Copa de 2014. O encontro não tem data marcada, mas, segundo o ministro Orlando Silva, será em breve. “Dezembro de 2012 é o pleito que a Fifa apresentou para (que os) estádios (estejam prontos)”, destacou Orlando.

Briga igual pela abertura

Na mídia nacional, uma das grandes discussões do momento envolvendo a Copa de 2014 gira em torno de qual cidade receberá a abertura do Mundial, já que existe um consenso de que a final deve ser disputada no Maracanã. Sobre isso, Orlando Silva, que já defendeu publicamente que a primeira partida deve ser jogada em São Paulo, preferiu adotar um tom mais ameno. Ele evitou dar qualquer dica sobre a cidade com maior chance de sediar a cerimônia de abertura.

“Brasília, Belo Horizonte, Salvador e São Paulo são quatro cidades que se colocaram para receber a abertura da Copa do Mundo. Em momento adequado, a Fifa deverá apresentar um protocolo com requisitos para avaliar cada uma das cidades. A decisão da cidade que fará a abertura é da Fifa, levando em conta temas sensíveis como área de hospedagem, porque são dezenas de chefes de estado, suporte de aeroporto. Ela saberá a hora adequada de fazer essa escolha. Mas Brasília, assim como Salvador, Belo Horizonte e São Paulo, as quatro estão no páreo”, reforçou o ministro. A Fifa tem prazo de até dois anos antes da Copa (ou seja, em julho de 2012) para anunciar a cidade que abrigará a abertura do Mundial.

Brasília ganha apoio do Rio

Com o atraso das obras em São Paulo, o vice-governador do DF, Tadeu Filippelli, defendeu prontamente a escolha de Brasília para a abertura da Copa durante a audiência pública no Crea. Mais do que isso, ele encostou o ministro do Esporte contra a parede. “O ministro não pode negar. As embaixadas de todos os países estão aqui, temos plena sintonia com o governo federal. A abertura sendo aqui ou no Rio de Janeiro ou em São Paulo não fará diferença nenhuma para os patrocinadores, mas fará para a cidade. Temos um elenco de fatores que nos permitem o entusiasmo. A única Copa que não teve a abertura feita na capital do país sede foi a dos Estados Unidos (1994), porque Washington não tinha realmente estrutura. Mas nós temos. Nosso pedido é legítimo”, defendeu Filippelli.

O senador carioca Marcelo Crivella (PRB-RJ), que compôs a mesa principal, apoiou a escolha de Brasília como sede da abertura. “Um mês de atraso no cronograma das obras significa milhões de reais perdidos. Brasília é o maior monumento da inteligência e criatividade da raça brasileira. Tenho certeza que a abertura em Brasília será extraordinária desde que você (Filippelli) apoie o Rio para a final. Porque Brasília é obra do povo e o Rio é obra do maior arquiteto (Deus)”, declarou provocando risos no auditório.

CBF se pronuncia

As críticas de Joseph Blatter incomodaram o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, que também preside o Comitê Organizador Local para a Copa de 2014. Atrasado, como aconteceu com Orlando Silva, Teixeira publicou, na tarde de ontem, um comunicado oficial rebatendo as declarações do dirigente da Fifa, ponto a ponto. Confira na íntegra:

1) Desconheço que haja qualquer confronto entre prefeitos e governadores em qualquer uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014. Ao contrário, a Fifa testemunha há anos um trabalho integrado do poder público com o Comitê Organizador Local (COL) e a própria Fifa. O apoio integral e dedicação pessoal da presidenta Dilma Rousseff foram amplamente noticiados pela imprensa neste mês de março, principalmente no que diz respeito às principais atribuições do governo federal na preparação para a Copa do Mundo (aeroportos e mobilidade urbana nas 12 cidades). Gostaria ainda de mencionar a integração do trabalho dos ministros na figura atuante e presente do ministro do Esporte, Orlando Silva;

2) Ratifico também que, em nenhum momento foi anunciado que o Maracanã não seria entregue dentro do prazo. Numa recente reunião com o vice-governador do estado do Rio de Janeiro, tivemos a garantia de que as obras, que nunca foram interrompidas, seguirão no prazo;

3) Com relação ao estádio de São Paulo para a Copa do Mundo, apesar de a obra ainda não ter sido iniciada, temos trabalhado de forma intensa e integrada com o Comitê Paulista e todos os segmentos envolvidos no projeto do estádio para equacionar as últimas questões técnicas. Temos a garantia por parte dos envolvidos de que o estádio também será entregue no prazo previsto;

4) Não é papel da CBF pressionar governantes, ainda mais quando não há nenhum motivo para tal. Temos contado com a participação, colaboração e interesse total dos nossos parceiros no governo e trabalhamos de forma colaborativa e integrada com todas as esferas de governo, tendo à frente a presidenta Dilma Rousseff;

5) Por fim, aproveito ainda para, mais uma vez, convidar o presidente da Fifa para vir ao Brasil e ver de perto o progresso que ele mesmo elogiou após uma reunião do conselho Fifa/COL, realizada no início deste mês, em Zurique.

Ricardo Terra Teixeira, Presidente da Confederação Brasileira de Futebol

Em São Paulo, obras devem começar em abril

As obras do estádio de São Paulo, previstas inicialmente para maio, devem começar já em abril . Em meio à pressão vinda de todos os lados (Ministério do Esporte, Fifa e CBF), o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, afirmou que a preocupação com a captação de recursos financeiros — o projeto ia custar R$ 600 milhões, mas a previsão já subiu para R$ 700 milhões — já foi resolvida. “Não vai ter dinheiro público. Temos R$ 400 milhões acertados com a Odebrecht. O restante virá de incentivos fiscais para novos empreendimentos na Zona Leste”, explicou Sanchez, na segunda-feira, durante a gravação do programa Roda Viva, da TV Cultura.

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