Carne cultivada tem mais aceitação no Brasil do que nos Estados Unidos

Brasília, 15 de setembro de 2026

Nos Estados Unidos, o entusiasmo em torno da carne cultivada esfriou. Uma pesquisa do Good Food Institute mostra que apenas 18% dos americanos consideram o produto atraente, e quase 60% dizem que não comprariam. O símbolo mais recente desse recuo é a falência da Believer Meats, que chegou a erguer a maior fábrica de carne cultivada do mundo, na Carolina do Norte, e fechou as portas antes de produzir uma única unidade.

No Brasil, o cenário é bem diferente. Segundo a engenheira de alimentos Vivian Feddern, pesquisadora da Embrapa que atuou por 13 anos na Embrapa Suínos e Aves, em Concórdia (SC), e hoje trabalha na Embrapa Clima Temperado, estudos nacionais mostram justamente o oposto do retrato americano: um potencial de aceitação que ultrapassa os 60%.

Vivian Feddern
Engenheira de alimentos Vivian Feddern, pesquisadora da Embrapa

As pesquisas nacionais indicam índices de aceitação mais altos do que os registrados nos Estados Unidos. Um estudo conduzido em 2019 por Júlia de Paula Soares Valente, do Laboratório de Bem-Estar Animal da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob coordenação da professora Carla Forte Maiolino Molento, em grandes centros urbanos com mais de 500 mil habitantes, registrou 63,6% de posicionamento positivo dos entrevistados quanto ao consumo do produto. Outro levantamento, de Alice Munz Fernandes, doutora em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), de 2021, no Rio Grande do Sul, apontou intenção de consumo positiva de 59,3%, com 40,0% dos respondentes dispostos a substituir a carne convencional pela cultivada na dieta diária.

Um estudo da Embrapa na região Sul, com moradores de cidades menores, com menos de 150 mil habitantes, mostrou o peso da informação nesse processo. Antes de qualquer esclarecimento, 45,3% dos entrevistados declaravam intenção positiva de consumo, e 42,7% estavam indecisos. Depois de assistirem a um vídeo explicativo de oito minutos sobre a tecnologia, a intenção de consumo subiu para 60,7%, e 72,4% do grupo que estava indeciso passou a afirmar que consumiria o produto.

"São pesquisas que não envolvem a degustação do produto, mas sim a intenção do consumidor frente a um novo produto baseado no conhecimento que se tem hoje", explica Feddern.

A rejeição no Brasil

O preço aparece como o principal fator de rejeição, segundo a pesquisadora. "Enquanto o produto for visto como algo caro ou inacessível, o mercado de massa tenderá a rejeitá-lo", diz Feddern.

Depois vêm as barreiras culturais, sobretudo em regiões de forte tradição de churrasco, como o Sul do país, onde há ceticismo de que um produto cultivado em laboratório possa igualar a experiência de uma picanha tradicional. Some-se a isso a neofobia alimentar, a rejeição natural a alimentos novos, e a desconfiança em torno do processo de produção, muitas vezes associado a rótulos como "sintético", "fake" ou "Frankenstein". Por fim, restam dúvidas sobre segurança alimentar, valor nutricional e características sensoriais como sabor e textura.

Como “engenheirar” a percepção do consumidor

"A aceitação pública não depende apenas das qualidades físico-químicas do alimento, mas da forma como a tecnologia é apresentada, nomeada e comunicada à sociedade", afirma a pesquisadora. Termos como "carne de laboratório", "carne in vitro" ou "carne sintética" geram associações negativas e reforçam a rejeição. O Good Food Institute e órgãos reguladores consolidaram o termo "carne cultivada" como o mais neutro e preciso para descrever o processo.

Outras estratégias citadas pela pesquisadora incluem a comunicação educativa, em vez de ativista, o respaldo regulatório (no Brasil, a RDC nº 839/2023, da Anvisa, que trata de novos alimentos) e a aproximação por meio da gastronomia com protótipos em pratos familiares, como bolinhos de peixe e linguiças híbridas desenvolvidas pela própria Embrapa.

O trabalho do engenheiro de alimentos

A formação tradicional em Engenharia de Alimentos, voltada a processos como fermentação de iogurtes e cervejas, não prepara o profissional para o cultivo celular, que exige conhecimentos de biologia e engenharia de tecidos historicamente restritos à área médica. Feddern descreve uma mudança de escala em pelo menos cinco frentes: a migração da formulação tradicional para a engenharia de bioprocessos, com controle de biorreatores de alta precisão; a adoção de padrões de assepsia próximos aos da indústria farmacêutica, em que uma única contaminação pode descartar semanas de trabalho; a substituição de reagentes de grau farmacêutico por meios de cultivo livres de insumos animais e de baixo custo; o uso de biomateriais comestíveis e bioimpressão em três dimensões para estruturar cortes inteiros; e a adaptação de planos de controle de qualidade e de normas regulatórias, como a própria RDC nº 839/2023. "O engenheiro de alimentos deixa de trabalhar isoladamente na fábrica e passa a atuar no centro de uma equipe que reúne biólogos moleculares, biotecnologistas, médicos veterinários, zootecnistas e bioinformáticos, entre outros", resume Feddern.

frango cultivado
Frango cultivado

Não se cultiva um bife inteiro

Há dois tipos de limite, técnico e econômico, que hoje restringem a carne cultivada a hambúrgueres, almôndegas e preparos semelhantes. Do lado técnico, recriar a arquitetura de um corte espesso exige biossuportes porosos que sirvam de molde para as células se organizarem, além de canais microvasculares que levem oxigênio e nutrientes ao centro do tecido, sem os quais as células internas morrem. "Alinhar simultaneamente fibras musculares, adipócitos e tecido conjuntivo via bioimpressão 3D exige extrema precisão biotecnológica e pode levar de dezenas de minutos a horas para produzir uma única peça, inviabilizando a escala massiva", descreve Feddern.

Do lado econômico, o meio de cultivo celular responde por algo entre 55% e 95% do custo total de produção, e um biorreator de bancada de dois litros pode custar mais de R$ 220 mil. Por isso, a indústria e instituições de pesquisa, entre elas a Embrapa, têm apostado em produtos híbridos, que combinam uma fração menor de células ou gordura cultivada com uma matriz vegetal, reduzindo custos e viabilizando produtos como linguiças e kaftas.

O fim da Believer Meats traz ensinamentos ao Brasil

Para Feddern, o episódio americano mostra o risco de acelerar o escalonamento industrial, com megafábricas de alto investimento, antes de resolver gargalos tecnológicos e econômicos fundamentais. O Brasil, avalia a engenheira, seguiu um caminho diferente: o setor está em fase de pesquisa aplicada e validação de protótipos, sem pressa para erguer grandes instalações fabris.

Instituições como o JBS Biotech Center, a Embrapa e algumas universidades têm concentrado esforços na produção de ingredientes, como células musculares e de gordura, e em microcarreadores, sem visar ainda a comercialização em escala. Outra frente é a nacionalização de insumos: pesquisas brasileiras têm buscado substitutos locais para biomateriais importados, como a fécula de mandioca e o amido, no lugar de suportes celulares caros. A RDC nº 839/2023 oferece um caminho regulatório claro, e a Embrapa está construindo um biobanco de linhagens celulares que deve reduzir as barreiras de entrada para novas startups e pesquisadores.

"O caso norte-americano serve como uma importante lição de que o caminho mais sustentável para a agricultura celular não é o entusiasmo acelerado por escala, mas sim a construção progressiva de conhecimento", resume a pesquisadora.

projeto na embrapa
Equipe da Embrapa pavimenta o conhecimento para construir o futuro

Outra lição que o Brasil pode aprender, segundo Feddern, é que o setor errou ao comunicar o produto pelo que ele não é, sem abate, sem exploração animal, em vez de explicar o que ele é e quais benefícios entrega. Também pesou um tom mais ativista do que educacional, que afastou o consumidor onívoro, e o uso inicial de termos como "carne de laboratório" ou "carne sintética", que reforçaram a ideia de artificialidade. Por fim, promessas de escala e de preços baixos em prazos curtos, que não se confirmaram, geraram frustração e ceticismo, o mesmo tipo de expectativa que, nos Estados Unidos, ajudou a inflar e depois a derrubar o entusiasmo em torno da tecnologia.

O futuro

Não há ainda uma graduação dedicada ao tema, mas algumas iniciativas isoladas começam a preencher essa lacuna. Na Universidade Federal do Paraná, a professora Carla Forte Maiolino Molento, a mesma que coordenou o estudo de aceitação conduzido por Valente, desenvolveu uma disciplina voltada à zootecnia celular. Na Unicamp, a Faculdade de Engenharia de Alimentos oferece, na pós-graduação, a disciplina "Proteínas Alternativas: Feito de Plantas, Fermentação e Carne Cultivada". Na Universidade Federal de Santa Catarina, a professora Silvani Verruck implementou disciplinas sobre o tema na pós-graduação, e, na Universidade Federal do Rio Grande, a professora Anelise Christ-Ribeiro ministra a disciplina de proteínas alternativas. É a construção progressiva do conhecimento que Feddern menciona, em curso nas universidades brasileiras.


Beatriz Leal
Equipe de Comunicação do Confea
Fotos: acervo equipe Embrapa