O Brasil precisa criar uma nova lógica de desenvolvimento sem desmatamento

Manaus, 4 de dezembro de 2009.

"José A. Marengo"
Os debates da 66ª Semana Oficial da Engenharia, da Arquitetura e da Agronomia de hoje (4) foram iniciados com as discussões sobre as mudanças climáticas. Com a participação do físico e meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), José A. Marengo; do senador  Jefferson Praia (PDT/AM); e do diretor-geral da Fundação Amazônia Sustentável, Virgílio Viana, foram abordados desde os aspectos técnicos até as políticas públicas que devem orientar o governo nesta área.

Inicialmente, José Marengo ressaltou que a mudança climática é um processo natural, tendo ocorrido há 100, 200, 1000 anos, sem a presença humana. “As atividades humanas não são a única causa. O homem não cria o processo, ele o acelera. O que acontecia em 100 anos, agora acontece em 10”, afirmou.

Nesse processo,  destacou o papel fundamental da Amazônia, inclusive, em relação às outras regiões. Segundo ele, estudos mostram que se um colapso ocorresse na região e a floresta desaparecesse, o impacto poderia ser um extremo de clima na região sul. “O clima pode ajuda a gerar um extremo, mas a gravidade do extremo não é gerada pelo clima”, disse. A probabilidade mostra que com a ação do homem, um fenômeno que acontece de 50 anos passaria a acontece a cada três anos.

Outro ponto destacado por ele é que os extremos não estão relacionados ao desenvolvimento da região. “Santa Catarina, por exemplo, tem um dos maiores índices de desenvolvimento humano (IDH) do país, mas sofreu com os efeitos da chuva de 2009. Nos Estados Unidos, uma das maiores potências econômicas do mundo, houve o furacão Katrina. A vulnerabilidade não é exclusiva de regiões pobres, afeta todo mundo”, lembrou. 

Como opções para o desenvolvimento sustentável da região amazônica, Marengo sugeriu o ecoturismo como forma de permitir o consumo mais adequado de recursos naturais. Mas, além disso, afirmou: “Para reduzir a vulnerabilidade são necessárias políticas ambientais. Um cientista não faz políticas, o governo faz. No entanto, é dever do governo escutar os profissionais que estudam as questões ambientais”, ressaltou.

“Temos de ‘amazonizar’ o Brasil”

"Jefferson Praia"
O senador Jefferson Praia, que é também engenheiro agrônomo, afirmou que o clima daqui para frente faz parte da agenda política do país como um dos pontos principais. “Não vejo como algo passageiro. O planeta começa a mostrar sinais de doença e temos de verificar ações para que essa doença não avance. Assim estaremos aplicando bem os recursos públicos”, disse.

Segundo o senador, 75% das emissões de gás carbônico do Brasil são oriundas do desmatamento e que, na Amazônia, essa é uma prática que ocorre todos os dias. “Na Amazônia, temos problemas sérios com a poluição de rios e igarapés”, lembrou. Entretanto, segundo ele, o estado do Amazonas caminha num sentido diferente, em que 98% de sua área é preservada. “Talvez estejamos no estado mais verde do planeta”, disse.

A preocupação agora, de acordo com o senador, é manter esses 98% intactos. Para isso, ele afirmou que são necessárias políticas públicas de curto, médio e longo prazo, que incluem investimentos em centros de pesquisas aplicadas, intensificação de forças armadas nas fronteiras, maior aplicação de recursos na região, entre outros. “Temos de ‘amazonizar’ o Brasil e ‘amazonizar’ os amazônidas”, concluiu.

Uma nova lógica de desenvolvimento sem desmatamento

"Virgilio Viana"
Virgílio Viana falou sobre a relação entre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável. Ele apresentou dados obtidos pela CEPAL (Comisión Económica para América Latina y El Caribe), empresa de auditoria independente do Chile, capazes de assegurar que é possível alcançar o desenvolvimento sem desmatamento. Segundo ele, de 2003 a 2008 houve, no estado do Amazonas, uma queda constante do desmatamento, passando de 1.558 km² para 406 km². Por outro lado, o Produto Interno Bruto (PIB) do estado cresceu de 25,0 para 45,6 milhões/ano nesse mesmo período.

Viana afirmou que algumas pessoas hoje costumam pensar que os países europeus desmataram e se desenvolveram e agora não querem que os outros façam o mesmo. “Esse é um paradigma equivocado”, afirmou. “Desenvolver o país requer manter a floresta em pé”, disse.

Lembrando que o estado do Amazonas tem 1,5 milhão de km², sendo 1/3 da Amazônia brasileira; 4 milhões de habitantes; e 16% de água doce do planeta, possui 98% da floresta protegida (dados do Inpe). Entretanto, ele lembrou, também, que a frequência de eventos extremos vem aumentando. “Uma seca aqui coloca as pessoas em situação de vulnerabilidade extrema e o custo de atendimento é muito alto”, disse.

Segundo Viana, o Brasil usa uma lógica econômica para desmatar. No entanto, o país tem de criar estratégias para que uma nova lógica que vise à preservação seja criada. “Só vamos manter a floresta em pé se for um bom negócio. Precisamos, e é possível, desenvolver uma lógica ambiental inteligente”, afirmou. Ele citou o Programa Bolsa Floresta, além de algumas outras medidas que, segundo ele, devem ser tomadas para ajudar na preservação do meio ambiente. Entre elas, incentivos fiscais, turismo ecológico e valorização dos recursos naturais, o que costuma ser chamado de “Zona Franca Verde”, numa alusão ao emprego e à renda a partir dos recursos da floresta em pé.

Tânia Carolina Machado
Assessoria de Comunicação do Confea