Brasília, 11 de setembro de 2026
Uma empresa americana chamada Rainmaker afirma ter gerado 19 milhões de galões de água em três horas de operação no Alasca. Foi a primeira vez que uma empresa privada conseguiu comprovar esse tipo de resultado usando drones autônomos, segundo a companhia, que agora planeja levar a tecnologia para regiões de seca crônica nos Estados Unidos, como a bacia do Rio Colorado.

No Brasil, a técnica não é novidade. O país testa a semeadura de nuvens desde 1950, quando o Ceará, por meio da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), começou a usar aviões Bandeirante para tentar induzir chuva no semiárido nordestino. Décadas depois, empresas privadas como a paulista ModClima, seguem aplicando o método, sem os produtos químicos usados por boa parte da indústria internacional, para abastecimento urbano, agricultura familiar e grandes lavouras.
Como funciona a semeadura de nuvens
- A técnica não cria chuva do nada: ela depende da umidade já presente na atmosfera, em nuvens com potencial de precipitação.
- O método mais comum no exterior usa iodeto de prata ou outros sais para formar cristais de gelo dentro de nuvens frias.
- A ModClima trabalha de outra forma: pulveriza água potável dentro de nuvens cúmulos quentes, para induzir a colisão e a fusão de gotículas até que elas precipitem.
- O sucesso depende de encontrar a nuvem certa, no momento certo, em uma área que ainda tenha condições de sustentar a chuva.
O avião que caça nuvens
A ModClima nasceu da observação do engenheiro Takeshi Imai, que passou mais de dez anos monitorando o clima antes de desenvolver o método. Hoje a empresa é comandada pelo filho dele, Ricardo Imai, diretor de operações.

Segundo Ricardo, o processo é inteiramente físico. "Só utilizamos água potável e controlamos o tamanho das gotículas que vamos lançar dentro de uma nuvem", explicou. As gotículas são liberadas com o tamanho ideal para colidir e se fundir com outras dentro da nuvem, em um regime de turbulência ascendente, até ganharem peso suficiente para cair como chuva.
Para isso, o avião da empresa, um bimotor Seneca II adaptado, precisa atravessar o centro das nuvens visadas, o que gera turbulência considerável. A operação depende de um trabalho extenso de monitoramento: satélite, câmeras, temperatura, pressão, umidade e direção do vento ajudam a equipe a identificar uma nuvem com potencial antes que ela entre na área de interesse.
A empresa soma mais de 20 anos de atuação, boa parte deles a serviço da Sabesp nos sistemas Cantareira e Alto Tietê, que abastecem a Grande São Paulo. Foi ali, segundo Ricardo, que a ModClima também desenvolveu sua capacidade de medir resultados com radar meteorológico, acompanhando o deslocamento de uma célula de chuva desde o início da precipitação até quantificar, em metros cúbicos e hectares, a área efetivamente coberta.
Da cana ao cacau
Embora tenha começado no abastecimento urbano, a ModClima hoje atende principalmente o agronegócio, com destaque para a cana de açúcar. Segundo Ricardo, um cálculo desenvolvido pelo especialista em solo Hélio do Prado estima que dez milímetros de chuva por hectare geram cerca de uma tonelada adicional de cana. Em uma área de dez mil hectares, isso significaria dez mil toneladas a mais de produção.
A cultura é especialmente sensível à água porque fica exposta ao clima ao longo de todo o ciclo produtivo, ao contrário de culturas de ciclo curto como a soja. Segundo dados citados por Ricardo, os canaviais acumulam 80% de sua biomassa nos meses chuvosos, entre outubro e março, contra apenas 20% no período seco.

A empresa também já prestou serviço para produtores de abacaxi em Itaberaba, na Bahia, para uma cooperativa de cacau em Ilhéus e, no exterior, para uma plantação de palma no Gabão. Os projetos de agricultura familiar no Nordeste, segundo Ricardo, não têm relação com o histórico programa da Funceme, apesar da coincidência temática.
O padrão climático de cada ano também molda onde a empresa atua. Depois de cinco anos consecutivos de projetos no Paraná, a estação chuvosa chegou mais forte neste ano no Sul e no Sudeste, o que levou a ModClima a prospectar clientes mais ao norte, em Tocantins e no Piauí, regiões com previsão de anomalia negativa de chuva.
Efeitos colaterais
Para o professor José Francisco Gonçalves Júnior, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília e membro do Conselho de Recursos Hídricos do Distrito Federal, a semeadura de nuvens tem um limite conceitual importante. "Ela não produz chuva", afirmou. "Você tem que ter a umidade no lugar". Segundo ele, a técnica apenas acelera a precipitação de uma umidade que já estava na atmosfera, o que significa que a água usada em um lugar deixa de precipitar em outro.
Esse deslocamento, para o professor, é o principal risco ambiental da prática, mais relevante do que a eventual contaminação por metais como a prata, cujo impacto ecológico ele considera pouco provável em comparação com outras fontes já presentes no ambiente. "O risco ambiental, na minha opinião, é maior quando você altera o ciclo hidrológico natural", disse. Ele também apontou uma dimensão social: como a técnica depende de capital para ser aplicada, acaba beneficiando quem tem recursos para pagar por ela, em detrimento de quem não tem.

Sobre regulação, o professor defendeu um modelo que combine licenciamento federal com adaptações regionais, já que bacias hidrográficas e massas de ar atravessam fronteiras estaduais. Ele listou exigências que, na sua avaliação, deveriam constar de qualquer marco regulatório: estudo de impacto ambiental, transparência sobre substâncias e quantidades usadas, critérios claros para início e interrupção das operações, disponibilização pública dos dados e avaliação científica independente, vinculada aos comitês de bacia que hoje já regulam o uso de água superficial e subterrânea. Apesar de integrar o conselho de recursos hídricos do Distrito Federal, ele afirmou nunca ter visto o tema da semeadura de nuvens tratado formalmente pelo colegiado.
Para o professor, a técnica pode ser útil em situações emergenciais, mas não substitui políticas estruturais de gestão hídrica nem enfrenta a raiz da escassez de água, associada a secas prolongadas e ao desmatamento. "É um paliativo", resumiu. Ele deixou uma provocação como síntese do tema: talvez a pergunta certa não seja como fazer chover, mas como produzir segurança hídrica sem transferir riscos ecológicos e sociais para outras pessoas, lugares ou gerações.
Beatriz Craveiro
Equipe de Comunicação do Confea
Fotos: acervos pessoais
