Tornados em Santa Catarina alertam para segurança estrutural

Brasília, 06 de novembro de 2026.

 O terceiro tornado foi confirmado em Santa Catarina. O fenômeno foi registrado em Rio Negrinho, no Norte do estado, na quarta-feira (4). Nesse mesmo dia, também houve tornados em Guatambu, Chapecó e Xanxerê, no Oeste do estado.

O meteorologista Piter Scheuer, que mora em Guatambu, município localizado a cerca de 5 km de Chapecó (SC), tem acompanhado de perto os impactos do fenômeno e compartilhado relatos frequentes nas redes sociais sobre a situação da população atingida. Scheuer chama a atenção para a possibilidade de avanço das condições de tempo severo em direção ao Vale do Itajaí e ao sudoeste do Paraná, reforçando a importância primordial do acompanhamento dos alertas da Defesa Civil.

O especialista explica que a formação de tempestades severas resulta da combinação de calor, alta umidade, queda da pressão atmosférica e o transporte de ventos quentes e úmidos vindos da região Amazônica. A isso se somam a perturbação de ondas curtas nos níveis médios da atmosfera e o desenvolvimento de uma supercélula que, por meio de fortes cisalhamentos do vento, gera uma nuvem funil capaz de tocar o solo. Scheuer também detalha a ocorrência de microexplosões, que se formam quando uma tempestade gera uma queda intensa de ar frio, promovendo ventos violentos na superfície que podem superar 140 km/h a 150 km/h e afetar uma área de cerca de 5 quilômetros de transtornos. O especialista aponta ainda as macroexplosões, que apresentam características semelhantes às microexplosões, mas com uma área de abrangência ainda maior, além dos downbursts, que pertencem à mesma categoria de fortes correntes descendentes.
 

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Meteorologista Piter Scheuer


O meteorologista afirma que sempre houve tornados, mas que, com o avanço da tecnologia, a popularização dos smartphones e a evolução da meteorologia, os fenômenos passaram a ser documentados com muito mais frequência. Ele também acredita que o aquecimento global exerce alguma influência sobre esses eventos, embora a considere secundária.  Ele reforça a importância dos radares meteorológicos, destacando que, com o apoio dessas ferramentas, o profissional consegue prever onde o tornado vai tocar com 15 a 20 minutos de antecedência. No entanto, ele ressalta que as condições gerais propícias para a formação de tornados já podem ser identificadas com até 10 dias de antecedência.

Sobre a classificação dos tornados, ela é estimada a partir de levantamentos dos danos provocados e da velocidade dos ventos associada a esses estragos. Na escala Fujita, por exemplo, a classificação vai de F0 a F5. “É a partir dos danos provocados que conseguimos identificar a intensidade do fenômeno. Por exemplo, o evento que atingiu Chapecó foi classificado entre um F2 e um F3, o que demonstra que foi bastante forte”, explica Piter.

Segurança
Diante desse cenário, o meteorologista reforça a importância de que os sistemas de monitoramento e os avisos sejam levados a sério para reduzir riscos e salvar vidas. “Muitas pessoas não levaram a sério os avisos sobre esses tornados. Como o fenômeno é extremamente destrutivo, dependendo de onde a pessoa esteja — caso o tornado atinja uma residência, por exemplo —, é fundamental que ela se abrigue no cômodo mais seguro, como o banheiro, devido à menor extensão de laje”. 

A população deve adotar medidas preventivas imediatas ao receber um alerta: fechar portas e janelas para evitar correntes de vento internas, colocar no chão objetos de prateleiras que possam cair, e desligar aparelhos elétricos, além de fechar os registos de gás e água. Documentos e bens essenciais devem ser guardados em sacos plásticos herméticos e mantidos à mão para uma eventual evacuação.

Em caso de emergência, deve-se evitar totalmente a proximidade com árvores e estruturas metálicas. Se o temporal surpreender alguém na rua ou num local aberto, a recomendação de sobrevivência é procurar e deitar-se numa depressão do terreno, como uma vala, permanecendo abrigado até que o perigo passe por completo.

Infraestrutura
Em paralelo aos riscos humanos, o engenheiro civil Rogério Bonini Ruiz, especialista em estruturas e integrante do Comitê de Gestão de Crise do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Santa Catarina (Crea-SC), explica os danos que um tornado pode provocar nas edificações e na infraestrutura urbana. “Os edifícios sofrem diversos impactos severos durante a passagem de um tornado, iniciando pelos telhados, que podem apresentar destelhamento da cobertura e deformação ou queda da estrutura de sustentação, seja em madeiramento ou estrutura metálica. As paredes também são afetadas com trincas, rachaduras e queda parcial ou total da alvenaria, enquanto os pilares registram trincas, rachaduras e ruptura parcial ou total do concreto por esmagamento. Além disso, as lajes sofrem com trincas, rachaduras, desnivelamento e queda parcial ou total, e as fundações podem sofrer movimentação estrutural com recalques, deslocamentos horizontais, arrancamento da estrutura, além de queda parcial ou total da laje.”
 

Rogério Bonini (à dir.) e o coordenador do Comitê de Gestão de Crise do Crea-SC, Jackson Jarzynski, durante formação profissional voltada para prevenção e resposta a situações de emergência e desastres, uma das atividades do comitê


Bonini explica que pavilhões industriais e galpões metálicos possuem características estruturais e elementos de vedação que, em geral, apresentam pontos de fragilidade. “Quando ocorre um tornado ou vento extremo, a combinação de pressão externa, interna e impactos laterais pode comprometer severamente a estrutura se ela não estiver devidamente dimensionada”, alerta o especialista.

Para mitigar esses perigos, o engenheiro explica que, com o objetivo de reduzir riscos, torna-se extremamente importante que as edificações recebam vistoria técnica periódica em pórticos, vigas, tesouras e fechamentos, além da revisão de ancoragens nos pontos de fixação da cobertura. “Também é fundamental realizar a análise estrutural em conformidade com a norma NBR 6123 vigente e aplicar reforço estrutural quando necessário, seguindo rigorosamente o dimensionamento e as recomendações de um engenheiro habilitado. Por fim, em regiões com histórico de ventos fortes, a atualização de projeto pode evitar acidentes, perdas financeiras e até riscos à vida”, conclui.

Integrante do Comitê de Gestão de Crise do Crea-SC, Rogério orienta que, após a passagem de um tornado, a população deve adotar cautela extrema antes de retornar a qualquer imóvel. Para identificar se a estrutura está comprometida, é necessário observar sinais visíveis de danos, como trincas, rachaduras severas, afundamentos e desníveis no piso ou nas paredes. “Antes de entrar ou retornar para casa, é fundamental evitar riscos graves seguindo orientações de segurança essenciais: mantenha distância de edificações danificadas e só retorne ao imóvel após a liberação oficial das autoridades; evite qualquer contato com fios, cabos ou redes de energia elétrica caídas; e, caso sinta cheiro de gás, saia da residência imediatamente. Além disso, é imprescindível acionar prontamente as autoridades competentes, como a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros e as forças policiais, para a avaliação segura da área afetada”, orienta Bonini.

Fernanda Pimentel e Julianna Curado
Equipe de Comunicação do Confea
Fotos: Crea-SC