Brasília, 30 de março de 2011
O ministro do Esporte, Orlando Silva, e demais autoridades envolvidas com a Copa do Mundo de 2014 (representantes da Infraero, Novacap, Controladoria Geral da União, embaixada da África do Sul, entre outros) se reuniram, na última terça-feira, 29/3, na sede do Crea-DF, em Brasília, na Audiência Pública sobre as obras para a Copa, realizada pelo Confea/Crea. Próxima audiência ocorrerá em Belo Horizonte, no dia 5/4 (confira a programação das audiências).
O quarto painel da programação do evento abordou legado e voluntariado e contou com a participação de representantes das embaixadas da África do Sul e do Reino Unido. “A Copa do Mundo é possivelmente o maior evento esportivo que terá vindo a Brasília. É também a maior janela que vocês terão para mostrar sua cidade, seja por televisão ou para os turistas que virão”, disse um dos representantes da embaixada da África do Sul, Arnold Lyle, que abordou o legado que a Copa pode deixar para as cidades sede e para o país, compartilhando a experiência de seu país. “Tudo o que forem fazer devem pensar em depois de 2014. A Copa do Mundo dura 30 dias. Em um piscar de olhos, já acabou. Então, deve-se pensar no legado, no que ocorrerá depois. Isso exige um planejamento inteligente”, disse o africano.
Lyle citou os estádios como exemplo do maior legado. As cidades que hospedarem semifinais e a final terão que contar com um estádio de capacidade de 40 a 60 mil lugares para atender as exigências da Fifa, “o que exige muito investimento”, complementou. “Depois que a Copa acabar, você não precisará dessa capacidade toda para o estádio. Então tem que ser pensado como essa capacidade extra será utilizada para que o estádio continue viável”.
Um dos legados sociais na África do Sul, segundo Lyle, é um programa, em que, com apoio da Fifa, foram construídos centros para desenvolvimento esportivo e comunitário nas cidades sede. “Isso envolve, inclusive, treinamento do pessoal para cuidar do gramado”. Outro programa, o Futebol para a Esperança (Football for hope) – tratou do poder dos jogos para o desenvolvimento social. “Temos 20 centros de educação, saúde pública, e futebol por toda a África – isso inclui outros países, como Ruanda, Ganda, Quênia, Líbia. Também fundamos centro para cuidar do problema da AIDS”, complementou. “Então, quando o Brasil decide hospedar a Copa, vocês têm que decidir com o país que tipos de programas vocês gostariam que tivesse o apoio da FIFA. Tem que envolver a comunidade desde o início”. Durante a Copa do Mundo da África do Sul, 12 milhões de crianças puderam assistir aos jogos sem pagar ingresso por meio do programa “Minha Aventura Escolar de 2010”, em que as crianças competiam pelo ingresso ao participar de iniciativas comunitárias.
O representante da embaixada da África do Sul ainda sugeriu que, durante a Copa de 2014, fosse abordada a reciclagem do lixo. “A questão ambiental é mundial, está na moda, é do momento. Então, você usa a Copa do Mundo para educar a sociedade sobre a reciclagem do lixo, por exemplo”, disse Lyle.
O segundo representante da embaixada da África do Sul, Simon, tratou sobre voluntariado, cujo recrutamento ocorreu não só na África do Sul, mas em outros países. “Usamos voluntários na polícia metropolitana, nos transportes, no turismo, serviços de informação, apoio logístico, aeroportos, nos estádios, etc”. No momento do recrutamento, ao fazer as entrevistas, Simon explicou que eles procuraram por fãs de esportes e pessoas amistosas e cooperativas. “Isso trouxe um legado muito grande na qualificação da juventude. Algumas pessoas não tinham experiência de trabalho e depois da Copa do Mundo já tinham esse item no currículo”, exemplificou. “É impensável realizar um evento da magnitude da Copa do mundo sem voluntários”, concluiu Simon.
Hooligans
A violência nos estádios foi algo tratado pelo embaixador do Reino Unido, nação em que o futebol gera competitividade violenta entre os torcedores. Alan Charlton, o embaixador, diz que esse problema era maior nas décadas de 1980 e 1990. “Hoje já lidamos com isso, é possível ver pais e mães com crianças nos estádios. Esse é um legado, por exemplo, de 1996, quando hospedamos o Campeonato Europeu de Futebol”, comentou. A ideia, segundo ele, é não ter somente polícia e as empresas terceirizadas de segurança privada, mas também pessoas empregadas dos estádios que não sejam, necessariamente, seguranças ou policiais. “São cerca de 400 pessoas que estão lá apenas para procurar qualquer problema de saúde ou violência e avisar as autoridades dos estádios”, disse o embaixador.
Turismo sexual
O professor da Universidade de Brasília (Unb) e diretor do Centro de Excelência em Turismo (CET) da UnB, Neio Campos, ressaltou a importância de se discutir a exploração sexual de crianças e adolescentes por turistas no contexto da Copa do Mundo. “Além das penalidades aplicadas, deve haver ações para sensibilizar e despertar os brasileiros para esse problema”, defendeu. Um dos princípios que orienta a sensibilização é, segundo Campos, disseminar o sentimento de corresponsabilidade. “Precisamos desvelar para a sociedade brasileira que esse crime é muitas vezes colocado para baixo do tapete. Deve-se formar uma grande rede de cidadãos com vistas a prevenir a exploração sexual de crianças e adolescentes, com base no turismo sustentável, na responsabilidade social. Para tanto, é necessária uma mudança cultural”, disse. “A Copa do Mundo, como um grande evento globalizado, chamará muita atenção para o país. Temos que deixar um legado social. Não há expressão mais rica para uma sociedade do que crianças e adolescentes sadios”, concluiu o professor.
Beatriz Leal
Assessoria de Comunicação do Confea
