Caminhos para o enfrentamento às agressões químicas dos nanoplásticos

Plástico no rio

Brasília, 17 de setembro de 2026.

Há algumas décadas, boa parte da população mundial convive diariamente em meio a muito mais do que pressupõem as velhas fórmulas químicas, que definem os elementos essenciais à vida. Por mais imperceptíveis que ainda sejam, embora muitos materiais tenham revolucionado o mundo moderno, contribuindo até para melhorias na saúde, os resíduos plásticos, mais conhecidos como microplásticos e nanoplásticos (MNPs), passaram a integrar o ambiente. Com isso, a água, o ar e até mesmo os alimentos, dentre outros, ganharam pouco a pouco partículas contendo estes agentes, cujas descrições são difíceis até mesmo para especialistas. Os conhecidos como microplásticos e nanoplásticos são objetos da série de reportagens Caminhos invisíveis: da Escola às nanotecnologias, produzida pelo Confea.

Conforme um dos pioneiros nesta área, o biólogo marinho britânico Richard Thompson, todos os ecossistemas estão envolvidos e sendo prejudicados por nanoplásticos. O termo criado por ele há 20 anos foi discutido no evento “Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos”, encontro transdisciplinar internacional, reunindo jovens e experientes cientistas preocupados com a poluição plástica. Concluído nesta sexta-feira (11/9), o evento trouxe o pesquisador britânico de volta ao país e foi fruto de uma parceria entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade de São Carlos (UFSCar) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo 

Plástico no rio

Com essa compreensão sobre a importância da unificação dos discursos entre profissões para o enfrentamento das agressões químicas dos polímeros, a série apresenta agora a visão sobre o tema da professora Roberta Cerasi Urban, uma das coordenadoras do Laboratório de Biogeoquímica Ambiental do Departamento de Química da UFSCar. 

Segundo ela própria descreve, sua pesquisa está na interface entre Química Ambiental, Química Atmosférica, além de Química Analítica, com foco atual em material particulado atmosférico, incluindo microplásticos e nanoplásticos (MNPs), bioaerossóis e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, suas fontes e seus efeitos na saúde e ambientais. Em resumo: na interface entre Química, Ciência dos Materiais, Engenharia e Toxicologia.

A toxicidade dessas partículas e a interação de MNPs com outros contaminantes ambientais, assim como o desenvolvimento de métodos que reproduzem melhor a exposição por inalação, também estão entre as suas preocupações. “Outra frente”, acrescenta, “está relacionada à sustentabilidade e ao ciclo de vida dos materiais, com o estudo de métodos para determinar os MNPs, incluindo os gerados durante diferentes etapas da reciclagem de tecidos poliméricos”. 
 

Plástico no rio
Momentos da captação de nanoplásticos em rio: poluição presente em todos os ambientes


Roberta aponta que o mestrado em Ciências, com ênfase em Química Ambiental, consolidou a sua formação em Química Ambiental e Química Analítica, mas a Química Atmosférica foi se afirmando ao longo do doutorado e, principalmente, do pós-doutorado.

“No mestrado, trabalhei com o desenvolvimento e a aplicação de um eletrodo modificado para determinação de cobre em matrizes aquosas. No doutorado, passei a trabalhar diretamente com partículas atmosféricas, estudando sua composição química, identificando marcadores, e suas fontes e implicações para a saúde e o ambiente. Depois, minha trajetória foi se estreitando para a determinação da presença de contaminantes no ambiente e seus possíveis efeitos sobre a saúde por meio de estudos epidemiológicos e toxicológicos”. 

 

Complementaram sua formação experiências na Universidade de Aveiro, em Portugal, e na Universidade de Birmingham, no Reino Unido.

A seguir, a química ambiental Roberta Cerasi Urban descreve desde suas impressões do cotidiano, lidando com o universo invisível dos nanoplásticos, até suas perspectivas acerca dos estudos realizados, desde 2023, sobre a degradação de máscaras utilizadas no estado de São Paulo, durante a pandemia da Covid-19.

Confea – A senhora lida com que tipos de materiais e preocupada com que momentos do ciclo dos nanoplásticos, sobretudo, a produção ou a degradação?


Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – Trabalhamos mais especificamente com os microplásticos e nanoplásticos (MNPs), compostos por diferentes polímeros plásticos. Nosso interesse envolve a quantidade presente no ambiente, as fontes de emissão e os possíveis efeitos destas partículas sobre a saúde humana.

Confea – A senhora também atua com aspectos da Engenharia de Nanomateriais? Como ela se aplica às suas linhas de pesquisa? Quais são as principais formas para evitar a degradação destes novos materiais criados para melhorar o desempenho de outros?

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – Minha atuação não é diretamente no desenvolvimento de novos nanomateriais, mas na interface entre Química, Ciência dos Materiais, Engenharia e Toxicologia. Um aspecto importante é entender como os materiais se comportam ao longo do tempo e o que acontece quando sofrem intemperismo, degradação ou fragmentação, e quais partículas podem ser geradas durante seu uso e descarte.

Também desenvolvemos estudos voltados ao reaproveitamento sustentável de resíduos e à avaliação de sua durabilidade e segurança. Nós trabalhamos principalmente com microplásticos e nanoplásticos ambientais, e existe uma diferença importante entre estudar partículas produzidas artificialmente e aquelas que realmente encontramos no ambiente.

Confea – Considerando que há diversos plásticos não identificados, conforme suas propriedades, e constituídos até mesmo por refugos de outros plásticos, o reaproveitamento indiscriminado do plástico vem sendo desaconselhado para reduzir os impactos dos nanoplásticos. Quais são os tipos de plásticos mais danosos e quais os principais riscos à saúde humana e animal?

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – Não é possível estabelecer um ranking dizendo que determinado plástico é sempre mais danoso que outro. No caso dos microplásticos e nanoplásticos, a toxicidade depende muito da composição polimérica e das características físico-químicas da partícula, como tamanho, forma, área superficial, carga e química de superfície, além da concentração e do tempo de exposição. Essas propriedades influenciam a forma como a partícula interage com células e tecidos, e há estudos mostrando que até partículas do mesmo polímero podem produzir respostas diferentes quando apresentam características de superfície distintas.

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – Nos estudos experimentais, tanto com células quanto com animais, os efeitos mais recorrentes incluem estresse oxidativo, inflamação, alterações na função mitocondrial e, em algumas condições, danos ao material genético. Também já foram observados efeitos em sistemas respiratório, digestivo, reprodutivo e no desenvolvimento. Em humanos, porém, a evidência ainda é mais limitada: já há indícios de exposição e de possíveis associações com efeitos à saúde. 
 

Cabe destacar que muitos desses resultados vêm principalmente de estudos experimentais e que, especialmente em humanos, as evidências ainda são mais limitadas. Por isso, ainda não é possível estabelecer, de forma geral, relações de causa e efeito.

Confea – Seus estudos atingem também os bisfenóis? 

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – Os bisfenóis não são o foco central dos nossos projetos, e sim os microplásticos e nanoplásticos. Além disso, estudamos a interação dos microplásticos com outros contaminantes ambientais. Temos trabalhos envolvendo, por exemplo, 17β-estradiol, e atualmente investigamos a coexposição de MNPs com o contaminante atmosférico 6H-benzo[cd]piren-6-ona (6H-BPO) em um modelo de epitélio respiratório humano. Isso não significa que os bisfenóis sejam irrelevantes, eles fazem parte de uma discussão mais ampla sobre aditivos e substâncias associadas aos materiais plásticos.

Confea – Como é lidar diariamente com esse objeto de estudo invisível, nos mais diversos ambientes?

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – Esse caráter invisível é justamente o que torna o problema tão interessante e, ao mesmo tempo, tão desafiador. Quando pensamos em plástico, normalmente imaginamos uma garrafa, uma embalagem ou um tecido. Entretanto, estes materiais podem se transformar em partículas muito pequenas, que não conseguimos necessariamente enxergar, e que podem estar presentes no ar que respiramos, na água que bebemos, nos alimentos que ingerimos etc. Sabemos que os MNPs podem ser transportados pela atmosfera para regiões distantes de suas fontes, justamente por apresentarem baixa densidade e persistência ambiental. Em resumo, não estamos falando apenas de um resíduo visível, e sim de um contaminante emergente que pode circular entre diferentes compartimentos ambientais e chegar aos organismos por diferentes vias de exposição.

Confea – Como é o encontro entre a Química e outras disciplinas, como a Engenharia Química, de Materiais e de Alimentos, por exemplo? 
 

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – É um encontro absolutamente necessário. A complexidade das partículas atmosféricas, e dos sistemas ambientais, de maneira geral, demanda pesquisas interdisciplinares. Nos nossos projetos, por exemplo, a Química permite identificar a composição das partículas, desenvolver métodos analíticos, estudar sua transformação e identificar contaminantes associados. A Ciência e a Engenharia de Materiais ajudam a compreender propriedades dos materiais, processos de transformação, estabilização, degradação e reciclagem. Já a (eco)toxicologia é fundamental para compreender o que acontece depois que essas partículas entram em contato com um organismo.

 

Coleta atmosférica
Coleta atmosférica
Coleta atmosférica
Da coleta de campo à amostragem para a captação de nanoplásticos na atmosfera: pesquisa é a menina dos olhos da química ambiental Roberta Cerasi Urban

 

Confea – Que instituições mais desenvolvem estudos sobre os danos de micro e nanoplásticos e os usos de nanopolímeros no país?

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – Existe um número crescente de grupos brasileiros trabalhando nessa área, os quais não conseguiria citar. Nossas pesquisas, por exemplo, envolvem redes de colaboração nacional e internacional, incluindo pesquisadores da UFSCar, USP, UNICAMP, UNB, Universidade de Birmingham, Universitat Autònoma de Barcelona, CIEMAT e Universidade de Aveiro, entre outras, assim como de ministérios, dentre eles o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e o Ministério da Saúde.

Confea – A formação complementar oferecida por entidades como a Associação Brasileira de Polímeros (ABPol) contribui para o avanço desses estudos?

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – Acredito que sim, embora tenha participado apenas em palestras oferecidas pela Associação, recebo informativos de diversos cursos para formação de pessoas em polímeros, materiais, química analítica, toxicologia e meio ambiente, os quais permitem que pesquisadores compreendam o problema desde a produção do material até sua degradação e seus possíveis impactos. Ademais, utilizamos constantemente os dados fornecidos pela ABPol, que são essenciais para nossas pesquisas.

A fábrica de nanopolímeros inaugurada pela UFRJ em 2012 possibilitou a criação do Programa de Engenharia de Nanotecnologia (PENt), dois anos depois. Ela vem contemplando as expectativas dos pesquisadores?

Não possuo conhecimento acerca da fábrica ou mesmo do Programa, portanto, não posso afirmar que estejam contemplando às expectativas dos pesquisadores. O que posso dizer a partir da minha experiência é que formação interdisciplinar e estrutura são fundamentais para que essa área avance.

Confea – Em 2024, a senhora participou de uma oficina do ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima denominada Estratégia Oceano Sem Plástico, reunindo a sociedade civil e a academia para elaborar diagnósticos e propostas de ação, entre oito eixos (Normatização e Regulamentação; Prevenção e Circularidade; Remoção e Remediação; Ciência, Tecnologia e Inovação; Educação Ambiental e Sensibilização; Capacitação; Diagnóstico, Monitoramento e Avaliação e Fomento e Financiamento). Ela está surtindo resultado? Quais foram as principais constatações?

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – Minha participação nessa discussão ocorreu justamente porque acredito que a ciência precisa atuar em colaboração com os órgãos ambientais e outros formuladores na elaboração das políticas públicas. Acredito que a constatação mais importante das discussões realizadas no evento é que o problema precisa ser tratado ao longo de todo o ciclo de vida do plástico, e considerando todas as atividades dependentes desta cadeia. 

Isto é, precisamos atuar para a prevenção da poluição plástica: reduzir a geração desnecessária, melhorar a circularidade, aperfeiçoar a gestão dos resíduos, monitorar a contaminação e produzir conhecimento científico que permita estabelecer políticas e regulamentações. Os próprios projetos que desenvolvemos procuram contribuir nesse sentido, produzindo dados que possam ser utilizados por órgãos ambientais, formuladores de políticas públicas e sociedade.

Cabe destacar que o resultado mais relevante foi a publicação da Estratégia Nacional Oceano Sem Plástico.

Pesquisadora Roberta Cerasi Urban
Pesquisadora Roberta Cerasi Urban
Pesquisadora Roberta Cerasi Urban
Roberta Cerasi Urban entre algumas etapas das pesquisas desenvolvidas na UFSCar em torno dos microplásticos e nanoplásticos

 

Confea – O plástico é apontado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) como o principal componente do lixo encontrado no mar, chegando a 70%, no Brasil, com 325 mil toneladas de resíduos plásticos por ano. A estimativa é de que o material leve quatro séculos para se decompor. Fale um pouco sobre o enfrentamento a essa realidade invisível.

De fato, a contaminação por plásticos no mar tem sido destacada como um dos principais componentes do lixo nos oceanos, porém é preocupante em qualquer ambiente. Nossa atuação deve ser na prevenção da poluição plástica. Isso envolve reduzir usos desnecessários, principalmente de plásticos de uso único quando houver alternativas, ampliar a reutilização e reciclagem, melhorar a gestão dos resíduos e desenvolver materiais considerando todo o seu ciclo de vida. Além disso, é fundamental monitorar microplásticos e nanoplásticos e avaliar seus impactos, assim como estabelecer regulamentações baseadas em evidências científicas. A própria reciclagem precisa ser aprimorada: ela é fundamental para a economia circular, porém, alguns processos podem gerar partículas que precisam ser determinadas.

Confea – Essa contaminação também está presente nos sistemas de água doce e até na atmosfera e é preocupante em qualquer ambiente. Ela age com a mesma intensidade em países desenvolvidos e em países em desenvolvimento? Os danos relacionados a esses canais também dependem das suas características regionais?

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – A contaminação não ocorre com a mesma intensidade em todos os lugares. As características ambientais, sociais e econômicas de cada região interferem tanto nas fontes de emissão, quanto no transporte, na exposição e nos potenciais efeitos. Na atmosfera, por exemplo, fatores como tamanho e características das partículas, temperatura, precipitação e condições meteorológicas influenciam seu transporte e deposição. Por isso é tão importante produzir dados locais. Não podemos simplesmente pegar os resultados obtidos em uma cidade europeia ou asiática e assumir que eles representam São Carlos, Manaus ou outras regiões brasileiras.

Confea – As mudanças climáticas podem agravar as contaminações em todos esses ambientes? Há estudos voltados para a redução dos impactos em populações mais vulneráveis?

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – Essa é uma questão que merece mais estudos para determinar exatamente como as mudanças climáticas modificarão a dinâmica destas contaminações por macro, micro e nanoplásticos. Sabemos, entretanto, que fatores climáticos interferem no transporte e na transformação de contaminantes ambientais. 
 

Obviamente, existe uma preocupação especial com populações mais expostas e vulneráveis, para que as medidas de prevenção sejam direcionadas de forma adequada, inclusive reforçando a necessidade de estudos de avaliação de risco. No entanto, não posso afirmar sobre estes estudos, dado que não atuo diretamente nesta área.

Confea – Quais foram as conclusões dos estudos com o uso de máscaras durante a pandemia?

Quim. Amb. Roberta Cerasi Urban – A pandemia trouxe uma situação muito particular: as máscaras foram fundamentais para a proteção da população e para o controle da disseminação da Covid-19, porém, acarretaram o aumento de resíduos poliméricos. Isto porque as máscaras descartáveis são constituídas principalmente por polímeros, especialmente polipropileno, além de poliuretano, poliacrilonitrila, poliestireno e polietileno. O uso das máscaras foi fundamental para o controle da pandemia, portanto não se trata de questionar sua importância sanitária. O problema é o destino desse material depois do uso.

Plásticos coletados pelos alunos da professora Roberta Cerasi Urban: pesquisas para o futuro
Plásticos coletados pelos alunos da professora Roberta Cerasi Urban: pesquisas para o futuro por meio da degradação ambiental de hoje

 

Os estudos que avaliamos mostraram que as máscaras descartáveis podem liberar micro e nanoplásticos durante processos de degradação, incluindo exposição à radiação ultravioleta, água, detergentes, água do mar e abrasão. Também foram observados processos de lixiviação de outros elementos e compostos.

Por isso, a lição da pandemia é que precisamos pensar em estratégias melhores de gerenciamento desses resíduos e em materiais que conciliem segurança sanitária, desempenho e menor impacto ambiental. 
 

Henrique Nunes 
Equipe de Comunicação do Confea

Fotos: Acervo pessoal da professora Roberta Cerasi Urban

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