Acessibilidade exige planejamento e compromisso ético dos profissionais

Aracaju, 15 de outubro de 2026.

Garantir que todas as pessoas possam circular com segurança, autonomia e dignidade exige mais do que legislação e tecnologia: depende de planejamento urbano, consciência e compromisso dos profissionais. O tema foi debatido na 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea), em Aracaju (SE), com relatos de experiências pessoais e propostas para ampliar a acessibilidade nos espaços públicos.

Debate na 81ª Soea reúne representantes da gestão pública e da sociedade civil para discutir caminhos que ampliem a acessibilidade e a participação das pessoas com deficiência

Segundo o Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais de idade. O debate destacou o desenho universal, a eliminação de barreiras físicas e comunicacionais, a inclusão digital e a articulação entre poder público, profissionais e sociedade para transformar direitos em soluções concretas.

Kita Xavier, presidente do Crea-SC e moderador do encontro, abriu a discussão com uma reflexão sobre como as cidades são construídas e a importância de colocar as pessoas no centro dos projetos. “Acessibilidade não é obrigação, é o respeito que temos a todas as pessoas. Engenharia e tecnologia trabalhando juntas para que as pessoas consigam ir e vir com dignidade”, afirmou.

Experiência que transforma

Maria do Carmo Tourinho Ribeiro, presidente da Associação Brasileira de Autismo (ABRA), mãe de um filho autista com necessidade de suporte, compartilhou os desafios da inclusão e a conciliação entre trabalho, acompanhamento institucional e cuidados familiares, em um período sem escolas inclusivas. Também destacou a importância da acessibilidade física, digital e tecnológica, da fiscalização e de iniciativas que alcancem os bairros e o interior, além das áreas centrais. 

Maria do Carmo Tourinho Ribeiro — “O interior do estado também precisa desse direito”, ao defender acessibilidade para todos os municípios

Ao citar intervenções nas orlas de Aracaju e na Universidade Federal de Sergipe (UFS), defendeu que os direitos sejam garantidos em todo o estado. “O interior do estado também precisa desse direito. Tem que ser igual para todos”, afirmou. Sobre o combate ao preconceito, acrescentou: “A inclusão é feita na escola, mas a educação e o respeito vêm de casa”.

Inclusão como política pública

Camilla Feitosa Oliveira, secretária municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Aracaju, relatou sua trajetória como mulher com nanismo e deficiência visual degenerativa. Estudante de Jornalismo, massoterapeuta, palestrante e atleta de halterofilismo, contou que o esporte a ajudou a superar barreiras e ampliar suas possibilidades. À frente da secretaria, destacou a articulação com áreas como Turismo, Esporte e Lazer e Cultura para integrar ações e ampliar a acessibilidade nos serviços e espaços públicos. “Eu escolho não me limitar. Agora, tenho a missão de buscar inclusão e acessibilidade para o máximo de pessoas que eu consiga alcançar”, afirmou.

Camilla Oliveira — “Eu escolho não me limitar”, ao destacar sua missão de ampliar a inclusão e a acessibilidade

Acessibilidade desde o projeto

Isadora Rodrigues Nascimento Santos, secretária nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência e pessoa com deficiência visual, ressaltou que uma cidade moderna precisa garantir circulação segura e autonomia, não apenas oferecer infraestrutura e tecnologia. Defendeu o desenho universal e a inclusão desde a concepção dos projetos, considerando as diferentes necessidades e as barreiras enfrentadas por cada pessoa.

Isadora Santos — “Acessibilidade não é um favor, é um dever”, ao ressaltar a responsabilidade dos profissionais na aplicação das normas

“Não podemos pensar em uma solução que seja única. Não está relacionada à condição individual de cada pessoa, mas à sua interação com as barreiras que encontra”, explicou. Ao encerrar, destacou a responsabilidade dos profissionais e dos conselhos na fiscalização e na aplicação prática das normas. “Acessibilidade não é um favor, é um dever. Não é secundária.”

Responsabilidade profissional

Daniel Faganello, representante do Confea no Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade), destacou que a falta de acessibilidade não decorre da ausência de legislação, mas da falta de consciência e da aplicação efetiva do conhecimento técnico. Com base em sua experiência como secretário municipal de urbanismo e planejamento na cidade de Concórdia (SC), defendeu que os profissionais tenham uma visão ampla do planejamento urbano e que os municípios contem com equipes técnicas capazes de desenvolver soluções integradas. 

Daniel Faganello — “A calçada é o palco da cidadania”, ao enfatizar a importância de rotas acessíveis no planejamento urbano

Também ressaltou que a acessibilidade começa calçadas, muito antes das edificações. “O pouco bem feito é melhor do que o não feito”, afirmou. “A calçada é o palco da cidadania. Se o caminho falha, o acesso falha.” Para ele, cabe aos profissionais e aos conselhos contribuir para que as normas se traduzam em espaços públicos seguros, acessíveis e inclusivos.

 

Reportagem: Adriano Comin (Crea-SC)
Edição: Julianna Curado (Confea)
Equipe de Comunicação da 81ª Soea
Fotos: Dbrothers e Sto Rei/Confea
Gestão de fotos: Paula Moreira (Confea)