Reforma Tributária na Engenharia: especialistas destacam impactos sobre custos, contratos e fluxo de caixa

Aracaju, 15 de outubro de 2026

A Reforma Tributária e seus impactos sobre a gestão financeira das empresas e dos profissionais da engenharia estiveram em debate na tarde da última quinta-feira (15/10), durante a 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea), realizada em Aracaju (SE). O painel Reforma Tributária na Engenharia reuniu Fernanda Marinela, Luis Cesar Bigonha e Adriana Cardoso Santos, com mediação de Natalie Sonza Diefenbach, superintendente de Contratos e Parcerias do Confea.

A abertura foi conduzida por Fernanda Marinela, advogada, professora de Direito Administrativo, autora de obras jurídicas e assessora da Presidência do Confea. Ao abordar o início da implementação da Reforma Tributária em 2026, ela ressaltou que as mudanças exigem preparação e adaptação, não podendo ser compreendidas como uma alteração imediata e isolada nos procedimentos contábeis. Ela alertou, ainda, que as alterações não serão feitas de uma hora para outra: “A reforma tributária não é apertar um botão e amanhã mudou tudo, não se trata de uma atualização contábil. É uma reengenharia de custos”.

Fernanda Marinela, advogada, professora de Direito Administrativo, autora de obras jurídicas e assessora da Presidência do Confea

Durante a apresentação, Fernanda abordou a formação de preços, com destaque para o BDI (Benefícios e Despesas Indiretas), a engenharia de custos, a segurança dos contratos e a importância de integrar as perspectivas estratégica e contábil no planejamento das atividades profissionais e empresariais. “Por décadas, o desenvolvimento brasileiro foi contido por uma estrutura tributária fragmentada”, pontuou. Para a especialista, compreender as regras tributárias é um fundamento importante para o desenvolvimento, especialmente diante das transformações que exigem revisão de processos, contratos e modelos de gestão.

 

Tributação e custos precisam ser analisados de forma integrada

Na sequência, Luis Cesar Bigonha, CEO da Beauty Contabilidade, diretor da FecomercioSP e da Câmara Brasileira de Serviços, apresentou uma abordagem voltada à construção das regras tributárias e à atuação institucional nas discussões sobre a Reforma. “Nossa leitura não começa pelo texto final. Ela começa onde a lei foi construída”, afirmou.

Bigonha destacou a atuação institucional da FecomercioSP, incluindo a defesa da competitividade das empresas e as discussões relacionadas ao crédito tributário vinculado ao Simples Nacional. Em sua exposição, apresentou um roteiro para compreender os efeitos da reforma, abordando as mudanças na tributação do consumo, a identificação de contribuintes e não contribuintes, as reduções, os diferimentos e os créditos presumidos, além da necessidade de avaliar cada situação de maneira individualizada.

Luis Cesar Bigonha, CEO da Beauty Contabilidade, diretor da FecomercioSP e da Câmara Brasileira de Serviços

O especialista também ressaltou que os custos de uma atividade empresarial vão além dos tributos. Segundo Bigonha, um projeto técnico percorre diferentes etapas, envolvendo contratos, licenças, conformidade regulatória e capital de giro. Nesse contexto, a tributação não deve ser analisada como uma camada isolada, pois está diretamente conectada a cada uma dessas etapas e influencia o resultado financeiro do negócio.

A abordagem reforçou a importância de uma visão integrada, que considere os custos operacionais, as obrigações legais e o planejamento financeiro na tomada de decisões. Bigonha também chamou atenção para quatro fundamentos que devem orientar a análise empresarial: margem, tributos, crédito e caixa. A partir desses elementos, defendeu a importância de tratar a Reforma Tributária como uma decisão de negócio, com consequências que ultrapassam o cumprimento das obrigações fiscais.

Formação de preços e planejamento do fluxo de caixa

A apresentação ganhou formato de mesa-redonda com a participação de Adriana Cardoso Santos, advogada tributarista, estrategista empresarial e CEO da Beauty+ Contabilidade, que se juntou a Bigonha para aprofundar a discussão sobre os efeitos práticos das mudanças tributárias. Ao apresentar situações comparativas, os especialistas demonstraram como duas empresas que praticam o mesmo preço podem apresentar margens de resultado diferentes, a depender de sua estrutura tributária, dos créditos aproveitados e da organização financeira. “Vocês precisam ser estratégicos nesse momento”, ressaltou Bigonha, ao destacar a necessidade de avaliar as particularidades de cada negócio antes de definir preços e tomar decisões financeiras.

Adriana Cardoso Santos, advogada tributarista, estrategista empresarial e CEO da Beauty+ Contabilidade

Adriana, por sua vez, enfatizou a importância do planejamento do fluxo de caixa durante a transição para o novo sistema tributário. “O caixa precisa ser analisado. Até 31 de dezembro, o pagamento é de uma forma; a partir de 2027, vamos ter outra forma de recolhimento”, pontuou, chamando a atenção para a necessidade de antecipar os efeitos financeiros das mudanças.

Na exposição conjunta, os palestrantes apresentaram simulações sobre a nova tributação e questionaram onde, efetivamente, uma empresa poderá ganhar ou perder com as alterações. Os exemplos envolveram cenários de carga tributária efetiva, aproveitamento de créditos e impactos sobre o caixa, ilustrando como empresas com faturamento e preços semelhantes podem experimentar resultados financeiros distintos.

Os valores apresentados foram utilizados como exemplos, reforçando que os resultados dependem das características de cada operação, do regime tributário aplicável e dos créditos passíveis de aproveitamento. Os especialistas também destacaram que a avaliação dos impactos financeiros não deve se limitar a um exercício pontual. O planejamento precisa considerar o período de transição e seus reflexos ao longo dos próximos anos. “O impacto do caixa tem que ser mapeado por cinco anos”, complementou Adriana, ressaltando a importância de projetar cenários e acompanhar os efeitos das mudanças sobre a disponibilidade de recursos das empresas.

Reportagem: Manoel Nobrega Netto (Crea-PB)
Edição: Beatriz Leal Craveiro (Confea)
Gestão de fotos: Paula Moreira 
Equipe de Comunicação da 81ª Soea
Fotos: Sto Rei e DBrothers/Confea