
Aracaju (SE), 14 de outubro de 2026.
Os desafios da drenagem urbana diante das mudanças climáticas e a necessidade de planejamento de longo prazo estiveram no centro do painel “Cidades em Transformação: Engenharia, Drenagem Urbana e Desenvolvimento Sustentável” realizado na tarde desta quarta-feira (14), durante a 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea). O encontro reuniu o diretor do Plano Geral de Drenagem de Lisboa, eng. eletron. José Fernando da Silva Ferreira; e o secretário municipal de Infraestrutura e Obras (Siurb) de São Paulo, eng. Marcos Monteiro, para apresentar experiências, soluções técnicas e estratégias de enfrentamento às enchentes e inundações.
O conhecimento técnico dos palestrantes e a relevância dos projetos apresentados e que podem servir de referência aos municípios brasileiros foram destacados na abertura pelo presidente do Confea, eng. telecom. Vinicius Marchese, diante de um auditório lotado.
Primeira mulher a presidir o Crea-SP em seus 90 anos de história, a eng. civ. Lígia Marta Mackey também esteve presente e ressaltou a importância da engenharia para o desenvolvimento das cidades e a construção de soluções capazes de responder aos eventos climáticos extremos. “Não podemos pensar na drenagem somente quando algo acontece. Precisamos planejar”, enfatizou. A presidente também agradeceu à Ordem dos Engenheiros de Portugal pela confiança e pela parceria institucional, promovido pelo Confea.

O painel marcou o lançamento da Cartilha para Diagnóstico e Priorização de Infraestrutura Hídrica, desenvolvida pelo Crea-SP para apoiar gestores públicos na identificação de necessidades, na definição de prioridades e no planejamento de investimentos. O documento é resultado de contribuições e discussões técnicas de profissionais que buscaram reunir referências de Lisboa e São Paulo, respeitando as particularidades de cada município.
Moderador do painel, o conselheiro federal geól. Ronaldo Malheiros, destacou a importância do tema e afirmou que a drenagem urbana não pode ser tratada de forma isolada ou apenas como resposta emergencial. “É necessário conhecer as características de cada território, estabelecer indicadores e estruturar políticas públicas que tenham continuidade para além dos mandatos de governo”, apontou.
Malheiros também destacou o trabalho do comitê responsável pela elaboração da cartilha e a importância de transformar o conhecimento técnico em um instrumento acessível às administrações municipais. “Muitas prefeituras não dispõem de equipes técnicas suficientes para avançar em projetos de infraestrutura hídrica. A proposta destas cartilhas é que o documento alcance gestores, associações e prefeitos, contribuindo para a construção de políticas públicas permanentes. É necessário pensar também em como podemos implantá-la.”

Lisboa: planejamento para enfrentar chuvas extremas
O engenheiro José Fernando da Silva Ferreira apresentou a experiência de Lisboa na implantação do Plano Geral de Drenagem, cuja estratégia foi aprovada em 2008, mas somente implantada em 2016. “O projeto nasceu da necessidade de enfrentar um problema histórico: as inundações que atingem diferentes regiões da capital portuguesa há séculos. Entre as principais soluções estão a construção de grandes coletores subterrâneos, os chamados túneis de drenagem, projetados para transferir volumes excedentes de água entre bacias hidrográficas e reduzir os riscos de inundação em áreas críticas durante episódios de chuva intensa”, explicou Ferreira.
O plano reúne diferentes frentes de atuação: controle da água na origem, implantação de reservatórios de retenção e infiltração, reforço e reabilitação da rede de saneamento e ampliação do conhecimento sobre o funcionamento da infraestrutura existente. O palestrante destacou que obras dessa dimensão exigem persistência, conhecimento especializado e articulação política. “A implantação ultrapassa o período de uma gestão municipal e depende de decisões sustentadas pelo interesse coletivo. No caso de Lisboa, os túneis foram dimensionados considerando um tempo de recorrência de 100 anos e uma vida útil prevista também de 100 anos.”
Durante a apresentação, José mostrou exemplos de intervenções, como bacias de contenção e infiltração, além de estruturas de transvase entre bacias. A execução envolveu escavações de grande porte, com volume estimado de 520 mil metros cúbicos de material, e a utilização de uma máquina tuneladora de aproximadamente 130 metros de comprimento. O engenheiro também destacou a realização de cerca de 3,9 mil vistorias no contexto dos trabalhos apresentados.

Para José Fernando, o planejamento precisa ser acompanhado de atualização permanente dos dados, monitoramento das redes e manutenção da infraestrutura. “Conhecer o sistema é fundamental, mas é preciso reconhecer que o conhecimento técnico deve evoluir continuamente diante das transformações das cidades e dos padrões de precipitação.”
São Paulo: dados, natureza e planejamento territorial
O secretário municipal de Infraestrutura e Obras de São Paulo, engenheiro Marcos Monteiro, apresentou os instrumentos adotados pela capital paulista para enfrentar os desafios da drenagem urbana. Entre eles estão os Cadernos de Drenagem, que orientam o diagnóstico das bacias hidrográficas, identificam pontos críticos e ajudam a definir intervenções prioritárias.
A iniciativa prevê ampliar a cobertura desses estudos, avançando dos cinco cadernos apresentados para uma meta de 50. Os documentos consideram características do território, como relevo, encostas, ocupação urbana e potencial de infiltração do solo, oferecendo subsídios para a escolha de soluções adequadas a cada região. “Um diagnóstico confiável depende de dados consistentes. Por isso, o planejamento envolve o uso de ferramentas de georreferenciamento, informações disponíveis em plataformas municipais, projetos em andamento e acompanhamento das obras entregues.”
O secretário também chamou atenção para os efeitos de intervenções que aceleram o escoamento da água. “A canalização de córregos, por exemplo, pode aumentar a velocidade da correnteza e transferir o problema para regiões mais baixas, reforçando a necessidade de uma visão integrada da bacia hidrográfica”, disse Monteiro.

Entre as alternativas apresentadas estão jardins de chuva, bosques urbanos, parques, plantio de árvores e estruturas que favorecem a infiltração e a retenção da água. Também foi abordado o uso de áreas alagáveis construídas, conhecidas como wetlands, que atuam como filtros ecológicos por meio da interação entre água, solo, plantas e microrganismos, contribuindo para a melhoria da qualidade hídrica.
A experiência paulista inclui ainda iniciativas de cooperação internacional, como a parceria com parceria com a cidade de Copenhague, e a participação da população em audiências públicas para discutir propostas e prioridades. A iniciativa reforça o papel da engenharia na formulação de políticas públicas e na construção de cidades mais preparadas para os eventos climáticos extremos.
Reportagem: Jô Santucci (Crea-RS)
Edição: Fernanda Pimentel (Confea)
Equipe de Comunicação da 81ª Soea
Fotos: Sto Rei e Dbrothers/Confea
