Aracaju, 14 de outubro de 2026.
Da produção das matérias-primas ao envase, a cerveja percorre uma cadeia produtiva que envolve tecnologia, controle de processos e conhecimento especializado. Embora seja uma das bebidas mais presentes na cultura e no consumo brasileiros, sua fabricação depende de profissionais habilitados para desenvolver produtos, aprimorar processos e contribuir para a qualidade e a segurança do que chega ao consumidor. Essa relação entre inovação e Engenharia foi tema de debate na 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea), na palestra Inovação na Indústria Cervejeira: Ingredientes Nativos, Processos e Qualidade da Bebida.
Segundo o Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o Brasil chegou a 1.954 cervejarias registradas em 2025, distribuídas por 794 municípios. O setor também contabilizou 44.212 produtos cervejeiros registrados. A diversidade do mercado e as mudanças nas preferências dos consumidores ampliam as oportunidades de inovação, mas também exigem atenção às matérias-primas, às tecnologias de fabricação e aos padrões de qualidade, evidenciando a importância da responsabilidade técnica para garantir qualidade e segurança alimentar.

Conhecimento técnico e responsabilidade no desenvolvimento de produtos
A engenheira agrônoma Jéssica Jaqueline Jaguela, coordenadora de processos no Grupo Petrópolis, juíza internacional e eleita Cervejeira do Ano em 2024, destacou a importância do conhecimento técnico sobre matérias-primas e processos para desenvolver produtos inovadores sem comprometer a padronização da bebida. No caso dos ingredientes nativos, o trabalho envolve caracterizar a matéria-prima, avaliar suas aplicações e adaptar os processos industriais às suas características. A expectativa do consumidor de encontrar um produto com as mesmas características, mesmo diante de variações nas matérias-primas, exige domínio técnico e capacidade de intervenção.

Jéssica também ressaltou a necessidade de uma visão integrada da produção e de atuação preventiva, considerando que os processos envolvem organismos vivos. O acompanhamento das etapas produtivas permite identificar alterações e realizar intervenções quando necessário, contribuindo para a qualidade e a consistência do produto final. “Hoje no Brasil, temos uma infinidade de ingredientes que podem ser utilizados e um potencial para essa utilização. Essa inovação tem que andar junto com conhecimento técnico sobre esses ingredientes,” pontuou Jéssica.
Cervejas sem álcool ampliam espaço no mercado
A engenheira de alimentos Bárbara Andrade Mörtl, sócia cervejeira na Luci Cervejaria e extensionista na Epagri/SC, abordou o avanço das cervejas sem álcool, categoria que vem conquistando espaço e se consolidando como uma tendência de consumo. A expansão desse segmento amplia as possibilidades de atuação da indústria e exige atenção às tecnologias utilizadas na produção e às características esperadas pelo consumidor.

Entre as estratégias de fabricação estão os métodos físicos, que removem o álcool após a fermentação, e os biológicos, que restringem sua formação durante o processo fermentativo. Conforme a Instrução Normativa nº 65, de 10 de dezembro de 2019, a cerveja sem álcool apresenta teor alcoólico de até 0,5% em volume, enquanto a cerveja com baixo teor alcoólico possui teor superior a 0,5% e de até 2,0%. “O Brasil é o segundo país que mais consome cerveja sem álcool, só perde para a Alemanha. A tendência desse mercado é crescer e se consolidar. As pessoas, de um modo geral, estão consumindo mesmo álcool, mas querem continuar consumindo cerveja”, afirmou.
Novos produtos e experiências acompanham mudanças no consumo
A engenheira química Fernanda Meybom Machado, sommelier de cerveja e juíza internacional, apresentou tendências que apontam para um mercado cada vez mais atento às preferências e experiências dos consumidores. A inovação vai além da bebida tradicional e envolve o desenvolvimento de produtos com características específicas, como cervejas proteicas e funcionais, além de opções com diferentes sabores e propostas de consumo.

A busca por saúde, bem-estar e funcionalidade, a valorização de ingredientes brasileiros e a expansão das bebidas sem álcool ou com baixo teor alcoólico estão entre os movimentos que influenciam o setor. Nesse contexto, a experiência associada ao consumo ganha relevância, levando a indústria a considerar diferentes públicos, gostos e ocasiões, sem deixar de lado a qualidade e o desenvolvimento técnico dos produtos. “Inovar é importante, mas dependendo da escala de trabalho, vai requerer outras estratégias importantes. Não quer dizer que inovar, não tenha padronização. Na indústria de bebidas e de alimentos, isso é obrigatório. Essa visão também é importante considerando os profissionais que podem atuar nesse mercado: engenheiros agrônomos, de alimentos e químicos”.
Reportagem: Adriano Comin (Crea-SC)
Edição: Julianna Curado (Confea)
Equipe de Comunicação da 81ª Soea
Fotos: Dbrothers e Sto Rei/Confea
