Roda Viva entrevista homenageada do Mérito de 2018

Brasília, 19 de agosto de 2026

Desafios da produção de alimentos, sustentabilidade, mudanças climáticas, fertilizantes, bioinsumos e segurança alimentar. Esses foram os temas que a bancada de jornalistas do Roda Viva (TV Cultura) dirigiu à engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa Mariangela Hungria, em um papo que durou quase duas horas, no último 20 de julho. Eleita pela revista Time, em abril, como uma das cem pessoas mais influentes do mundo, a cientista havia recebido, oito anos antes, a Medalha do Mérito do Confea, uma das principais honrarias concedidas a profissionais que contribuíram para o desenvolvimento da engenharia, da agronomia e do país.

mariangela roda viva

A indicação partiu do Crea-PR, estado onde Mariangela constrói a maior parte de sua carreira desde 1982, quando passou a atuar na Embrapa. Na época da homenagem, ela já acumulava mais de setecentos trabalhos publicados e havia lançado mais de vinte tecnologias para culturas como feijoeiro, soja, milho, trigo e pastagens de braquiárias, além de ter sido, entre 2001 e 2003, a primeira mulher a presidir a Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências desde 2008, ela já dedicava a pesquisa à fixação biológica de nitrogênio, tecnologia que dispensa fertilizantes nitrogenados e que se tornaria, anos depois, um dos pilares do reconhecimento internacional recebido pela cientista. À época, ela resumiu sua trajetória como a de alguém "orgulhosa por estudar algo que contribui para a produção nacional" sem abrir mão da sustentabilidade.

Agricultura regenerativa no Roda Viva

Na bancada de jornalistas, formada por nomes como Isadora Camargo, da CNN, Cassiano Ribeiro, da Globo Rural e da CBN, e Mauro Zafalon, da Folha de S.Paulo, a pesquisadora explicou que prefere o termo regenerativa a sustentável, porque a proposta vai além de manter o equilíbrio: envolve recuperar o que já foi perdido, sequestrar carbono e melhorar a saúde do solo, sempre produzindo mais com menos água, menos fertilizantes e menos agrotóxicos. Ela também fez questão de separar a atividade agrícola responsável do desmatamento ilegal, afirmando que não se pode confundir agricultura com crime travestido de produção.

Impacto econômico e ambiental da fixação biológica de nitrogênio

Segundo dados apresentados por ela no programa, atualizados para a última safra, o uso da fixação biológica de nitrogênio, tecnologia da Embrapa hoje adotada em 85% da área de soja plantada no país, gerou uma economia de 29 bilhões de dólares em fertilizantes nitrogenados e evitou a emissão de quase 280 milhões de toneladas de CO2 equivalente, o que ela comparou a tirar de circulação sessenta milhões de carros de porte médio rodando por um ano inteiro. A pesquisadora reforçou ainda que esses resultados não surgem da noite para o dia: são mais de quatro décadas de investimento contínuo em ciência até que uma tecnologia chegue ao produtor rural e produza impacto em escala nacional, argumento usado também para defender orçamento fixo e contínuo para a pesquisa pública, em um momento de dificuldades para a Embrapa.

Recuperação de pastagens degradadas sem desmatamento

Mariangela apresentou números do potencial de recuperação de áreas já abertas no país. O Brasil tem hoje cerca de 164 milhões de hectares de pastagem, dos quais metade, ou até 60%, está em algum estágio de degradação, uma área equivalente a tudo o que se cultiva atualmente no país. Recuperando esses cerca de 80 milhões de hectares degradados com biológicos, segundo ela, seria possível dobrar e, com ganhos de produtividade, até triplicar a produção brasileira sem derrubar uma única árvore.

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Reconhecimentos internacionais

Além da inclusão na lista Time100, na categoria Pioneiros, a cientista venceu em 2025 o World Food Prize, conhecido informalmente como o "Nobel da Agricultura". Sobre a repercussão da lista da Time, que costuma reunir nomes do cinema e da música, ela contou que ficou emocionada porque a indicação, em suas palavras, "furou a bolha do agro". A trajetória começou aos oito anos, quando ganhou da avó, professora de ciências, o livro Caçadores de Micróbios, sobre a vida de grandes microbiologistas, o episódio que a fez decidir seguir carreira na área.

O reconhecimento anterior

A presença de Mariangela Hungria em horário nobre, na rede nacional de televisão, oito anos depois de receber a Medalha do Mérito, reforça algo que o Sistema Confea/Crea e Mutua já vinha sinalizando desde 2018: o reconhecimento a profissionais cuja contribuição científica ultrapassaria as fronteiras da Agronomia para se tornar referência global em sustentabilidade e segurança alimentar.

Beatriz Leal
Equipe de Comunicação do Confea
Fotos: 
Débora Mendonça / Acervo TV Cultura
Luciano Pascoal / Arquivo Embrapa Soja